segunda-feira, 26 de junho de 2017

O general e os divergentes: um país dividido em facções.


A série de filmes da franquia "Divergente" constitui uma ficção científica baseada na obra literária de escritora americana Verônica Roth. Conta as aventuras e tensões dos personagens que vivem num tempo pós apocalíptico na cidade de Chicago. Naquela realidade a sociedade é dividida em 5 facções ou grupos, que levam em conta a filiação, as características pessoais e a meritocracia de cada indivíduo. As pessoas que são consideradas inaptas para figurar em qualquer das cinco facções vivem à margem da sociedade, sendo considerados "sem facção". Por outro lado, aquelas pessoas que demonstram habilidades e qualidades que as credenciariam para mais de uma facção são consideradas um perigo para a estabilidade social. São denominados de "divergentes" e devem ser identificados e exterminados. Naquela sociedade, o "pensar fora da caixa" ou ser demasiadamente "crítico" é considerado um ato subversivo. O sistema de facções é mantido desde a refundação da cidade após a guerra. Não é do interesse da classe dirigente mudar o sistema, pois se acham adaptados e em posição privilegiada dentro daquela concepção social. Porém, nem tudo funciona como deveria. As classes dirigentes das diversas facções acabam entrando em conflitos e guerras entre si por conta da supremacia administrativa. O terceiro filme da trilogia é muito revelador quando ficamos sabendo que a cidade é vigiada por um grupo externo, e que foi este outro grupo que instituiu o sistema de facções em seu início. Na verdade, o sistema de facções funcionava como um controle que não deixava aquela sociedade se desenvolver em sua plenitude. A influência externa mantinha a cidade dividida e consequentemente estagnada.

Acontece que nem sempre a ficção cinematográfica está totalmente divorciada da realidade histórica. Muitas obras possuem inspiração em temas que ocorreram de fato. A promoção de divisões em uma sociedade por forças externas imperialistas,  por exemplo, se deu no continente africano quando do processo de colonização. Os países imperialistas, ao exercerem sua dominação e influência no continente, realizaram a partilha do continente em zonas que não levaram em consideração as diferenças étnicas dos diferentes povos autóctones que habitavam o continente. Desta forma, com a descolonização se deu o reconhecimento de países que abrigam, em seu território, grupos rivais com histórico de oposição e violência entre si. Isto acabou servindo às potências europeias ocidentais como álibi e como pretexto. Álibi em relação a sua atuação predatória naquela terra, pois a violência que eclodiu após a sua retirada acabou gerando uma ideia de que sua presença na região servia como importante agente de mediação e civilidade. E, por outro lado, pretexto para que continuasse exercendo sua influência mesmo após a independência dos estados africanos, que sentiram a necessidade da antiga metrópole como mediadora dos conflitos étnicos internos.

É curioso e vale destacar que o General de Brigada Eduardo Dias da Costa Villas Boas, que assumiu desde fevereiro de 2015 o comando do Exército Brasileiro, compareceu à Comissão de Defesa Nacional do Senado Federal, onde fez um discurso em que salientou que um dos problemas graves pelo qual passa o país é algo parecido com a divisão em facções do filme acima aludido. Segundo o general, o país encontra-se dividido ou fragmentado segundo uma lógica que ainda remete à guerra fria. E que, por isso, falta um projeto nacional em que toda  a nação esteja envolvida.  Salientou que também está faltando a presença de grandes pensadores nacionais que possam estabelecer as diretrizes deste projeto. Ainda se disse preocupado com projetos que estão sendo enviados ao congresso Nacional possibilitando venda de terras fronteiriças a estrangeiros e quanto à exploração dos recursos minerais pelas multinacionais.

O general acerta quanto à atual questão política no Brasil. Não existe mais espaço para o diálogo entre as diversas frentes partidárias e ideológicas. A nossa atual divisão entre direita e esquerda - coxinhas e mortadelas - saiu do plano das ideias para o ódio pessoal.  E o ataque a qualquer pessoa que defende políticas sociais, que são tachados de comunistas ou "esquerdopatas", remete, sim, a uma lógica do tempo em que o ocidente "caçava" comunistas durante a guerra fria. Porém, nossas divisões internas vão muito além desta descrita pelo comandante do exército. Temos a abissal divisão de classes que opõe dramaticamente pobres e classe média. A divisão étnica que se remete ao período escravista dos tempos coloniais e que ainda hoje se reflete em nossa sociedade. Nas últimas eleições vem se revelando uma divisão regional rancorosa entre o sudeste e o nordeste. O aumento exponencial da intolerância religiosa. E, até, entre motoristas e pedestres. Veja o caso do motorista que atropelou vários skatistas. Sem contar com casos ocorridos entre motoristas e ciclistas. Enfim, vivemos numa sociedade beligerante que toma qualquer motivo, desde os mais graves até os mais banais, para se dividir e se odiar.

A questão da unidade nacional é tema caro a todos os países. Tanto que no Brasil vários intérpretes de nossa sociedade preferiu enxergar uma nação harmoniosa, sem as tensões provenientes de sua história colonial e escravista. O caso clássico foi do sociólogo Gilberto Freyre em sua obra "Casa Grande e Senzala". Nesta, o autor entende que existe uma suposta "democracia racial" no país. E que os problemas advindos das diferenças de classes não têm relação direta com a discriminação racial. Vários outros escritores seguiram esta linha, preferindo não enxergar as tensões étnicas impressas em nossa sociedade. Posteriormente, uma nova safra de autores iria corrigir esta visão ufanista da democracia racial brasileira. Florestan Fernandes foi um dos nomes de peso que apontou a miopia em não enxergar o alto nível de preconceito inserido nas nossas relações sociais. Uma obra de referência sobre o tema foi o livro "Preto no Branco", escrito pelo brasilianista americano Thomas Skidmore. Outros, como o professor Darcy Ribeiro, denunciavam o racismo mas entendiam que a grande diversidade humana que formou o país seria a chave para a construção de uma sociedade mais evoluída que qualquer outra. Teríamos o condão de aproveitar as melhores características de cada grupamento para moldar um novo ser humano. Esta visão está longe de se cumprir.

A verdade é que nossas divisões estão asfixiando o potencial do país. Claro que a sociedade sempre estará fragmentada nos mais diversos grupos segundo diferentes tipos de afinidades. O problema é quando não existe mais a possibilidade de diálogo entre os diversos atores e grupos sociais.

Desta forma, seguindo a trama do filme citado, resta saber até que ponto nossa fragmentação aguda é unicamente resultado das contradições internas e até que ponto pode haver um estímulo externo para manter o país atrasado.

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