quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Garotinho seria o "Zé Dirceu" de Crivella ?






Em certo sentido, a atual prisão de Garotinho pela polícia federal nos faz lembrar a prisão de José Dirceu durante o governo Lula. 

A prisão de José Dirceu ainda hoje é muito polêmica e controvertida no meio jurídico. Se haveria ou não provas robustas que fundamentassem tantos anos de prisão do principal articulador político do governo do partido dos trabalhadores. 

Muitos acreditam que a prisão de Dirceu pode ter sido o primeiro passo de um projeto para desacreditar e destituir o PT do comando máximo do país. O que realmente se concretizou anos depois.

Agora,vemos a prisão do principal avalista político da campanha de Crivella à prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, logo após às eleições municipais.

Crivella não tem qualquer ligação política ou ideológica com o Partido dos Trabalhadores ou com a esquerda. Contudo, ele também é um nome que nos parece não desejado por parte da elite conservadora por trás de boa parte da grande mídia. Inclusive, durante as eleições até transpareceu uma suposta boa vontade desses setores da mídia com Freixo e, por outro lado, uma posição ácida em relação ao candidato da igreja universal.

Ocorre que Crivella não é um órfão da mídia como as esquerdas. A igreja universal é detentora de um grande complexo midiático, entre televisões, rádios e jornal. Desta forma, Crivella tem garantido um lugar para seu discurso e realizar o embate de narrativas.

Não queremos dizer que Anthony Garotinho seja santo. Sabe-se que desde suas administrações no governo do estado do Rio de Janeiro sempre houve e pesou contra ele muitas denúncias, notadamente em relação à secretaria de segurança. Porém, o que nos motiva esta comparação é que a prisão do ex-governador se dê no contexto político atual.

Poderia, como proclamam algumas vozes, estar ocorrendo uma judicialização da política ?

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domingo, 30 de outubro de 2016

A derrota de Freixo desnuda o erro histórico do PSOL.






A derrota de Freixo na sua melhor chance de chegar à prefeitura demonstra o erro histórico do PSOL em ter participado dos movimentos de desestabilização do governo do partido dos trabalhadores desde 2013. Ainda que tenha sido contrário ao golpe em seus momentos finais.

Lá atrás, no ano de 2013, quando iniciaram-se os grandes protestos e muito quebra-quebra, eu me colocava em oposição aos movimentos, pois entendia já naquela época o altíssimo potencial daquilo tudo levar a uma situação de ingovernabilidade e haver a retomada dos partidos mais à direta ao poder, com a perda dos pequenos ganhos sociais conseguidos durante os anos de governo do PT.

Ainda lembro, na universidade, um desses jovens dinâmicos apoiadores do psol me confrontando por conta da minha negativa em relação a apoiar a "estratégia black bloc". O jovem ficava me perguntando, em tom desafiador: - então, qual é a estratégia que deveria ter? qual a estratégia? a estratégia?

Antes de se falar em estratégia, há que se saber o que você pretende (objetivo) e onde você está em relação ao que deseja. Depois, como diria o general chinês Sun Tzu, conhecer as suas habilidades e fraquezas como as dos seus concorrentes. E, na seara política, saber quem você necessita alcançar para que te ajude no processo.

Naquele momento, entendíamos que derrubar o governo do PT só serviria ao projeto político da retomada do poder das forças mais à direita no espectro político. Não que o governo federal da época fosse maravilhoso. Havia muitas críticas verdadeiras e sinceras. Em quatro mandatos o PT ainda havia feito muito pouco. Contudo, havia um pouco feito que os demais não tinham interesse em realizar. 

Por isso, entendia que naquele momento seria importante mobilizações para empurrar o governo no sentido de realizar as mudanças estruturais necessárias e não para guilhotinar as cabeças.

Acredito que o PSOL entendia ser o herdeiro político do eleitorado do partido dos trabalhadores. Após quatro eleições presidenciais seguidas, os psolistas devem ter entendido que se consolidara no país o voto nos partidos identificados com a esquerda. Que se o PT saísse do governo, o seu provável herdeiro seria o PSOL.

Então, o PSOL teria duas estratégias para se alavancar ao topo da pirâmide política: ou escalar as costas do PT para chegar ao cume ou balançar e mesa para que o PT tombasse.

Por muito tempo, o PSOL escolheu a segunda estratégia. O PSOL foi um dos braços e mãos que ajudaram a balançar a mesa para derrubar o governo. Sua presidente, Luciana Genro, até hoje apoia o impeachment. 

O problema é que o PSOL não fez a reflexão proposta pelo milenar Sun Tzu. O PSOL nem sabia o seu real tamanho e sua condição de tomar o lugar do PT e nem levou em consideração a força dos seus outros concorrentes, de direita, aos pleitos nacionais, estaduais e municipais.

Resultado, a mesa virou, o PT caiu, mas o PSOL não conseguiu aproveitar e herdar os despojos. 

Nesta eleição municipal de 2016, o candidato Freixo teve a melhor conjuntura de todas para ganhar a eleição. Foi para o segundo turno contra um candidato que possuía um altíssimo índice de rejeição por conta de suas ligações com a igreja universal. Se o Freixo fosse ao segundo turno com qualquer outro candidato de direita teria sido muito mais difícil para conseguir a vitória, já que seu nome também encontra forte resistência.

O resultado é que mesmo nesse contexto positivo, quando a própria imprensa não era simpática ao adversário, o Freixo não conseguiu vencer. 

O PSOL não pode sequer comemorar a votação com mais de 40% dos votos válidos, pois muitos desses vieram por conta da rejeição ao adversário e da campanha midiática contra o candidato da universal, que assusta mais à velha imprensa do que a atual esquerda.

Havia espaço para o PSOL crescer e se consolidar como força política sem precisar da derrubada do PT. O processo golpista acabou satanizando toda a esquerda, inclusive o PSOL, na mentalidade de boa parte do eleitorado.

E agora, com a prevalência da direita nos cargos diretivos e parlamento, medidas legislativas serão tomadas para tornar mais difícil a vida de partidos de esquerda que desejam seu lugar ao sol.

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sábado, 22 de outubro de 2016

A Mídia conservadora tradicional está pró-Freixo ou anti-Crivella ?



E a grande imprensa conservadora desembarcou de vez na campanha anti-Crivella. Há uma escalada visível de matérias de capa contra o candidato da universal. Uma das consequências do golpe parlamentar é a briga de diversos seguimentos da direita conservadora pelo poder. E um setor dessa direita conservadora que não agrada nem um pouco aos outros conservadores da globo e veja é o das igrejas neopentecostais. Nas décadas de 80 e 90 a globo esteve em "guerra" contra a Universal. Mas, ao contrário do que pretendia, a igreja do Edir Macedo continuou crescendo cada vez mais. No meio evangélico até produziram a frase "que a universal era igual a massa de bolo, quanto mais batem mais cresce". Agora, no vácuo de poder gerado pelo golpismo contra as esquerdas, pode ascender ao controle das instituições uma ala conservadora que é, em tese, hostil à Globo. Eles têm a sua própria televisão e com o poder político crescente poderão, em breve, tornar a globo um grupo de comunicação de quinta categoria.

O grande perigo nisso tudo é o PSOL acreditar que a Globo é sua aliada por supostamente apoiar o seu projeto ou a sua "ficha limpa". A globo e a Veja não são Freixo. Eles são anti-crivella. Entendem que depois tirar o Freixo e o PSOL é muito mais fácil que os candidatos da Universal. Vide o que fizeram no plano federal com Dilma. Na primeira eleição de Lula, em 2002, a grande imprensa conservadora tb se demonstrou pró partido dos trabalhadores. Naquela época, as crises econômica e social estavam se agravando rapidamente. A situação nas cidades, com as grandes greves gerais dos sindicatos, e no campo, com as cada vez maiores marchas do mst colocavam o Establishment em perigo. Era preciso um governo de "coalizão" para que os ânimos se acalmassem e a "paz" voltasse aos setores hegemônicos tradicionais. Isso foi conseguido com a "carta aos brasileiros" publicada pelo Lula. Após a primeira eleição de Lula, os setores conservadores da grande imprensa passaram a um ataque feroz contra o PT no governo federal. Apesar disso, o partido teve força para vencer mais 3 eleições seguidas. Quando a estratégia da imprensa mudou, ao revés de derrubar nas urnas se aliou ao grande golpe parlamentar, transformando as pedaladas em grande crime na mentalidade dos brasileiros.

O senador Roberto Requião conta que logo após a eleição de Lula, em 2002, ele teria alertado ao novo governo sobre a importância de se investir numa sólida rede de telecomunicações para defender as políticas sociais do governo. Ao que teria sido retrucado pelo então ministro José Dirceu: "Não precisamos, nós temos a Globo".

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Antiguidade Clássica: As origenas da Academia e do Liceu.





Estas palavras remontam à antiga Grécia e aos filósofos que edificaram suas escolas na cidade de Atenas.

A academia foi o nome dado por Platão à sua escola, fundada por volta de 387a.C. em Atenas. Da mesma forma, Liceu foi o nome atribuído por Aristóteles à escola que fundou na mesma cidade-estado grega por volta de 335 a.C..

O nome "academia" se deve a um cidadão ateniense chamado Academus. Este foi um guerreiro muito aclamado durante a guerra de Troia e que recebeu as honras de herói pelos seus feitos em batalha. Posteriormente, a cidade de Atenas prestou homenagem a ele construindo, num dado local da cidade, um jardim que foi batizado de "jardim de Academus". Tempos depois, Platão adquiriu parte deste terreno onde construiu a sua escola de filosofia. Para manter a homenagem, Platão nomeou sua escola de Academia.

De forma análoga, Aristóteles fundou sua escola nas proximidades de um templo erguido para o deus Apolo Liceu.  Daí a escolha do nome Liceu para denominar a escola. Era comum Aristóteles passear com seus alunos pelos jardins do templo de Apolo Liceu enquanto debatia os temas das aulas. Este procedimento ficou conhecido pelos atenienses como filosofia peripatética, ou seja, aquela que se ensina passeando. É interessante salientar que a palavra liceu significa "matator de lobos", no grego.

Estas palavras chegaram até os nossos dias designando os locais onde ocorre os processos educacionais. Muitas escolas recebem o nome de Liceu. O termo academia, geralmente, se refere às instituições de ensino superior, cujos membros são conhecidos como acadêmicos. O conjunto do pensamento produzido pelas instituições de ensino superior também é nomeado como pensamento acadêmico.


Russell, Bertrand. História do Pensamento Ocidental. ed especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.

quinta-feira, 31 de março de 2016

As Siglas dos Partidos Políticos podem enganar.



Ultimamente, os professores de história têm que enfrentar aquela recorrente pergunta de alguns alunos se o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores alemães era socialista, comunista ou qualquer coisa de esquerda por conta da palavra "socialista" no seu nome. 

Isto vem ocorrendo mais acentuadamente por conta da atuação de "intelectuais de hangout" como Constantino, Olavo e outros espalharem essas desinformações na rede para enganar os desavisados.
Aí, você, professor, tem que repetidamente fazer aquela longa explanação que apesar do nome na sigla o programa era de extrema direita, que recebia incrementos do empresariado para neutralizar o crescimento dos movimentos pró comunistas no operariado e etc.

Contudo, hoje, ao ver o programa eleitoral do PSC na televisão, lembrei dessa questão sobre o partido nazista. O nosso PSC dá uma boa analogia com o caso acima exposto. Pois o PSC é o exemplo clássico de que o nome nada tem em relação à atuação do partido.

Durante os 10 minutos do programa, duas coisas ficaram bem marcadas. Uma delas foi a lei de iniciativa do partido sobre a redução da maioridade penal. O partido deseja que os adolescentes possam ir para trás das grades graças à atuação parlamentar da egrégia sigla. A outra foi a filiação do deputado Bolsonaro, de discurso extremista, nas linhas do partido e que será provável candidato a presidência da república. Justo um político bem conhecido por suas declarações contrárias aos direitos das minorias, ,mulheres, negros, LGBT's, dos pobres do campo, entre outros.

Para quem não sabe, PSC significa Partido Social Cristão. Mas pelas suas propostas é fácil perceber que não tem nada de social. E nem de cristão !

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Avenida Central



Resenha de texto da autora Armelle Enders (brasilianista).



A autora Armelle Enders é historiadora titular da cadeira de história do século XIX na Universidade Paris 4, em Sorbonne, e conferencista de História do Brasil na Escola Prática de Altos Estudos de Paris. Trata-se de uma brasilianista, pois especialista em História do Brasil e, especialmente, do Rio de Janeiro.

Nesta obra, a autora cumpre o objetivo de esclarecer o contexto urbano da capital federal do Brasil, na época o Rio de Janeiro, durante a primeira república. Apontando as reformas empreendidas para mostrar ao mundo uma capital moderna, segundo os padrões europeus, e as questões decorrentes deste processo. Aborda a dicotomia entre o atendimento aos anseios da população das classes mais altas, atendidos pelas reformas, e o abandono dos populares que sofreram grandes percalços por conta das obras de revitalização da capital. E, por consequência, o clima de tensão que vai se manifestar em revoltas como a chibata e mais à frente a revolta da vacina.

O presidente Rodrigues Alves nomeou Pereira Passos como prefeito para cumprir o objetivo de promover a chamada “ação civilizatória” na capital, que seria a grande reforma que se daria em dois aspectos: as grandes obras urbanísticas e a reforma no âmbito comportamental.

Tendo Paris como inspiração, promoveu o alargamento das ruas, construção de praças ajardinadas, canalização dos rios, abriu a avenida central e promoveu a derrubada do Morro do Castelo, que os sanitaristas indicavam como motivo da falta de circulação do ar na cidade e consequente motivo para infestação de epidemias. Ainda sob pretexto sanitário e urbanístico, removeu vários sobrados que serviam de moradias coletivas, desalojando e empurrando para a periferia milhares de pessoas.

No que diz respeito ao comportamento, serviu para tentar tirar do centro da cidade as práticas mais populares, como venda de animais abatidos nas ruas, conduzir bois pelas vias publicas, proibição de ambulantes, combate ao candomblé e outras práticas religiosas de matriz africana e manifestações carnavalescas como o entrudo.

Com as reformas houve um deslocamento da vida cultural da Rua do Ouvidor para a Avenida Central, onde empresários pretendiam construir a Broadway carioca. Grandes exposições nacionais e internacionais foram realizadas para mostrar e atrair turistas para a cidade. E aos poucos ocorre a mistura de culturas na cidade, quando as tias baianas começam a ocupar espaços nas calçadas das principais ruas da cidade. A culinária e a música negra irão ganhar força na cidade.

No campo esportivo, de início se instalou na cidade o Jockey Club  Fluminense, inspirado no de Paris. Logo surgiram os clubes de remo com apelo popular. Contudo, os competidores eram oriundos das classes abastadas e restava aos populares a posição na torcida. Uma grande revolução esportiva ocorre quando Oscar Cox introduz o futebol na cidade. Surgem clubes ligados à elite, como o Fluminense, e na periferia coube ao Bangu difundir o futebol nos meios proletários. 

Por conta das tensões sociais, começam a aflorar revoltas, como a que foi liderada pelo marinheiro  João Cândido contra a forma com que os marinheiros, de origem humilde e na maioria negros e mestiços, eram tratados pelos superiores.

O artigo é muito interessante e demonstra as contradições de uma sociedade que, no início do século XX, apresentava aspirações europeias e teve dificuldade de enxergar a riqueza que a diversidade étnica poderia lhe conferir. Somente o contato dos diversos elementos durante o tempo, possibilitando a circularidade cultural, vai promover as sínteses que levarão ao Rio de Janeiro construir sua identidade peculiar e consolidar a posição de precursora das tendências nacionais.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Oração e o Tempo no Período Medieval.





Uma ocorrência comum para copistas, paleógrafos e pesquisadores que trabalham com antigas fontes primárias escritas é se deparar com receituários químicos, de remédios, comida e outros tipos de receitas onde aparecia a orientação de rezar durante o preparo.

Por exemplo, numa receita para se fabricar tinta de escrever pode-se encontrar algo assim: pese tantas gramas do pigmento Y, junte mais tantas do pigmento X, misture-os em água salgada, leve ao fogo para a fervura, REZAR 3 AVE-MARIAS E 3 PAI-NOSSOS, retirar do fogo, esperar esfriar.

Um pesquisador iniciante poderá pensar sobre a mentalidade excessivamente religiosa do cidadão medieval. Que talvez o indivíduo acreditasse que não daria certo o procedimento alquímico se não houvesse a interferência da transcendência divina.

Contudo, a explicação está na questão da contagem de tempo. Nas épocas que não era comum que se tivesse relógios em casa. Não existia nosso relógio de parede e nem de pulso. Muitas vezes o único relógio da localidade ficava na torre da igreja. Então, utilizava-se a referência das orações como forma de contar o tempo dos procedimentos.

Ao revés da receita dizer para ferver por 15 minutos, orientava tantas rezas no sentido de cumprir o tempo necessário para o cozimento.