domingo, 19 de novembro de 2017

Brazilian Horror Story: seitas virtuais de fanáticos políticos e religiosos aumentam violência nas ruas.






Duas amigas, na madrugada de São Paulo, entram em uma padaria da Rua Augusta para comer pizza. Durante a refeição, um grupo de homens entra no estabelecimento e se dirige a elas com interpelações sobre as eleições de 2018. Eles querem saber em qual candidato elas votariam num possível segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Embora se sintam incomodadas com a interrupção do lanche, uma delas reponde para se livrar logo dos sujeitos incômodos. Afirma que, no caso apresentado, votaria em Lula. Nesse instante, um dos idiotas disfere um soco contra o rosto da menina que sofre um corte e fica sangrando. O soco foi simplesmente pelo fato dela dar uma resposta diferente da intenção de voto do agressor.

Casos semelhantes vêm se multiplicando pelo país a fora. Pelo andar dos acontecimentos, a eleição de 2018 poderá ser a mais violenta da história do país. Verdadeiras "seitas" políticas virtuais, principalmente no youtube, que também misturam discurso fundamentalista religioso, são um dos principais combustíveis dessa explosão de violência gratuita contra quem pensa de forma diferente. Estamos muito perto de viver um "brazilian horror story".

Nunca acompanhei o seriado "American Horror Story", que já está em sua sétima temporada. Porém, neste feriadão o canal da tv à cabo, onde passa este programa, fez uma espécie de maratona com os capítulos da última temporada. Passou toda a sequência, de uma só vez, no sábado. Apesar de não curtir e jamais ter acompanhado a série, como não tinha mesmo nada para fazer, resolvi ver os primeiros capítulos. Quando notei que a construção do personagem principal era muito semelhante com o modus operandi de alguns ativistas virtuais de extrema direita que andam pelas redes sociais, acabei assistindo quase todos os capítulos.

Nesta sétima temporada, o seriado trouxe uma história contextualizada pelo período eleitoral americano entre Donald Trump e Hillary Clinton, dialogando com a mobilização de movimentos feministas que se alavancaram durante este embate político. Os dois protagonistas são Ally (Sara Paulson) e Kai (Evan Peters). Ally é uma mulher lésbica que se esforça na construção da uma família junto à sua companheira e seu filho. Kai é um psicopata que consegue amealhar seguidores e projeção política com um raivoso discurso político conservador misturado com religião; além de praticar violência física e assassinatos cruéis contra seus opositores.

Logo de início, assistindo os primeiros capítulos, me espantou a identificação que senti entre a construção do personagem Kai e alguns ativistas políticos de extrema direita que atuam nas redes sociais, notadamente no youtube. A mesma fala raivosa e ódio no olhar quando se referem aos que pensam o mundo de forma diferente da deles. Alguns desses "youtubers" chegam a promover perseguições, no ambiente virtual, orientando seus "seguidores" a atacarem de forma vil as páginas e a honra dos seus desafetos ideológicos.  O Deputado Federal Jean Willys, por exemplo, é uma vítima rotineira deste tipo de ação. Para que esta violência ultrapasse da linha do virtual para as ruas basta um passo muito pequeno. E deixo logo claro que não sou eleitor do citado deputado, mas não posso concordar com a forma antidemocrática, antiética e violenta com que é combatido.

Há um desses "youtubers", então, que me lembra demais o personagem Kai. O camarada tem momentos que transmite a mesma raiva nas palavras e ódio no olhar que o protagonista do seriado. Da mesma forma, se apresenta como ativista ultraconservador e faz esta mistura explosiva entre o político e o religioso. Em seus vídeos, apresenta um emocional do tipo montanha russa, entremeando uma fala ora tranquila e ora raivosa ao extremo.Um profissional de psicologia facilmente poderia determinar um padrão de psicopatia. Porém, muito provavelmente o sujeito não seja tão doente. A maioria usa essa técnica de chocar e levar o ouvinte ao êxtase emocional para chamar atenção e somar inscritos para ganhar dinheiro com os vídeos. O falecido apresentador Alborguetti foi um dos precursores dessa técnica na nossa grande mídia. O problema é que este tipo de abordagem acaba agregando em torno de si todo tipo de perturbado mental, desde o cara violento e com problemas de controle de raiva até o psicopata mais perigoso.

É claro que este tipo de ativista irá dizer que nunca mandou os seguidores agredir ninguém fisicamente, Chegarão mesmo a dizer que são contra a violência. Contudo, a análise do discurso dessa gene mostra algo bem diverso. Eles costumam colocar que estão travando uma "guerra" contra os oponentes ideológicos. Habitualmente desconstroem e tentam desumanizar os contrários utilizando palavras como canalhas, lixo, nojentos, esquerdopatas, etc. A exposição continuada de pessoas mentalmente perturbadas ou com padrões morais e éticos deformados a este discurso, acaba os transformando em verdadeiras bombas-relógio na sociedade.

Agora, estes ativistas digitais da raiva e da intolerância estão montando "cursos" online. Não sei bem que cursos são estes. De história, filosofia ou sociologia que não é. Ademais, note-se que muito provavelmente a maioria deles sequer possuem um diploma de licenciatura para poder lecionar alguma dessas matérias. Desta forma, esses cursos mais parecem a formação de seitas. Pois o internauta que vê os vídeos no youtube e se diverte com as intempéries do orador é um coisa, mas o cara que decide gastar dinheiro do seu bolso para ter essas sessões exclusivas provavelmente é o sujeito fanatizado.

Muitos desses ativistas violentos também surgiram de um "curso" desses. A mãe desses cursos parece ter iniciado com um astrólogo brasileiro residente nos EUA. Esse curso formou a maioria desses ativistas doidos que andam pelas redes. Agora, estes também formarão seus cursos e seguidores, formando um esquema de pirâmide. O problema é que a criatura sempre acaba pior que o criador.  Esses youtubers raivosos são piores que o astrólogo que foi, assim digamos, o "paciente zero". Imagino como serão os novos líderes formados nesses novos "cursos". Vejo um horizonte muito sombrio à frente.

A formação de lideranças dessas seitas políticas conservadoras me lembra muito o modelo de messianismo que existiu no período da primeira república. Havia o beato (como conselheiro ou padre cícero) que agregava o povo ao seu redor. Desse grupo surgiam novas lideranças que saíam pregando pelos sertões, novos beatos, que juntavam mais gente e fundavam novas comunidades. Por exemplo, a formação da comunidade do caldeirão dos jesuítas se deu através de um beato que havia sido membro de uma ordem religiosa leiga ligada a Padre Cícero. Depois, da comunidade do caldeirão novos beatos se formaram e atravessaram do Ceará para a Bahia onde fundaram a comunidade de Pau-de-Colher.

No entanto, há uma enorme diferença entre aquelas comunidades da primeira república e as atuais seitas virtuais conservadoras. Enquanto a primeira reunia camponeses pobres em torno de uma liderança espiritual e num modelo de vida comunal para resistir à opressão no campo, a segunda reúne jovens de classe média, com pouquíssima capacidade crítica, com o objetivo de atacar as conquistas das minorias.

Artigo sobre a mulher que levou soco por declarar seu voto:
https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/discussao-sobre-politica-acaba-em-agressao-na-rua-augusta.ghtml 

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sábado, 18 de novembro de 2017

Secretário de Educação do RJ confunde poeta e dramaturgo alemão com personagem da "escolinha do professor Raimundo". É o final dos tempos !!!





A sessão extraordinário que ocorria na ALERJ já era, por si só, de ser amplamente criticada. Os deputados estavam reunidos para deliberar se derrubavam a medida judicial que havia prendido seus colegas deputados envolvidos em denúncias de corrupção.

A "cereja no bolo" foi o discurso de sua excelência o deputado que ora ocupa o cargo de Secretário estadual de Cultura. Ele resolveu finalizar sua fala citando uma frase do notável e conhecido dramaturgo alemão Bertold Brecht, mas errou feio ao dizer que se tratava de "Bertoldo Brecha", um personagem icônico da antiga "escolinha do professor Raimundo".

( seu Bertoldo Brecha - personagem da escolinha)


Com este evento risível, para não dizer trágico, podemos tirar duas lições de ensinamento: 1- Que realmente estamos ferrados com nossas representações políticas atuais; 2- Que se você não sabe muito sobre um assunto, faça como a Ofélia: "só abra a boca quando tiver certeza" !

A terrível constatação é de que um secretário de cultura tenha que se manter calado sobre cultura !!!

Veja o vídeo do deputado citando o seu Bertoldo Brecha:

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terça-feira, 14 de novembro de 2017

O consumo tecnológico e a evasão da realidade: o cinema soviético discutiu esta relação no filme Solaris de 1972.





O aclamado cineasta russo Andrei Arsenyevich Tarkóvski, que se destacou no período soviético, dirigiu o filme de ficção científica  "Solaris", em 1972, com inspiração no romance homônimo do escritor polonês Stanislaw Lem. Solaris foi considerado uma resposta dos soviéticos ao filme anglo-americano "2001 uma odisseia no espaço", de 1968, produzido pelo não menos renomado Stanley Kubrick e que foi baseado no livro de Arthur C. Clarke.

Naquele período, o mundo vivia em plena "guerra fria" entre as duas maiores potências militares, os EUA e a URSS.  A expressão "guerra fria" sintetizava a tensão mundial vivida por conta das disputas estratégicas e conflitos indiretos entre os dois governos. A corrida espacial foi um dos aspectos da "guerra fria".

Essas disputas passaram da realidade para o campo da ficção cinematográfica, com a suposta disputa de narrativas entre "2001: uma odisseia no espaço" e "Solaris". Porém, a plateia brasileira consumidora de cinema não acompanhou esta disputa. O alinhamento total e irrestrito do governo brasileiro aos EUA e a "política da boa vizinhança", que visava uma estratégica aproximação cultural dos EUA com a América Latina, praticamente blindava o país em relação a outras produções culturais que não fossem as americanas; notadamente aquelas oriundas do outro lado da cortina de ferro. Ainda hoje é muito difícil termos acesso, no Brasil, a filmes ou outros produtos culturais fora do eixo americano e britânico. Os filmes europeus, por exemplo, ficam circunspectos a salas de centros culturais e não chegam à grande rede de cinemas.


(Dr. Kris Kelvin na estação orbital)

Ambos os filmes discutem questões existenciais humanas, sendo que em Solaris com maior intensidade narrativa. Por isso, Tarkóvski se refere ao filme de Kubrick como estéril e frio. Enquanto que na película "2001" os diálogos são reduzidos, em "Solaris" toda a narrativa se desenrola através do diálogo entre os personagens. Outra diferença reside no fato de que na obra de Kubrick a ambientação tecnológica está em primeiro plano, o computador da nave é personagem principal do enredo; enquanto que no filme soviético a estrutura tecnológica consiste em mero pano de fundo para as relações humanas que se desenvolvem dentro da estação espacial.

O filme de Tarkóvski se passa, predominantemente, no interior de uma estação espacial que gravita na órbita do planeta Solaris, que é formado por um imenso oceano em sua superfície. Por haver alguma suspeita que o planeta possa basear vida extraterrestre, a academia de ciências russa funda a "solarística" como disciplina específica para estudar os fenômenos relacionados ao planeta. Vários astronautas especialistas em "solarística" são enviados à estação espacial para estudo de campo. Todavia, algo interfere com o comportamento destes cientistas. A maioria passa a apresentar perturbações de ordem psíquica. Alguns cometem o suicídio. Outros, que voltaram à Terra, narravam que enquanto estiveram na estação tiveram visões e encontros com pessoas importantes na história de suas vidas. O alto comando do programa espacial soviético interpretou essas informações como alucinações provocadas por algum elemento magnético do planeta atuando sobre o córtex cerebral dos embarcados. Para avaliar tais ocorrências, o programa espacial decide enviar o psiquiatra Dr. Kris Kelvin ( Donatas Banionis ) para estudar e fazer um detalhado relatório sobre a situação da estação.

Quando Kris chega à estação percebe um comportamento atípico nos outros dois cientistas, que lá se encontravam, e fica sabendo que um terceiro havia cometido o suicídio recentemente. Porém, o psiquiatra logo percebe que há mais pessoas transitando pela estação e que, logicamente, não deveriam estar lá. São os "visitantes" que aparecem para os outros dois cientistas e que o comando espacial registrou como alucinações. Pouco tempo depois, o próprio Dr. Kris Kelvin recebe uma inesperada "visitante". Tratava-se de Hari, sua ex-mulher, que havia falecido tinha uma década. Kris era psiquiatra, mas também um homem melancólico desde a perda de sua companheira.


( Kris Kelvin reencontra Hari na estação orbital )

Ocorre que o planeta Solaris era como um grande organismo vivo com capacidade telepática de sondar a mente dos astronautas e materializar respostas aos seus desencantos e ao vazio existencial que ora somos expostos quando da perda ou ausência de alguém que, de tão importante, define o nosso próprio lugar no mundo. E nada melhor que a imensidão do espaço para explorar o tema do vazio em nossas almas.

A "visitante" do Dr. Kris Kelsen não era a verdadeira Hari, mas uma cópia elaborada a partir das lembranças dele. A cópia, ao tomar conhecimento de que não era a verdadeira, também entra em crise e tenta o suicídio. Kris, então, decide não retornar mais à Terra e viver o resto de seus dias na estação ao lado da cópia de Hari. Não foi apenas um ato de solidariedade, mas um escape da solidão de sua vida real. Todos nós, em algum momento, usamos este tipo de mecanismo para suportar as conjunturas de vida que nos são impostas. 

O diretor Andrei Tarkóvski considerou a própria obsessão dos homens com os temas espaciais uma forma de escapismo da realidade. Ao identificarmos que falhamos em tentar viver de forma harmônica e sustentável em nosso planeta, começamos a olhar para o céu em busca de um mundo melhor e perfeito.

Hoje, já rompemos a barreira dos anos 2000 que, para Kubrick, significaria o marco da exploração e colonização de novos mundos pelo homem. Não conseguimos chegar em nenhum planeta próximo, exceto através de sondas. O sonho de colonizar o espaço ainda é algo distante, mais afeto ao mundo da ficção. Sequer retornamos à lua, o que dá combustível às teorias conspiratórias que tudo não foi uma grande farsa com fim de propaganda. Na falta dos novos mundos galáxia à fora, criamos uma nova modalidade para escaparmos da realidade: o universo virtual.

Filme Solaris completo e legendado no youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=gVpJTLpPLD0

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(Kris Kelvin e sua visitante)



sábado, 11 de novembro de 2017

Metrópolis, filme expressionista alemão de 1927, discutiu o conflito de classes sob perspectivas que ainda se aplicam no Brasil de 2018.




O filme Metrópolis é considerado o maior ícone do cinema expressionista alemão. Trata-se de uma fita do cinema mudo produzida em 1927 pelo aclamado diretor Fritz Lang. A arte expressionista não possuía a intenção de reproduzir retratos fiéis da realidade. Ao contrário, dialogava com a subjetividade do autor ao demonstrar o mundo na visão particular do mesmo. O expressionismo recebeu influências diretas da filosofia de Nietzsche e das teorias psicanalíticas de Freud. Os personagens e cenários recebiam um tratamento fotográfico e de maquiagem para distorcer e descolar o resultado de uma imagem supostamente verídica. Consistia, também, num movimento que combatia o racionalismo moderno.

A data de lançamento do filme (1927) contava apenas uma década após a ocorrência da revolução socialista russa de 1917.  Nessa época, o "fantasma vermelho" rondava por toda a Europa ocidental. As críticas e teses de Marx e Engels borbulhavam em intensas discussões nos mais diversos espaços; notadamente entre intelectuais, ainda que não se identificassem com o regime socialista. Este foi, sem dúvida, o caso do diretor Fritz Lang. Que embora não fosse socialista, centrou sua obra sobre o romance, escrito por sua esposa, que discutia amplamente o conflito de classes e as tensões entre capital e trabalho.

A película é riquíssima em simbologias e metáforas que nos faz viajar pelo universo da exploração capitalista desmedida após o advento da revolução industrial. Por isso, uma ótima opção para ser exibido em sala de aula para posterior discussão. O único problema é sua longa duração.

O enredo conta a história de Freder, filho do mais importante capitalista industrial da cidade, que se apaixona pela babá Maria, que cuida dos filhos dos operários, mas que também se torna uma importante líder popular em prol das melhorias nas condições de trabalho. Esta aproximação entre os  personagens faz com que o filho do empresário conheça o outro lado da produção da riqueza, dos trabalhadores assalariados, e desenvolva uma consciência crítica e social.



De início, a cidade é apresentada geograficamente fragmentada conforme as classes sociais. Enquanto os ricos moram na superfície e frequentam clubes e o 'jardim das delícias", a população operária tanto trabalha quanto reside no subsolo da cidade. Marcando de forma inequívoca o lugar social, superior e inferior, de cada grupo.

Quando Freder desce, pela primeira vez,  aos níveis inferiores, a procura de Maria, é impactado pelas penosas condições de trabalho impostas aos operários. Para seu azar ou sorte, neste mesmo momento presencia um grave acidente de trabalho, quando algumas caldeiras explodem. Na mente de Freder vem a figura do deus cananeu Moloch, para o qual eram oferecidos sacrifícios humanos conforme o relato bíblico. Na tela, temos a metáfora dos trabalhadores como sacrifícios humanos na busca do lucro pelos donos dos meios de produção. É interessante observar que na época ainda não haviam legislações substanciais que garantissem maior proteção ao trabalhador. Hoje, contrariando a evolução das relações trabalhistas, no Brasil está havendo a revogação de boa parte da rede legislativa que protege o trabalhador.

O grande capitalista mantém uma vigilância sobre a atividade dos operários após o horário do trabalho. Um espião detecta Maria como liderança do movimento operário. Para confundir os trabalhadores, o empresário planeja desconstruir a reputação de Maria. Para tal, usa os serviços de um cientista que constrói uma espécie de robô que depois se torna um ciborgue com aparência idêntica a de Maria. A versão robótica de Maria se apresenta no cabaré da cidade, causando espanto e desconfiança quanto à sua conduta.  Neste ponto, o filme apresenta a versão cristã sobre a conduta feminina, ou a mulher é santa ou pecadora.




O cabaré Yashiwara, local da luxúria e de todos os outros pecados capitais, é apresentado pela primeira vez através da imagem de três rostos de origens étnicas diferentes - negro, branco europeu e asiático - dialogando com as teorias raciais que dominavam a sociedade e, inclusive, a academia naquela época. Pois a mistura das raças era vista como fator que corrompia a espécie humana. Nada melhor que o espaço do cabaré, lugar de perversão, para passar a ideia de que a mistura racial é algo condenável.

Caminhando para o final da trama, é demonstrada a facilidade com que as massas são manobradas. O robô que toma o lugar de Maria convence facilmente os operários mesmo com um discurso contrário ao  da verdadeira líder. Não é muito diferente do efeito que a grande mídia, principalmente a televisão, exerce sobre as massas atualmente. O ludismo é lembrado na cena em que os operários são levados a quebrar todas as máquinas da fábrica.

Metrópolis também foi um importante marco para o cinema de ficção científica. Muitos dos seus conceitos foram repetidos em diversos filmes famosos de Hollywood. O homem-máquina de Metrópolis foi a inspiração para futuros androides famosos, como o C3PO de Guerra nas Estrelas. O cientista Rotwang, criador do robô sósia de Maria, foi inequivocamente usado como referência na construção do personagem "Dr. Emmett Brown", da franquia "De Volta Para o Futuro". Ainda podemos observar referências a Metrópolis em filmes como "Blade Runner", "Os Doze Macacos", "As Panteras", entre outros.

Concluindo, deixamos a frase que resume o ensinamento proposto por Lang a respeito da justiça social que deve reger as relações entre patrões e empregados:

"O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração"

Filme Metrópolis completo e legendado no youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=QkHOwwPKZ78&t=54s

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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O racismo escancarado de jornalista na televisão mostra a necessidade da população abandonar a grande mídia como fonte de informação.



Viralizou nas redes sociais o vídeo de um importante jornalista da maior rede de televisão do país fazendo agressivas referências racistas contra alguém que passou buzinando na rua do estúdio. O ocorrido se deu durante a cobertura das últimas eleições presidenciais americanas. 

A colocação mais interessante que ouvi a respeito deste acontecimento, que desejo compartilhar neste espaço, foi feita por debatedores do canal 247 no youtube. Eles lembraram que a frase racista, naquele contexto, ganhava contorno muito mais simbólico e venenoso, pois se tratava de um dia que marcava a saída de um homem negro da cadeira presidencial da maior potência econômica do planeta. 

Logo em seguida, o canal de televisão divulgou nota condenando a frase do empregado e o afastando temporariamente de suas funções. Contudo, devemos asseverar que tudo indica que este episódio não é algo isolado. O comando da grande mídia nunca esteve realmente ao lado do povo. Eles, até, tentam enganar em seus programas e novelas ao mostrar uma posição progressista quanto aos costumes. Por outro lado, todo o jornalismo dessas empresas é voltado para a defesa de políticas econômicas contrárias aos verdadeiros interesses do povo. 

Neste sentido, enquanto o programa matutino e a telenovela tenta mostrar uma face sensível a algumas questões populares; os telejornais defendem propostas que aumentam o abismo social e, ainda, realizam o linchamento das lideranças populares. 

Vez por outra, o jornalismo dessas empresas deixa escapar a verdadeira cara por trás da máscara. Lembremos que há algum tempo um outro jornalista de uma afiliada no sul disse que o problema de acidentes nas estradas eram por conta do aumento de pobres comprando carros. E também lembramos de outro veterano jornalista que teceu comentários preconceituosos contra dois garis que desejavam feliz natal.

A verdade é que a televisão constitui o mais poderoso instrumento de alienação social. É por isso que a mudança do sinal de analógico para digital está sendo acompanhado por inúmeros programas e telefones à disposição do povo para fazer a conversão de seu televisor. Dizem que é um direito do cidadão poder ver a televisão. O indivíduo não tem direito a saúde, escola e segurança, mas recebe todo o apoio para permanecer à frente da tela.

Não podemos nos enganar. Quase tudo que é apresentado nos telejornais vem filtrado de modo a construir uma narrativa para induzir o telespectador. Lembremo-nos do caso da previdência social. Em quase todos os programas jornalísticos é repetido o mantra que a previdência está falindo. Dado que é contestado por vários trabalhos de pesquisa, notadamente aqueles realizados pelos próprios auditores da previdência.

Por isso, um dos melhores posicionamentos a respeito da grande mídia foi aquele declarado por Leonel de Moura Brizola:

"Se eles são a favor, eu sou contra. Se são contra, sou a favor ! "

 Vídeo de jornalista da Globo tecendo comentário racista:
https://www.youtube.com/watch?v=WR2CcTWeM_A

Vídeo preconceituoso de jornalista da RBS contra pobres dirigindo carros:
https://www.youtube.com/watch?v=4tbOIuPU5Vs

deo com jornalista Boris Casoy tecendo comentário preconceituoso contra garis:
https://www.youtube.com/watch?v=uI-ALaP_8xU

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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Conservadores cristãos gritam "queimem a bruxa", no SESC, para impedir palestra de filósofa. Está mais fácil encontrar Deus numa biblioteca do que na maioria das igrejas.




No SESC Pompéia, antes da palestra da filósofa americana Judith Butler, manifestantes conservadores, alinhados à chamada "bancada cristã" do Congresso, atearam fogo numa boneca que representava a palestrante aos gritos medievais de "queimem a bruxa".

Todo este cenário, que mais parecia saído do filme "as bruxas de Salém", foi motivado pela simples divergência de opinião. Tendo em vista que Judith Butler se notabiliza pelos trabalhos sobre a discussão das identidades de gênero (considerado como "doutrina" demoníaca para destruir a família, por parte dos religiosos conservadores) organizou-se uma grande manifestação em frente ao SESC para censurar e tentar cancelar a apresentação.

A censura e a perseguição a quem pensa diferente tem sido prática usual nos discursos proferidos por várias "autoridades" religiosas nacionais. É comum vermos alguns pastores se referindo a quem tem posição política diversa usando o termo "esquerdopata". Como se para ser cristão seja necessário que sua posição política seja de direita. E não é apenas isto, falam aos gritos e com ódio escorrendo pela boca. A mesma coisa ocorre em relação às pessoas que professam outra religião ou que possuem qualquer outro tipo de opinião diversa. Ou seja, para o sujeito ser aceito como "irmão" precisa abraçar o pacote de ideologias do líder da igreja. Esse tipo de coisa não é nada parecido com o comportamento do Jesus narrado nos evangelhos.

O fundo do poço é o caso dos "pastores deputados" que vez por outra aparecem discursando contra os direitos humanos. Um religioso contrário aos direitos humanos é uma das maiores contradições construídas nos tempos atuais. Além de ser uma grande ignorância quanto à extensão do significado, da história e do simbolismo dos assim denominados direitos humanos.

Não sou ateu. Construí minha visão religiosa, em boa parte, dentro da Igreja Católica. Porém, estas contradições, que também ocorrem na igreja romana, me levaram à condição de um crente não institucionalizado (sem igreja). Há pouco tempo, comentando a crise econômica atual, o Cônego que dirige a paróquia próxima de minha casa escreveu na rede social que o problema do governo foi dar dinheiro aos pobres (bolsas), que são preguiçosos. Não consigo ver uma fé genuína em quem faz esse tipo de afirmativa; quanto mais um sacerdote.

Por essas e outras, quando ouço aquela frase "venha ter um encontro com Deus" costumo dizer que, nos dias de hoje, é mais fácil termos um verdadeiro encontro com Deus em um hospital, num asilo e até na biblioteca, do que na maioria das igrejas.

Judith Butler fala sobre a manifestação:
http://www.bbc.com/portuguese/brasil-41820744 

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terça-feira, 7 de novembro de 2017

O Brasil e a crise civilizatória. Pessoas patéticas vão até o local do Enem 2017 somente para humilhar os candidatos atrasados.




A cada dia que passa temos pessoas dando novos exemplos de que passamos por uma séria crise civilizatória. O último desses vexames ocorreu no enem realizado no fim de semana passado. Várias pessoas saíram de suas casas e se dirigiram aos portões dos locais de prova unicamente para se divertiram às custas da humilhação daqueles que perderam o horário da prova. Escarneciam, xingavam e até se deram ao trabalho de fazer cartazes para humilhar os candidatos.

Trata-se de gente patética e que, muito provavelmente, possui uma péssima autoestima. Provavelmente, o perfil psicológico daqueles que precisam humilhar quem está em volta para se sentir melhor consigo mesmo. Gente bem resolvida psicologicamente não gastaria seu tempo para passar por este papel ridículo.

Pior ainda que ouvi algumas pessoas defendendo esta idiotice. Desde youtubers até, quem diria, professores defenderam o que chamaram de "humilhação positiva". Segundo eles, trata-se de humilhação didática que favorecerá os atrasados no resto de suas vidas. Um professor disse que também é uma espécie de "homenagem" àqueles que se apresentaram na hora aprazada.  Neste sentido, qualquer dia estarão humilhando os gordos que passam nas ruas para homenagear aqueles que comem alface e vão à academia, entre outras hipóteses.

Humilhar qualquer pessoa, sob qualquer pretexto, é algo bem pequeno. Contudo, ainda que admitíssemos alguma finalidade pedagógica em relação à pontualidade, só poderíamos levar isto a cabo se vivêssemos na França ou em outra cidade bem planejada, onde as pessoas vivem com mínimo de dignidade e com sistema de transporte eficiente. 

No Brasil, onde as pessoas humildes vivem muito longe do centro, nas periferias, e tendo um transporte público de péssima qualidade não é inteligente a fundamentação acima,. Quem mora longe e vive em situação de dificuldade, qualquer evento pode significar a perda do horário. Pode ocorrer uma chuva durante a noite, um tiroteio nas comunidades, um problema de saúde sem atendimento próximo, dentre muitas outras ocorrências. 

Além disso, ainda há a falta de empatia de alguns patrões com seus empregados. Como no caso do confeiteiro que não foi liberado a tempo pelo dono da padaria.

Certamente, o sujeito que pensa em "humilhação positiva" é aquele de classe média que tem seu carro, ou pode pegar um táxi ou, ainda, tem condução abundante à porta de casa.

Claro que existem os descuidados que perdem o horário numa bobeira. Porém, nem isso deveria ser motivo para alguém se mobilizar até o local de prova, sem ter nada para fazer lá, só para ficar de gozação.

Concluindo, quem faz isso é o tipo de gente de espírito mais pequeno que existe. O candidato que perdeu o enen poderá repeti-lo ano que vem. O idiota que vai até o local de exame só para sacanear os outros será para sempre um pateta. O primeiro tem solução, o segundo não.

Youtuber acha normal rir de atrasados:

Confeiteiro perde o horário da prova por culpa do patrão.

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