terça-feira, 25 de julho de 2017

Para que um candidato "light", nas eleições presidenciais de 2018, tenha aceitação popular é necessário haver um bode na sala.



A teoria do bode na sala visa demonstrar uma fórmula para que o público aceite uma solução ruim pelo medo de ver uma outra ainda pior ser implementada. Então, conta-se uma fábula em que um pai de família, que morava numa casa simples, era permanentemente pressionado pelos familiares que se queixavam do tamanho pequeno da sala do imóvel. Por isso, ele se dirigiu até um homem sábio levando a questão e foi orientado no sentido de adquirir um bode e deixá-lo acomodado justamente na sala da casa. Então, a permanência dos moradores naquele cômodo passou a ser insuportável. Tanto que as pessoas apenas passavam pela sala e logo se recolhiam aos seus aposentos. Passado um mês, o pai de família se desfez do bode e todos passaram a novamente frequentar a sala, só que agora sem reclamações. Ao contrário, todos pareciam satisfeitos com o retorno à situação anterior.

Esta fábula do bode na sala me faz pensar nos acontecimentos que ocorrem neste ano de 2017 e que antecedem as eleições presidenciais do ano seguinte. Acontece que raramente vivenciamos no país uma fase em que não há nomes de peso e que sejam do agrado popular para concorrer ao pleito presidencial. O único candidato que realmente possui o carisma das grandes lideranças é o ex presidente Lula, mas que muito provavelmente será impedido de concorrer. Tirando este, vivemos um grande vazio de nomes que possam empolgar o eleitorado. A crise não é só política, mas também de material humano na política. E a crise se dá em todos os espectros políticos, da direita à esquerda.

Dos demais candidatos, Ciro Gomes apresenta o discurso mais contundente, mas até agora não empolgou o eleitorado de esquerda que deseja mobilizar. Os partidos mais à esquerda, como PSOL e PSTU também não possuem uma candidatura forte. O PSOL teve a desilusão do seu quadro mais forte perder as eleições no Rio de Janeiro para um bispo da Universal com alto grau de rejeição. No outro polo, a direita parece um deserto de novidades. Ainda com os velhos nomes da política paulista se degladiando pela cabeça de chapa. O moço de Minas Gerais que foi a grande aposta em 2015 parece com sérios problemas até mesmo para ganhar um pleito provinciano.

O status quo precisa desesperadamente de uma candidatura viável e forte de centro-direita. Afinal, não houve toda aquela mobilização de esforço para apear a primeira presidenta do poder à toa.

Neste quadro de total vazio, surge então a tática de colocar o bode na sala. Se a população acreditar que um candidato de extrema direita, com discurso totalmente inapropriado, tenha fortes chances de chegar ao topo da vida política nacional; então, se no último minuto da prorrogação vencer um candidato da direita mais light, acabará sendo recebido com sentimento de alívio pelo desesperado eleitorado.

Somente com esta estratégia sendo regida a partir dos subterrâneos políticos, que consigo entender um candidato que aparece com boas chances nas pesquisas apresentar atitudes e discursos totalmente desarrazoados. Nos últimos tempos já se falou que fazendeiros devem receber camponeses sem terra com arma de fogo. Que os simpatizantes e partidos comunistas devem ser banidos com a criminalização deste ideário. Que o descendente de quilombola não serve sequer de mero reprodutor. Dentre várias outras bobagens que certamente inviabilizarão totalmente suas chances de vitória. Afinal, ainda acredito que a maioria da população brasileira tenha um  mínimo de bom senso!

A única lógica que consigo percebe neste caos é que estão usando, como diria o saudoso "Agente 86", o velho truque do bode na sala !!!

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O Martelo das Feiticeiras: o manual que condenou milhares de mulheres à fogueira e o gênero das divindades.


Queimem a bruxa ! Queimem a bruxa !! Este era um coro recorrente em várias praças espalhadas pela Europa no período da renascença. Ao mesmo tempo que a sociedade europeia acompanhava feitos que entrariam para a história, como as grandes viagens marítimas descobrindo novos mundos e a ascensão da burguesia, as mulheres ardiam em chamas nas fogueiras da inquisição sob a acusação de bruxaria.

O imaginário construído desde o medieval cristão imprimia nas mentalidades a imagem de mulheres que estabeleciam pactos com o demônio através do prazer do sexo, que ganhavam poderes mágicos de causar doenças aos homens, crianças, animais e de levar pragas às colheitas. Eram as bruxas que nas madrugadas voavam pelas aldeias e vilas montadas em vassouras e realizavam cultos pagãos dentro dos bosques.

A perseguição e julgamento das mulheres acusadas de bruxaria eram realizados pela instituição eclesiástica conhecida como o Tribunal do Santo Ofício ou, apenas, Inquisição. Naquele tempo de transição entre sistemas econômicos, do modelo feudal para o capitalismo, a inquisição serviu como moduladora das massas que precisavam ser domesticadas para formar uma mão-de-obra dócil. Por isso, homens e mulheres morreram condenados pelos juízes religiosos da inquisição. Os homens eram acusados de heresia e as mulheres de bruxaria. Ocorre que o número de mulheres assassinadas foi muito maior que o de homens. Dos casos de condenação à morte, uma média de 75% eram de mulheres. Em alguns locais, como na Bélgica, as mulheres constituíram 90% dos processos. Estima-se que mais de 100 mil delas foram torturadas e queimadas.

Naquela época, o Papa Inocêncio VIII havia nomeado dois monges dominicanos, Heinrich Kramer e James Sprenger, para processar e julgar as acusações de feitiçaria na Alemanha. Estes dois monges escreveram em 1484 um manual que serviu de referência para os demais julgadores da Santa Inquisição. Esse documento recebeu o nome em latim de Malleus Maleficarum, que em português corresponde a "O Martelo das Feiticeiras". Esta obra funcionou durante 4 séculos como manual oficial do estado teocrático para realizar a caça às bruxas.

O Malleus Maleficarum se dividia em três partes. Na primeira, os dominicanos ensinavam aos juízes como reconhecer uma bruxa em suas atitudes e seus disfarces. Na segunda, explicava todos os males que as feiticeiras poderiam infligir através das bruxarias e encantamentos e sobre os métodos de proteção. Na última parte, traziam as formalidades do processo no que tange à inquirição e condenação das acusadas.

O fato da mulher ser o foco principal do tribunal residia num certo protagonismo que a mulher ainda trazia consigo de tempos imemoriais das sociedades humanas. O terror da inquisição resultaria, por consequência, em tornar o gênero feminino e o seu corpo submisso à nova ordem do patriarcado.

Na tradução brasileira do "Martelo das Feiticeiras", colocado no mercado pela Editora Rosa dos Ventos, há uma pequena introdução, muito interessante, concebida pela escritora e economista Rose Marie Muraro, que também foi uma reconhecida intelectual do movimento feminista brasileiro. Nesta introdução, a escritora traz o percurso histórico das sociedades humanas, quanto às relações entre gêneros, desde o surgimento do homem até o período moderno e a repercussão que os diversos arranjos sociais tiveram na concepção da imagem mental das divindades. Em períodos que a humanidade se organizou de forma matricêntrica as divindades supremas eram percebidas com formas femininas; por outro lado, quando passamos ao patriarcado a imagem do ser supremo passou a ter representação masculina.

Segundo Rose M. Muraro, durante todo o tempo que compreende  do surgimento do ser humano no planeta até os dias atuais, em boa parte as sociedades se constituíram de forma matriarcal. No vasto período de tempo antes do homem dominar as técnicas da fabricação de armas com pedras e madeira, tanto a mulher como o homem viviam de forma igualitária. Pois a economia de coleta e de caça de pequenos animais não importava na predominância de um dos sexos sobre o outro. Nesse período, o gênero masculino também ainda não havia entendido a sua participação na geração da vida. Por isso, a mulher ganhou um ar sagrado, pois ela era capaz de gerar a vida. A capacidade de gerar a vida era associada pelos primeiros grupos humanos ao poder de fertilizar o solo e os animais. Era um poder dado pelos deuses à mulher. Por isso, foi um período em que a mulher gozava de uma posição privilegiada no arranjo social.

Posteriormente, com a escassez de alimentos, houve a necessidade do ser humano dominar a construção de armas para realizar a caça de animais maiores e, também, para usá-las nos conflitos entre diversos grupos pela posse dos territórios de caça. Ao mesmo tempo, o homem entendeu a sua participação biológica na procriação. Neste momento ocorreu a distinção entre homens e mulheres, com prevalência do sexo masculino, que chegou até nossos dias. Iniciou-se o tempo do patriarcado.

Estudando as diversas manifestações religiosas da antiguidade, a autora conseguiu visualizar a modificação do discurso religioso conforme a sociedade se transformava. Nas tradições mais pretéritas, os mitos fundadores delegavam a uma deusa-mãe a criação do universo; como no caso da deusa Géia para os gregos e de Nanã Buruquê do mito Nagô, que originou o candomblé. Depois, há uma fase onde aparecem deuses andróginos, como no hinduísmo e no conceito do yin e yang chinês, onde os princípios masculino e feminino governavam o mundo em conjunto. Posteriormente, há uma nítida transição na questão do gênero divino em tradições onde a criação se inicia com uma deusa que vem a ser destronada por um deus masculino. Nestes, temos como exemplo a mitologia sumeriana em que a deusa Siduri reinava em um jardim das delícias sendo destronada pelo deus solar e, também, na tradição asteca a Mãe Terra, de nome Xoxiquetzl, é destronada pelo deus Huitzilopochtli. Por fim, a partir do segundo milênio antes de Cristo não se encontram mais registros de deusas mulheres na mitologia da criação. As tradições persa e cristã são exemplos.

Concluindo, seria muito edificante à humanidade se os sexos, feminino e masculino, convivessem em harmonia e cooperação, conforme prega a essência original da ideologia feminista que busca a igualdade entre os gêneros. Porém, se para alguns homens a palavra "feminismo" for o problema,  que sejamos, ao menos, humanistas.

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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Bolsonaro apresentou projeto para criminalizar o comunismo. Entrando na fase da "limpeza" ideológica.



Foi proposto um projeto de lei que criminaliza o comunismo pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro. Segundo o político, o discurso e símbolos comunistas seriam considerados um fomento ao embate de classes sociais e passaria a figurar na lei antiterrorismo com penas de 2 a 5 anos de prisão e multa.

O dispositivo visa coibir um amplo espectro de hipóteses que estarão tipificadas como de apoio ao comunismo. Serão proibidas a fabricação, comercialização, distribuição ou veiculação de símbolos ou propagandas consideradas favoráveis ao comunismo.

Acredito que se tal monstrengo legislativo passar no Congresso Nacional, teremos o recolhimento de numerosas obras literárias a respeito da temática. Provavelmente serão proibidas a venda e posse de livros como  "O Manifesto do Partido Comunista". 

Professores de história, por exemplo, estarão em maus lençóis se possuírem tais obras em suas estantes. Particulares e bibliotecas talvez tenham que queimar seus livros. E, provavelmente, o tema terá de ser banido das aulas ou conduzido de forma a estabelecer o pensamento único.

Porém, de certa forma, isto demonstra um certo desespero em relação ao enfrentamento das ideias propostas por Marx e Engels ainda no século XIX. Quanto maior é a repressão mais se demonstra a fragilidade do status quo. 

Queimem as bruxas e os livros !

Matéria sobre a criminalização do comunismo no Brasil:

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sábado, 22 de julho de 2017

A crise global da meritocracia.


Meritocracia é uma palavra que foi utilizada pela primeira vez ou criada por Michael Young em seu livro "Rise of the Meritocracy", que vislumbrava uma organização social de um tempo futuro onde a posição social do indivíduo seria determinada pelo seu QI e esforço pessoal. Posteriormente, o termo passou a ser empregado tanto no meio empresarial, para justificar a ascensão da carreira dos empregados, quanto na esfera pública, usada para fundamentar o acesso ao serviço público por meio de concursos de provas. 

Há um aprofundamento deste tipo de ideologia quando a meritocracia passou a critério usado pelos governos em relação às políticas públicas. Desta forma, beneficiando àqueles sobre os quais se acredita que são merecedores deste tratamento por conta de suas habilidades, inteligência e esforço.

Principalmente nos países de terceiro mundo,  onde as desigualdades sociais são abissais, fica mais evidente ao senso comum de que o sistema meritocrático é viciado e baseado em falsos pressupostos de igualdade formal e de oportunidade entre os indivíduos.

Uma dinâmica muito simples que pode ser feita em sala de aula para que a classe visualize a questão é o professor propor uma corrida entre ele e o melhor aluno atleta escolhido pelos seus colegas. O vencedor será aquele que tocar primeiro na parede onde fica a janela, que está situada no lado oposto à parede da porta de entrada. Só que os competidores , professor e aluno eleito, partirão de pontos diferentes. O professor parte da porta de entrada e o aluno partirá do início do corredor de acesso às salas de aula. Será bem capaz do aluno não aceitar o desafio sob estas condições. Se aceitar, o professor mesmo estando velho, gordo e com artrite em um dos joelhos irá bater primeiro. E o "mérito" da vitória é certamente do professor, pois correram sob as regras socialmente pactuadas.

No exemplo acima, o professor só perderá a prova por acidente, ou tendo uma queda ou mesmo sofrendo um infarto. Porém, esta vitória acidental do aluno é o ponto fora da curva, sendo eventual e pontual. Contudo, quando ocorre uma dessas situações meramente acidentais, na vida social e econômica, os meios de comunicação propagandeiam o feito como justificativa e legitimação do critério meritocrático. É claro que não são noticiados os inúmeros casos onde, mesmo se esforçando, as pessoas não conseguem reconhecimento e vida digna. Neste sentido, surgem algumas lendas urbanas como o da pessoa humilde que passou para o vestibular de medicina achando apostilas no lixo, dentre outras histórias fantásticas. A classe média é a principal destinatária deste discurso midiático. Por isso, ela passa a sentir tanta identificação com a agenda da elite financeira, pois acredita que com trabalho duro um dia se tornará integrante daquele seleto grupo. Só que os meios de comunicação não tornam claro que o número dos integrantes da classe média que tiveram um decréscimo no padrão de vida e se tornaram pobres é esmagadoramente maior do que os casos pontuais de alguns que se tornaram milionários.

Na Europa, finalmente, acontece que a "ficha está caindo" para boa parte da nova geração de cidadãos provenientes das classes médias que buscam reconhecimento profissional e posição social através dos estudos e do esforço. A chamada geração "milenium", daqueles perfeitamente adaptados às novas tecnologias e com educação formal em nível de pós graduação, está desencantada e frustrada com o mercado de trabalho pós reformas trabalhistas, que gerou empregos com poucas garantias, baixa remuneração (incompatível com a expectativa gerada pelos estudos) e funções que não conduzem à satisfação pessoal. A preparação intelectual não está sendo correspondida pela nova realidade das relações de trabalho. De forma que na Espanha se fala que a próxima geração será a "nem nem", que nem trabalha e nem estuda. A taxa de desemprego na Espanha chegou a 40% , nos EUA os salários são os mais baixos dos últimos 30 anos e na Itália há quase que 5 milhões de desempregados em situação de pobreza absoluta.

O economista Guy Standing, professor na Universidade de Londres, criou o termo "precariado" para se referir a esta classe emergente em todo o mundo que está sob a insegurança de empregos não permanentes e com pouquíssimas ou nenhuma garantia trabalhista. Em seu livro "A corrupção do capitalismo: por que rentistas prosperam e o trabalho não recompensa", ele analisa os motivos pelos quais hoje vivemos num sistema onde o trabalho duro e o talento não são premiados. Explica que isto teve origem na política econômica gestada nos anos 80 e 90 por economistas  de matriz neoliberal. Eles criaram um sistema rentista, baseado em direitos privados, que afastou a sociedade de uma verdadeira situação de mercado livre. Assim, a competição no mercado livre de trabalho é fictícia no capitalismo atual. Isto ocorre porquanto os proprietários do grande capital estão extraindo rendas do resto da economia e da sociedade. Como consequência, há pessoas super capacitadas e brilhantes compondo o precariado e, por outro lado, gente sem nenhum talento ganhando milhões.

As reformas trabalhistas que geraram esta grande frustração às novas gerações europeias estão chegando agora no Brasil e na América do Sul, juntamente com a onda conservadora. O Congresso Nacional aprovou a reforma trabalhista que retirou as garantias mínimas dos trabalhadores asseguradas pela CLT, prevendo a supremacia do negociado sobre o legislado, e ainda virá a reforma previdenciária. A população, em geral, não se deu conta de que a mesma lógica está sendo instalada por aqui. Acontece que esta elite rentista que tem interesse nas reformas se utiliza de um grande sistema difusor de ideias para obter o consenso e a adesão de ampla maioria da população em torno de sua agenda. Diariamente os grandes canais de televisão, as rádios, os tabloides, revistas e grandes sites jornalísticos fazem o papel de moldar as mentes da audiência.

Desta forma, resta a cada pessoa, cuja visão despertou para a realidade, fazer o papel de realizar estes contrapontos através das redes sociais, dos pequenos blogs, dos grupos e bate-papos, para nos entrincheirar nesta guerrilha da informação. 

Artigo sobre a reforma trabalhista no Brasil:
http://operamundi.uol.com.br/dialogosdosul/reforma-trabalhista-na-espanha-e-no-brasil/15072017/ 

Artigo sobre a pobreza na Itália:
http://exame.abril.com.br/economia/quase-5-milhoes-de-italianos-vivem-em-pobreza-absoluta/ 

Artigo sobre as consequências da reforma trabalhista na Espanha:
http://www.dmtemdebate.com.br/reforma-trabalhista-espanhola-faz-cinco-anos-assim-e-a-geracao-de-jovens-desencantados-que-ela-deixou/ 

Entrevista com o economista inglês Guy Standing:
http://www.ihu.unisinos.br/569536-estamos-rumo-a-um-sistema-onde-trabalho-duro-e-o-talento-nao-sao-premiados-afirma-guy-standing 

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sexta-feira, 21 de julho de 2017

Capitalismo selvagem e privatizações conseguiram transformar os mortos em consumidores.



O capital sempre necessita de uma área nova para explorar, sob pena de haver estagnação econômica. Essa nova área pode ser literalmente um espaço geográfico novo, que não era alcançado pelo grande capital, ou uma atividade que antes não era dominada mas que passa a sofrer dominação da economia de mercado.

Um exemplo clássico da competição capitalista por novas áreas de influência foi o processo de colonização efetuado no continente africano e na Ásia entre 1880 e 1914, que acabou precipitando a primeira guerra mundial. Esta foi notadamente uma guerra pela expansão de áreas de influência econômica (como a maioria das guerras, na verdade).

No entanto, como o globo terrestre é geograficamente limitado e  ainda não foram encontrados outros planetas habitados para explorar seu mercado, mão de obra e recursos naturais; então, para que haja a contínua expansão dos mercados dentro de um sistema fechado é necessário que o capital se debruce sobre novas áreas de atuação que antes não estavam sob a lógica do mercado. Uma das formas de se fazer isso é através do investimento em inovações. Por exemplo, a invenção do computador pessoal e programas como o Windows e a internet criaram um novo mercado que faz girar muito dinheiro. A outra forma é o capital pressionar os Estados para que retraiam sua atuação social e em áreas estratégicas e as deixem para a exploração privada. Neste ponto que surgem as tão famosas e decantadas privatizações.

Há muito tempo temos ouvido na grande imprensa várias vozes que asseveram que nossas vidas e a qualidade dos serviços melhorarão bastante se vários destes serviços prestados pelo governo passarem para a iniciativa privada. Nesta lógica, empresas como as telefônicas, a Embratel, a Vale do Rio Doce e muitas mais foram vendidas a grandes grupos privados de investimento. Não podemos nos esquecer da precarização das universidades públicas e da previdência social, que tem o mesmo objetivo.

Uma das últimas atividades privatizadas na cidade do Rio de Janeiro foi a administração dos cemitérios. E para a surpresa das famílias que têm seus entes queridos enterrados, todos estão sendo convocados pela empresa particular que venceu a licitação para fazer um cadastro dos jazigos, nichos e ossários para fim de cobrança anual de até R$500,00 por conta da manutenção dos mesmos. Assim, além das verbas de enterro, cremação, repasses do governo entre outras; agora, irão arrecadar cerca de 33 milhões de reais ao ano, segundo matéria do jornal O Dia, por transformar o cemitério numa espécie de condomínio. Muito provavelmente, mais para a frente a anuidade se tornará mensalidade. Acontece, que as famílias quando adquiriram seus jazigos (o mesmo para os nichos e ossários) já pagaram muito caro para que, justamente, ficassem perpetuamente com a família sem necessidade de novos pagamentos. Porém, toda a relação contratual anterior foi jogada fora e a nova administradora, privada, poderá "despejar" os entes das famílias que não aceitarem pagar à nova empresa pelo que já pagaram no passado.

Do jeito que a coisa vai, ninguém mais poderá dizer: "Descanse em paz" !

Matéria do Jornal O Dia sobre a privatização e cobrança nos cemitérios:
http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2015-07-20/cemiterios-vao-cobrar-de-proprietarios-taxas-de-ate-r-500-pelos-jazigos.html

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quarta-feira, 19 de julho de 2017

A história documentada sobre uma aguardada invasão alien durante a ditadura militar brasileira.


Quando deu 5 horas da madrugada do dia 8 de março de 1980, naves extraterrestres provenientes de Júpiter estariam aterrisando na pequena cidade de Casimiro de Abreu, no Estado do Rio de Janeiro. Esta foi a previsão feita pelo senhor Edílcio Barbosa, que se apresentava como um contato entre os homens e os jupiterianos. Ele ficou conhecido pela alcunha de "o mensageiro de Júpiter". Esta seria mais uma estória comum sobre discos voadores se não fosse a dimensão que alcançou naquela época. 

Não se sabe se por mera brincadeira ou por algum fenômeno psicológico coletivo que muitas pessoas da cidade, que ouviam as previsões de Edílcio, começaram a visualizar luzes e objetos estranhos no céu noturno do município. Houve relatos de quem viu os discos durante o dia em pastos das fazendas vizinhas. A narrativa foi tomando cada vez mais força até a marcação da data e hora que os seres do planeta vizinho viriam fazer contato ou invadir. 

Milhares de pessoas lotaram a pequena cidade naquele dia 08 de março. A imprensa brasileira e a internacional enviaram equipes. Rede Globo, Estadão, canadenses, americanos, argentinos e uruguaios estavam presentes para o que prometia ser um dia inesquecível para a humanidade.

A prefeitura da cidade resolveu tomar medidas protocolares para quando se recebe uma altíssima autoridade nacional ou internacional. O cerimonial da prefeitura organizou uma recepção com desfile em carro aberto no carro do corpo de bombeiros e um café da manhã com os visitantes no salão nobre da prefeitura. O mais curioso é que o senhor prefeito realizou, com as verbas da prefeitura, a aquisição de uma enciclopédia Barsa para presentear os viajantes espaciais. 

Ocorre que o horário passou e as naves não apareceram. Segundo Edílcio, por conta da grande aglomeração de pessoas a comitiva de Júpiter desistiu do pouso. Em terra, a frustração deu lugar a uma grande brincadeira com gaivotas de papel e aplausos até para passarinhos que surgiam voando !

Eu gostaria de saber que fim levou a enciclopédia ! A Barsa era uma das melhores enciclopédias da época, junto com a Britânica. O valor para comprar uma era alto. Só classe média e alta poderiam ter uma dessas. Espero que tenham doado a obra para um colégio público da cidade.

 A ciência não pode afirmar e nem negar absolutamente que exista vida em outros pontos do universo. Se este fenômeno (surgimento da vida) ocorreu no planeta Terra, possivelmente se repete em outros sistemas planetários. Os entusiastas pela vida extraterrestre elaboraram a equação de Drake, desenvolvida para calcular a quantidade de civilizações capazes de emitirem sinais de rádio. Há cientistas que creem na vida em outros mundos mas não em contatos de ovnis. Era o caso do falecido diretor do Observatório Nacional do Rio de Janeiro, professor Ronaldo Mourão. Ele afirmava ser possível haver vida, mas que as distâncias astronômicas impossibilitavam contato entre elas seja por meio de qual tecnologia fosse.

Esses videntes ou contatos terrestres de seres alienígenas possuem características semelhantes às de figuras que ficaram conhecidas na história como líderes messiânicos, tais como Jacobina Mentz, Padre Cícero, Antônio Conselheiro, o monge José Maria,  Senhorinho e outros. Todos possuem uma grande capacidade de mobilização popular. Contudo, as lideranças messiânicas religiosas influenciaram em organizações populares de resistência ao estado de opressão que o povo vivia. Por outro lado, os videntes que conversam com alienígenas apenas mobilizam em torno da aparição, sem consequências maiores nos arranjos sociais. Porém, no aspecto psicológico escapista, de fuga da realidade, há uma certa proximidade entre ambos.

Aliás, esta é uma das explicações sociopsicológicas para o fato de tanta gente ter acreditado em Edílcio. O Brasil vivia a época de opressão do regime militar. Neste contexto, imaginar algo que transcendia à realidade política do país trazia esperança de mudanças. 

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Abaixo o vídeo com o documentário "Efeito Casimiro", que conta a história deste artigo:

terça-feira, 18 de julho de 2017

Partido da Ciência: após cortes nas verbas, pesquisadores brasileiros cogitam fundar legenda em prol da pesquisa científica.


O governo federal, em 2017, realizou corte de 44% das verbas para a pesquisa científica. O montante aplicado em ciência caiu drasticamente quase que pela metade, foi de 15,6 bilhões para 8,7 bilhões. Esses dados foram veiculados pelo programa Fantástico do dia 16/07/2017, na rede Globo de televisão. Segundo os diretores dos diversos centros de pesquisa do país a produção científica fica inviabilizada com este patamar de investimento tão baixo. 

Atualmente, a verba destinada à pesquisa teria que atender aos centros de pesquisa e cerca de 300 mil pesquisadores. Os resultados da falta de investimentos são diversos laboratórios fechando as portas. A manutenção da tecnologia é cara e muitos equipamentos estão parados. Em alguns locais de pesquisa já haveria falta de água e luz.

O mais alarmante é a grande quantidade de pesquisadores que, para não ter suas pesquisas paralisadas, estão saindo do país para dar continuidade a seus trabalhos em instituições estrangeiras. A crise das universidades também contribui para a saída em massa dos principais cérebros. Estima-se que o Brasil vivenciará nas próximas décadas um blecaute de inteligência. O último que ocorreu foi durante o período militar, quando vários nomes importantes da academia se retiraram forçosamente do país.

Neste sentido, na última reunião congressual do SBPC ganhou força, entre vários pesquisadores, a ideia de se criar uma legenda partidária para concorrer a cargos legislativos com o programa de defesa dos interesses científicos nacionais.

O diretor científico da Fapesp, por outro lado, defende que o ideal seria ter cientistas se candidatando pelos diversos partidos já existentes. Porém, acredito que essa experiência já existe e não deu certo. Há deputados e senadores que saíram do meio acadêmico e que mesmo assim votam pela aprovação de leis que não são do interesse da educação e da ciência. Faz-se necessário que o político esteja sob a orientação partidária para não se perder e se deixar cooptar por outros interesses.

O ,problema de um "Partido da Ciência" é que não sabemos qual seria seu comportamento frente a outros temas socialmente importantes. Como se comportaria a bancada da ciência na votação de leis que representem o avanço das desigualdades sociais? Há pesquisadores de todos os matizes de pensamento político e ideológico. Certamente, existem aqueles que olham a ciência tal qual o homem de finanças, visando tão somente a questão financeira. Assim, tal partido poderia degenerar para uma representação unicamente corporativa. A ciência, por si só, não é boa nem ruim. Ao mesmo tempo que ela cura doenças, também pode produzir pensamentos preconceituosos como a eugenia.

Concluindo, não sabemos se esta experiência poderia dar certo ou acabaria em apenas mais uma agremiação política sem qualquer vinculação ao ato de sua fundação e ao seu programa. Contudo, como diz um dos deputados mais votados do Congresso: pior do que tá não fica!

Eu até proponho o seguinte slogan:

SE VOCÊ JÁ PERDEU A PACIÊNCIA,
VOTE PARTIDO DA CIÊNCIA !

Matéria do Fantástico sobre os cortes para a pesquisa científica:

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