quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Nostrático: o idioma falado na idade da pedra.




O linguista dinamarquês Holger Pedersen, no início do século XX (1903), ao estudar línguas antigas, como o grego e o hebraico, percebeu padrões semânticos que apontavam para a existência de uma língua ainda mais pretérita, que havia precedido esses idiomas e que serviu de tronco linguístico comum a eles. Para esta proto língua, anterior ao grego e o hebraico, Pedersen deu o nome de "nostrático".

O fato de diferentes línguas apresentarem um tronco linguístico comum não é uma novidade. Um exemplo deste fenômeno, que não podemos esquecer, é a derivação da língua portuguesa, do espanhol e do italiano de um tronco linguístico comum que foi o latim.

Após esta descoberta de Holger Pedersen, muitos linguistas se debruçaram sobre a pesquisa do nostrático. Atualmente, a Universidade de Cambridge, no Reino Unido, constitui um dos principais centros de estudo deste idioma pré-histórico. Inclusive, no portal virtual da Cambridge há uma plataforma de livre acesso para um dicionário de nostrático. (Deixaremos o link do dicionário ao final deste texto).

A intensa pesquisa acadêmica demonstrou que o nostrático influenciou um conjunto bem maior de idiomas pelo globo. Entre eles, podemos citar: as línguas afro-asiáticas, a dravídica, a elamita, a esquimó, o indo-europeu, o sumério e a urálica.

Atualmente, acredita-se que a fase áurea do nostrático se deu no período mesolítico, que compreendeu as mudanças culturais entre o paleolítico e o neolítico. Neste contexto, o nostrático foi a forma de expressão típica de uma fase de intensas mudanças econômicas e sociais. Os grupos humanos deixavam a economia meramente baseada na caça e na coleta e iniciavam a importante revolução agrícola. O homem deixava uma vida nômade para se fixar numa região (passando ao sedentarismo). A implementação de técnicas agrícolas cada vez mais eficazes levaria à obtenção de um excedente de produção que propiciou um modo de vida totalmente inovador, que foi o urbano.

Esse conjunto de transformações culturais e as possibilidades migratórias levando grupos a se fixarem em regiões cada vez mais distantes acarretou na paulatina transformação do nostrático em diversos outros idiomas. Este é, aliás, um fenômeno muito comum na produção da comunicação falada. Para se ter uma ideia, nos tempos atuais há cerca de 6.909 línguas com falantes no mundo. A maioria destas línguas deriva por volta de apenas 35 troncos linguísticos distintos entre si. Certamente, no período pré-histórico também houve uma grande diversidade de códigos falados além do citado nostrático.

Ocorre que a fala é uma característica essencial do ser humano. O homem possui duas dimensões evolutivas: a biológica e a cultural. Na biológica, como ocorre com todas as demais espécies animais, a configuração anotômico-fisiológica foi se transformando através do processo de seleção natural. Por outro lado, a dimensão cultural é única da espécie humana. Através da cultura o homem produz respostas às exigências do meio através da solução de problemas e não mais do puro instinto. Contudo, o acervo cultural deve ser transmitido de uma geração a outra através da língua e da fala. Neste sentido, muitos pesquisadores asseveram que o ser humano não nasce homem, ele se torna homem. É o convívio social e a transmissão da cultura que humaniza o indivíduo. A língua constitui o código formal institucionalizado e a fala é a mensagem enunciada pelos sujeitos da comunicação.

Diversos estudiosos, notadamente em sede antropológica, aventaram várias hipóteses para explicar o surgimento da fala entre os humanos. Temos a teoria onomatopeica da fala que prevê a origem dela através da imitação de sons, ruídos, gritos, dando-lhes um caráter verbal. A teoria dos gestos sugere que a fala surge da tentativa  de se acompanhar, com a língua, os gestos realizados com o corpo. Há a teoria da evolução da cultura material, preconizando que quanto mais sofisticada se tornou a indústria lítica, mais complexo se tornou o cérebro humano, o que possibilitou o evento da fala. A teoria musical, proposta pelos professor Otto Jespersen, imagina que o homem ao aprender a tirar sons rítmicos dos instrumentos dados pela natureza (pedras, madeiras, etc) passou a cantarolar acompanhando a melodia.

Outra tentativa interessante de se explicar a origem da fala é a "teoria da caça". Nesta concepção, a articulação da fala foi uma necessidade imposta a partir do exercício da caça de animais de grande porte. Caçar animais de grande porte era uma tarefa complicada. O homem possui uma estrutura física frágil perante a maioria dos grandes animais. Por isso, o êxito da caçada estava numa ação conjunta dos indivíduos em torno de uma estratégia comum. Para coordenar essa estratégia no campo de caça foi de importância sine qua non o código sonoro. Pois a comunicação por gestos desviaria a atenção visual que deveria estar focada na presa.

Todas estas teorias possuem muitas críticas. Contudo, todas elas podem concorrer, em parte, para a explicação do nascimento da fala.

Estudos anatômicos realizados em fósseis humanos concluíram que não apenas o homo sapiens sapiens, mas diversos outros gêneros humanos possuíam a capacidade para a fala. Muitos daqueles também produziam uma indústria lítica, possuindo cultura. E sabemos que cultura e linguagem andam associadas uma à outra. Notadamente, o homem de neandertal apresentava uma cultura bem desenvolvida. Seus fósseis são achados conjuntamente com objetos manufaturados. E seus ritos funerários apontam para a presença da religião e de uma cultura mais complexa. Provavelmente houve um ou mais idiomas neandertais. O problema é que estes grupos jamais chegaram ao estágio de invenção da escrita. Somente o homo sapiens sapiens desenvolveu uma codificação gráfica para representar a língua falada. Desta forma, não há qualquer vestígio das supostas línguas faladas por outros hominídios.

Saliente-se que foi o advento da escrita que foi tomado como critério para dividir a passagem do homem pelo globo em pré-história e história.

Finalizando, foram formuladas algumas críticas a respeito do marco da escrita para separar história e pré-história. Uma delas declara que a história desprezou 2 milhões de anos, desde o surgimento do homem, para considerar apenas os últimos 5 mil anos (quando surge a primeira forma escrita na Suméria). Outra crítica, bem inteligente, é aquela que expõe que mesmo após a descoberta da escrita, durante quase toda a antiguidade, idade média e modernidade, apenas uma pequena parte da população mundial dominava a escrita. Assim, a história escrita é uma história preponderantemente elitista.

Dicionário de Nostrático da Universidade de Cambridge:

Referências Bibliográficas:

BASTOS, Cleverson Leite; CANDIOTTO, Kleber. Filosofia da linguagem. Petrópolis: Vozes, 2007.

BERWANGER, Ana Regina; FRANKLIN LEAL, João Eurípedes. Noções de Paleografia e Diplomática. 4ªed. Santa Maria: Ed. da UFSM, 1012.

DUBOIS, Jean (et al). Dicionário de Linguística. São Paulo: Cultrix, 1995.

LEHMANN, Winfred. Introducción a la linguistica histórica. Madrid: Editorial Gredos, 1969.

MONTAGU, Ashley. Introdução à Antropologia. 2ªed. São Paulo: Cultrix, 1977.

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sábado, 17 de fevereiro de 2018

Pré-história e seleção natural: a evolução física do ser humano em 2 milhões de anos.






Os achados fósseis submetidos aos métodos de datação do carbono 14 e do argônio 40 apontam que a espécie humana surgiu na face do planeta há, mais ou menos, dois milhões de anos. Desde os primeiros hominídios paleantrópicos até o homo sapiens sapiens houve um série de transformações físicas e orgânicas guiadas pela seleção natural das mutações mais positivas para a melhor adaptação ao meio. 

O processo de hominização (formação do homem) se deu no continente africano ainda coberto por extensa cobertura florestal. Neste período, aquelas primeiras espécies próximas ao homem viviam nas árvores e tinham alimentação basicamente vegetariana e de insetos. Porém, durante o Plioceno as florestas africanas se transformaram nas savanas, gerando uma nova pressão adaptativa. Na savana a disponibilidade de alimento vegetal é muito menor e, assim, quem não se adaptasse a uma nova dieta proteica, conseguida através da atividade de caça, tenderia a desaparecer. Nós estamos aqui justamente por conta daqueles primeiros homens terem conseguido realizar esta transição na dieta. Aliás, a versatilidade alimentar do ser humano é um dos fatores que o levou a dominar todo o globo. Nosso sistema digestório pode digerir uma boa variedade vegetal, insetos (na China há espetinhos de escorpião e gafanhotos vendidos nas feiras), peixes, aves, anfíbios, répteis e mamíferos.

A dieta rica em proteínas foi uma das causas do aumento do volume do cérebro humano. Enquanto o volume cerebral dos australopitecus era de 600c.c. o do homem moderno é de 1350c.c. A maior capacidade cerebral levou o homem para um novo paradigma adaptativo, que foi a dimensão da produção de cultura. Neste momento, o homem deixa de se guiar puramente pelos instintos e passa a ser um solucionador de problemas.

Contudo, para que o homem se tornasse um caçador foi necessária uma adaptação na postura física. Para que ganhasse um melhor campo de visão sobre suas presas, a elevação do corpo para a postura ereta foi de suma importância. Não apenas a visão é beneficiada pela postura ereta, como os braços ficam liberados durante a caminhada ou a corrida para manusearem artefatos de ataque (lanças, arcos e flechas, boleadeiras, etc). 

Ao adotar o andar bípede, na posição ereta, outras modificações ocorreram gradativamente com a nossa engenharia corporal. Uma delas foi o aumento da musculatura da região glútea. O quadril ficou no centro de gravidade do corpo ereto, tendo sua musculatura uma importante função na manutenção postural.

Hoje em dia as mulheres dão muito valor a esta musculatura glútea fazendo uma série de exercícios em academias para torná-la mais volumosa e sem estrias. Talvez, seja o resultado de uma pressão adaptativa de milhões de anos ainda atuando no inconsciente humano.

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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Crítica e subserviência no carnaval carioca: Paraíso do Tuiuti e Unidos da Tijuca pontuam os dois lados da política nacional.



A simpática escola de samba do tradicional bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, ousou realizar, talvez, o maior enredo de crítica política de todos os tempos no carnaval carioca. Contou a história, na avenida, do golpe de Estado ocorrido em 2016, quando a presidente Dilma foi  impedida sem a adequada configuração de crime de responsabilidade fiscal. 

Trouxe um destaque representando como vampiro o presidente ainda em exercício. Algo de um ineditismo fantástico. A cereja no bolo é que o rapaz que representou o presidente-vampiro trata-se de um professor de história.

A ala dos "manifestantes-patos-fantoches-camisa-de-seleção" simboliza aquele mar de gente de pouquíssimo bom senso, com baixíssima leitura da conjuntura, que não acompanha profundamente a política e sem conhecimento histórico que se deixa manipular e passa a reverberar, como papagaios, ideias que são contrárias aos seus próprios interesses.

O mais fantástico foi o fato da escola conseguir que um dos principais meios de comunicação a serviço dos interesses dominantes realizasse a transmissão nacional e internacional desta narrativa que é diariamente abafada por estes mesmos veículos.

O resultado foi que o samba funcionou e a escola levantou a Marquês de Sapucaí.  Isto, no entanto, não é garantia de que a escola consiga retornar no desfile do sábado das campeãs. As escolas menos famosas têm extrema dificuldade em receber notas adequadas com o desfile que realizam. Algo que me chama a atenção são as notas da bateria. Quando escolas famosas quase sempre recebem a nota dez, efusivamente proclamada pelo Jorge Perlingeiro, e as escolas menores recebem notas mais baixas. Como se o sambista da mangueira ou de Vila Isabel soubesse tocar o tamborim melhor que os de outras praças.

Para piorar, o ingrediente político poderá se voltar contra a escola e sua diretoria. Não consigo deixar de pensar nos diretores dessa escola como possíveis alvos como foram os reitores das universidades públicas.



Por outro lado, tivemos o carnaval promovido pela Unidos da Tijuca. Uma escola que já pode-se considerar entre as mais fortes da cidade, tendo em vista que já conseguiu o título de campeã em passado recente. 

A Tijuca optou por uma fórmula mais fácil, que é a de bajular aqueles mesmos meios de comunicação através de uma homenagem do enredo a um de seus diretores. 

Em época eleitoral de tanta efervescência política, escolher este tema parece uma estratégia pouco corajosa. Ainda que se desejasse realizar uma homenagem a alguém das artes, houve várias personalidades importantes que faleceram em 2017 que acredito mais interessantes para se transformar em enredo. Uma delas foi a inesquecível Eva Todor. No meio musical tivemos o passamento de Luiz Melodia, Almir Guineto e do Belchior. 

Na quarta-feira de cinzas iremos saber o que valeu mais: se a crítica social e política ou a simples bajulação.

A Tijuca poderá até ser novamente campeã do carnaval carioca, mas a Paraíso do Tuiutí já entrou para história !!!

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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A classe média e a naturalização da pobreza extrema.





Ontem, dia 24 de janeiro, ocorreu o julgamento do ex-presidente Lula por um colegiado do TRF4. O fato serviu para fomentar a discussão política em todas as esquinas do país. Ainda que haja muita discussão, não significa que se tenha qualidade na formação política da grande maioria da população. 

Eu vinha caminhando do mercadinho que há aqui no bairro e, mais à frente, seguiam três jovens adultos de classe média baixa que provavelmente haviam saído do trabalho. Pude ouvir um pedaço da conversa do trio que discutia a situação política pós afastamento de Lula da corrida presidencial.

Um deles disse que gostaria de votar no Dória, pelo fato de achá-lo muito inteligente. Os outros dois concordaram com a assertiva do primeiro. Um outro disse que Dória está fazendo um excelente trabalho em São Paulo. Nesse momento, o terceiro caminhante resolveu estabelecer uma crítica ao prefeito paulista. Apurei os ouvidos para tentar escutar algo que fosse importante e que salvasse aquela conversa. Então, o rapaz disse de forma enfática que o único e imperdoável problema do prefeito foi o de taxar a netflix. Ao que os outros dois caminhantes concordaram: "é, nada haver taxar a netflix".  Se referiam ao fato do prefeito haver sancionado uma lei que estabelecia imposto sobre este tipo de serviço de streaming.

Daí,, fiz a minha reflexão interna. Em relação ao prefeito que propôs distribuir alimento em forma de ração para as pessoas necessitadas, o maior problema que aqueles jovens conseguiram ver foi a imposição de imposto sobre o netflix.

Este é um sinal da naturalização que boa parcela da nossa sociedade empreende em relação à parcela miserável da população. Parece que o discurso de que o miserável que procure alguma forma meritória de sair do gueto colou totalmente. E que o estado e o dinheiro dos impostos não deve ser utilizado para as questões sociais. 

Infelizmente, vivemos numa sociedade que foi a última a realizar a abolição da escravatura e que ainda hoje não conseguiu se tornar sensível aos profundos problemas sociais do país.

Quanto à pobreza extrema, só há uma coisa a dizer:
- Nada haver taxar a netflix !

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Evo Morales é acusado de tentar criminalizar a evangelização na Bolívia.



Tenho percebido, nesses dias, uma grande movimentação de postagens criticando uma suposta reforma do código penal pretendida pelo governo boliviano. Todas essas críticas voltadas contra o presidente daquele país andino por conta de, ainda supostamente, pretender criminalizar o ato de evangelização por parte dos pregadores religiosos. Não ficou claro se tal tentativa seria por meio da criação de um novo tipo penal específico ou pela supressão de alguma garantia à liberdade religiosa. Todas as postagens que recebi são de fontes religiosas, sejam igrejas evangélicas, pastores, obreiros ou fiéis ativistas. Não consegui localizar nenhuma fonte isenta para melhor entender a polêmica.

Os religiosos estão tachando o presidente-índio de antidemocrático pelo fato de criar algum obstáculo à evangelização. Pelo que pude perceber nesses textos, não haverá fechamento de igrejas e nem proibição à qualquer culto. O que o governo pretende é regulamentar o proselitismo religioso feito nos espaços públicos e, não sei se também, pelas concessões públicas de canais de rádio e televisão. Diga-se de passagem que este proselitismo, fazendo analogia com outras praças onde ocorre, nem sempre é realizado de forma ética e, ainda, utilizam estratégias agressivas e que incitam à intolerância.

Sem o conhecimento do texto da reforma é complicado tomar uma posição. Contudo, é interessante entender as três fases do sistema penal boliviano, país que viveu muitos anos sob o regime colonial. O direito penal boliviano se divide em três fases distintas: a pré-colonial, a colonial e a republicana. Na fase pré-colonial é interessante observar que o delito mais grave da sociedade pré colombiana consistia em se tentar qualquer ato subversivo contrário ao poder real do Inca ( seria algo parecido aos nossos crimes contra o Estado). Na fase colonial, o sistema penal variava a força da pena segundo a etnia do réu; sendo draconiano contra os índios e suave contra os espanhóis ou seus descendentes (chapetones e criollos). Finalmente, com a república, o decreto de 21 de dezembro de 1825 determinou que os tribunais deveriam observar as leis espanholas de 1802. A partir de então, surge o primeiro Código Penal  boliviano em 18 de julho de 1831. De lá para cá, o código sofreu três reformas: a primeira no governo de Andrés de Santa Cruz (1834), a segunda no governo de Hugo Banzer (1973) a a última no governo de Gonzáles Sanches de Lozada (1997). Se o atual presidente - Evo Morales - conseguir aprovar seu texto, será a quarta reforma do sistema penal boliviano.

Ainda que não tenhamos dados suficientes para formar opinião sobre a questão boliviana, podemos aproveitar o fato para discutir nossas impressões sobre o impacto do proselitismo religioso em nosso próprio país.

Atualmente, em solo pátrio, as lideranças religiosas gozam de uma total e irrestrita liberdade de expressão. Ouvimos todos os tipos de discursos, desde os sensatos aos mais desarrazoados. É comum, nos programas televisivos de diversas igrejas, ocorrer toda sorte de abusos. Verificamos desde o uso da religião para enganar os incautos com falsos milagres e retirar dízimos e ofertas até o uso de discursos agressivos e intolerantes contra outras denominações e religiões.

O avanço destas práticas já estão gerando um visível impacto econômico, político e social em nosso meio. 

Economicamente podemos citar que dentre as maiores fortunas do país, há vários religiosos elencados. Suas igrejas se transformaram em um grande negócio. Primeiro, houve a expansão em filiais por todo canto das cidades. Depois, essas igrejas passaram a criar verdadeiros conglomerados econômicos com a função de formar um mercado de consumo fechado. Desta forma, o fiel vai à igreja, consome os livros das editoras religiosas, escuta as músicas dos selos gospel, e acompanha a vasta programação religiosa na televisão e nas rádios. Boa parte das concessões de rádios estão nas mãos desses grupos.

O aumento do poder econômico levou ao paralelo aumento do poder político. Atualmente há uma numerosa e crescente bancada de políticos intimamente ligados a essas igrejas. São eleitos pela malha de igrejas, pastores, obreiros e fiéis que funcionam como cabos eleitorais. Certamente, parte substancial da verba de campanha vêm da arrecadação das igrejas. Uma vez eleitos, trabalham por projetos que ampliam a margem de enriquecimento das igrejas. Ao passo que estamos, em alguns anos qualquer candidatura somente será viável com o apoio de uma dessas igrejas. Por isso, já podemos observar nas eleições passadas um grande número de candidatos que se deixam filmar sendo batizados ou recebendo a oração dos pastores.

O impacto social tem sido cada vez mais alarmante. Além de boa parte dessa população ser condicionada a não desenvolver um pensamento crítico próprio, a agressividade dos discursos nos púlpitos têm gerado um nível de intolerância perigoso. Multiplicam-se as notícias de famílias que precisam abandonar suas casos e os locais onde criaram raízes, em comunidades pobres, por causa de traficantes "cristãos" que os obrigam a abandonar suas moradas. O mesmo tem sido notado com o aumento do número de ataques a locais de culto, notadamente os de matriz africana.

Ainda nesse sentido, temos presenciado a convergência da intolerância religiosa e a radicalização dos púlpitos com o discurso de políticos  que adotam postura contrária aos direitos humanos, aos direitos dos trabalhadores e que enaltecem o regime militar.

Tudo que cresce de forma desmedida e desregulamentada acaba por virar uma bola de neve que começa a cooptar e fagocitar tudo que está a sua volta. Desta forma, temos visto a interferência que essas vozes pretendem manifestar na educação. Tentam abolir o ensino de educação sexual, patrulhar os conteúdos de história e sociologia e, ainda, censurar as mostras de artes em museus.

Neste passo, corre-se o risco de no futuro deixarmos de viver em um país laico. O discurso religioso extremista subverte os princípios democráticos. Usam o preceito da liberdade de expressão para blindar suas práticas. Por outro lado, asseveram gritando a plenos pulmões que a democracia é o governo da maioria e que a minoria se adeque ou se mude. Quando a verdade democrática é justamente ao contrário. Qualquer governo autoritário constitui o governo absoluto da maioria, mas somente na democracia os direitos das minorias são respeitados. 

Pelos fatos expostos, concluímos que no Brasil também seria muito bem vinda uma regulamentação mais atenta sobre as práticas religiosas. Porém, é evidente que esses grupos irão tachar um governo que tome tais medidas de antidemocrático.

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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Uma bibliografia para o estudo da pré-história.




O período pré-histórico é certamente aquele sobre o qual temos menos material bibliográfico. Isso se deve pelo fato de também corresponder ao tempo em que o homem não havia desenvolvido a escrita. Apesar da grande curiosidade sobre essa época, a escassez de fontes não permitiram que se desenvolvesse uma literatura acadêmica tão abrangente como ocorreu com a antiguidade e a idade média. 

Até as primeiras décadas do século passado, quando vigorava o paradigma positivista que elegia a fonte escrita como essencial para a escrita da história, era ainda mais penosa a vida do historiador que desejasse pesquisar aquele período. Posteriormente, com a superação do positivismo e o alargamento do conceito de fonte histórica, o estudo da pré-história começou a ser beneficiado e ter melhor desenvolvimento. Os achados arqueológicos - fósseis, artefatos e pinturas rupestres - passaram a constituir as principais fontes sobre as quais se debruçaram os pesquisadores e a antropologia deu importante apoio interpretativo.

Na língua portuguesa são ainda mais escassos os trabalhos escritos, traduzidos e publicados sobre o recorte citado. Por isso, iremos deixar aos interessados sobre o período uma lista bibliográfica contendo livros específicos sobre o tema, outros contendo capítulos de interesse à pesquisa, alguns sobre história natural e a questão da evolução e alguns sobre a pré-história brasileira.

Quem tiver outras indicações bibliográficas pedimos que as adicione nos comentários a esta postagem.


  • ADOVASIO, James; PAGE, Jake. Os primeiros americanos. Rio de Janeiro: Record, 2010.
  • AQUINO, Rubim Leão de; CAMPOS LOPES, Oscar Guilherme Pahl; FRANCO, Denise Azevedo. História das Sociedades Volume I: das sociedades primitivas às sociedades medievais. 3ª ed. Rio de Janeiro: Novo Milênio, 2008.
  • BOURGUIGNON, André. História natural do homem Volume I: o homem imprevisto. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.
  • BRAIDWOOD, Robert. Homens Pré-históricos. Brasília: UNB, 1992.
  • BRÉZILION, Michel. Dicionário de Pré-história. Lisboa: Edições 70, s.d.
  • CLARK, Grahame. A identidade do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1985
  • ____________ . A pré-história. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
  • DANIEL, Glyn. El concepto de prehistoria. Barcelona: Editorial Labor, 1968.
  • ELDREDGE, Niles; TATTERSALL, Ian. Os mitos da evolução humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.
  • ELIADE, Mircea. História das crenças e das ideias religiosas Volume I: da idade da pedra aos mistérios de Elêusis. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
  • FOLEY, Robert. Apenas mais uma espécie única. São Paulo. EDUSP, 1993.
  • ____________ . Os humanos antes da humanidade. São Paulo: UNESP, 2003.
  •  FUNARI, Pedro Paulo. Pré-história do Brasil. São Paulo: Contexto, 2015.
  • _______________ . Arqueologia. 3ªed. São Paulo: Contexto, 2014.
  • GOSDEN, Chris. Pré-história. Porto Alegre: L&PM, 2012.
  • HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
  • LAMBERT,  Yves. O nascimento das religiões: da pré-história às religiões universalistas. São Paulo: Edições Loyola, 2011.
  • LEAKEY, Richard. A origem da espécie humana. Rio de Janeiro: Rocco, 1995
  •  LEROI-GOURHAN, André. Pré-história. São Paulo: Pioneira/USP, 1981.
  • ______________________ . As religiões da pré-história. Lisboa: Edições 70, 1995.
  • ______________________ . Os caçadores pré-históricos. Lisboa: Edições 70, 1983.
  • ______________________ . Os caminhos da história antes da escrita. In: LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre. História: novos problemas. Rio de Janeiro: Francisco alves, 1976.
  •  MARTIN, Gabriela. Pré-história do Nordeste do Brasil. Recife: Universitária da UFPE, 1997.
  • MITHEN, Steven. A pré-história da mente: uma busca das origens das artes, das religiões e da ciência. São Paulo: UNESP, 2002.
  • MONTAGU, Ashley. Introdução à antropologia. 2ªed. São Paulo: Cultrix, 1977.
  • MORGAN, Lewis. A sociedade primitiva. Lisboa: Presença, s.d.
  • MORRIS, Desmond. O macaco nu. São Paulo: Círculo do Livro, 1967.
  • NEVES, Walter Alves; PILO, Luis Beethoven. O povo de Luzia: em busca dos primeiros americanos. Rio de Janeiro: Globo, 2008.
  •  SHAPIRO, Harry L. Homem, cultura e sociedade. Rio de Janeiro: Fundo de cultura, 1966.
  • VANDERLEI SILVA, Kalina; HENRIQUE SILVA, Maciel. Dicionário de conceitos históricos. 3ªed. São Paulo: Contexto, 2015.
  • SOFFER, Olga; PAGE, Jake; ADOVASIO, J.M. Sexo invisível: o verdadeiro papel da mulher na pré-história. Rio de Janeiro: Record, 2009.
  • TENÓRIO, Maria Cristina (org). Pré-história da terra brasilis. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1999.
  •  TRIGGER, Bruce G. Além da história: os métodos da pré-história. São Paulo: EPU, 1973.

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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Um Projeto Propositalmente Incorreto da História do Brasil. Agora dizem que a feijoada veio da França! Eles pensam que nos enganam !




Os tais guias politicamente incorretos são obras com as quais não gasto o meu suado dinheirinho. E sequer gasto tempo vendo a reprodução desses livros no canal History. Hoje, contudo, de férias e "zapeando" o controle remoto da televisão, acabei parando naquele canal que tem mais "trato feito" e "o sócio" do que história propriamente dita. Estava passando justamente o programa sobre o guia incorreto da história do Brasil.

Neste episódio faziam uma colcha de retalhos de entrevistas para ensinar ao espectador que a feijoada não é brasileira, mas uma imitação do cassoulet francês. Apareceu até um doutor em história, que não recordo o nome, que ao ser entrevistado asseverou que o primeiro registro escrito que se tem sobre a feijoada é de um restaurante de Recife.

Acho engraçado pensar se o tal pesquisador doutor esperava encontrar um cardápio de senzala escrito: "domingo, feijoada completa" !!! Lembrando, inclusive, que a transmissão da cultura dos escravos africanos se fazia através da tradição oral.

Parece que os dois fundamentos usados para retirar a feijoada do acervo cultural dos escravos foram que em outros países já existiam pratos com feijão e que não havia registro escrito anterior ao citado restaurante.

Ora, são dois argumentos muito chinfrins para desautorizar o patrimônio cultural de nossos afrodescendentes.

Dizer que o prato não é invenção dos escravos porquanto já existia feijão em culinária de outros países é algo tão idiota que se levado a sério teria que acabar com toda a culinária nacional existente no globo. Pois todos os alimentos que existem na natureza já foram utilizados por grupos humanos mesmo antes do atual recorte geográfico em estados nacionais. O homem domina a agricultura e a criação de animais desde o neolítico. Desde aqueles tempos imemoriais que o ser humano já faz assados, cozidos, caldos, ensopados com os mais diversos tipos de produtos da terra.

O fato de não haver registro escrito e o primeiro ser de um restaurante é mais esdrúxulo ainda. Pois, como dito, os escravos, em sua maioria, não possuíam escrita, com exceção de alguns islamizados. E um restaurante servir feijoada não significa que trouxe a receita da França. Todo cozinheiro pesquisa pratos populares para ver se pode aproveitar receitas e temperos.

O arroz e o feijão são dois dos alimentos mais baratos que temos. Mesmo nas mais agudas crises foi o arroz com feijão e farinha que serviram de base alimentar à população miserável no Brasil. Certamente, por conta do preço, que também constituíam a base da alimentação dos escravos. Quem cozinhava na casa grande não eram chefes de cousine, mas escravas. Aquelas partes dos animais que não agradavam ao apetite dos senhores eram, por elas, levados para engrossar a comida dos negros cativos. Rabo e orelha de porco estavam logicamente neste contexto.

Se alimentar das partes menos nobres dos animais é prática comum em épocas de extrema necessidade. Os próprios portugueses inventaram pratos com as tripas do boi (dobradinha) por conta de períodos de guerra onde a parte nobre do boi era enviada para as tropas e a população das cidades comiam o resto em esforço de guerra.

Desta forma, da necessidade nas senzalas surgiu a feijoada que, depois, foi se tornando comida mais sofisticada. Assim, a existência de feijão na França, em Portugal, na China, ou em qualquer outro lugar, não retira a originalidade da receita elaborada em nossas senzalas.

Estes guias incorretos mais parecem com 'projetos propositalmente incorretos da história" com a finalidade de atacar a cultura e principalmente as minorias sociais. Somente este guia ataca a cultura negra em várias frentes: tenta destruir a figura de Zumbi dos Palmares, diz que o samba é de influência europeia e o mesmo com a feijoada.

E uma nação sem identidade cultural é bem mais fácil de ser dominada por interesses externos.

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