sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A religião, o teatro, a filosofia e a ciência: quando o homem se distinguiu dos demais seres vivos.




Em essência, o homem moderno mobiliza sua vida em torno de buscas que também estão no horizonte das demais espécies. Resumidamente, podemos elencar a subsistência e a busca de prazer. É claro que com o nosso avanço técnico e cultural nossos objetos de subsistência e prazer se tornaram mais complexos e sofisticados que das outras espécies animais. Por exemplo,  quando vamos a um restaurante ainda há um viés de sobrevivência e subsistência na base deste comportamento. Porém, hoje conseguimos unir a subsistência ao prazer, como ocorre com a crescente onda da gastronomia gourmet. 

No entanto, não é a nossa capacidade técnica de transformação e utilização de ferramentas que conferiu à nossa espécie o salto evolutivo no planeta. Outros animais, como algumas espécies de símios, também conseguem produzir ferramentas. Há determinados macacos, no Brasil, que produzem ferramentas lascando pedras da mesma forma que o homem do paleolítico. Na África, outras espécies utilizam pequenos galhos de árvores como varetas para coletar formigas.

Assim, o que nos tornou protagonistas deste salto foi a capacidade que desenvolvemos de produzir reflexões sobre os fatos da vida e o mundo que nos rodeia. Posteriormente, esta habilidade conferiu um grau de excelência na produção dos meios de sobrevivência.

Com toda nossa capacidade tecnológica atual é difícil enxergar alguma proximidade entre o homem e outros animais. Mas no paleolítico, quando ainda éramos essencialmente coletores e caçadores, do ponto de vista técnico estávamos muito parecidos com as demais espécies de também coletores e caçadores. O que nos diferenciou foi um movimento de reflexão sobre os fatos da vida que buscava dar significado a tudo que rodeava e, assim, gerar conhecimento para imprimir uma ordem aos eventos naturais.

Do homem primitivo ao moderno já elaboramos quatro níveis de reflexão para o entendimento da natureza. São eles: o pensamento mítico ou religioso, o teatro (representando as artes),  a filosofia e a metodologia científica.

As interpretações mágicas e místicas constituíram a primeira forma de explicar o mundo. As diversas sociedades construíram explicações míticas para os mais diversos fatos. Mitos para o nascimento e a morte, para a caça e a agricultura, para o amor e a guerra, para os ciclos da natureza e para a origem de todos os elementos naturais e da humanidade. Conforme a multiplicidade de mitos conseguiam dialogar entre si, se estruturou sistemas de crenças mais complexos que levou à elaboração das religiões. Por isto, a antropologia considera que o pensamento religioso foi a ocorrência que distinguiu a espécie humana das outras; pois consistiu em nosso primeiro instrumental interpretativo para responder àquele movimento de reflexão sobre o mundo.

Depois da mitologia ou religião, o próximo paradigma mediador entre a percepção humana e os fatos da vida foram as diversas manifestações artísticas. Desde os primórdios da humanidade existem diversas experimentações e expressões estéticas. No início, tais expressões estavam muito ligadas, e mesmo instrumentalizadas, aos rituais místicos. As pinturas rupestres encontradas em diversas cavernas e paredes rochosas possuíam uma funcionalidade mística. Através daquelas pinturas acreditava-se  no maior sucesso da caçada vindoura. Acreditavam que a alma do animal se encontrava "capturada" pelo desenho na rocha. As danças e canções também estiveram, de início, atreladas aos êxtases religiosos. Por isso, muitos acreditam que a primeira manifestação artística a gerar maior potencial crítico na plateia tenha sido o teatro grego. Através da encenação do drama e da comédia os espectadores eram motivados e refletir sobre os diversos temas de sua existência.

O teatro foi tão importante para o fomento da capacidade crítica dos cidadãos, que muitos autores entendem que foi condição sine qua non (essencial) para o futuro nascimento da filosofia grega. O método filosófico consistiu no terceiro paradigma utilizado para a análise dos diversos elementos da vida humana e que propôs uma persecução racional, afastando abordagens místicas, na análise dos objetos em estudo.

O quarto e último paradigma interpretativo da realidade foi a ciência. O estabelecimento de novos parâmetros, através da metodologia científica, conferiu um novo salto para a compreensão dos fenômenos da mais variada ordem. Desde a inauguração da abordagem cartesiana, a metodologia evoluiu no sentido de fornecer, ao pesquisador, diversas técnicas e instrumentos para a realização da investigação científica. Hoje, nenhum trabalho realizado em âmbito universitário prescinde da metodologia científica.

É interessante observar que a criação de uma nova abordagem não invalidou ou extinguiu a anterior. Na atualidade, convivemos com estes quatro modelos de apreensão do mundo. A religião continua com  grande influência na conformação das sociedades. As artes na vanguarda de diversas discussões. A filosofia tem seu lugar acadêmico na discussão de elementos que não podem ser testados, segundo a exigência da marcha científica, como o amor, a paixão, o ódio, a ética, entre outros. E, finalmente, a ciência moderna que ocupa nossas universidades.

Muito provavelmente, outras abordagens surgirão futuramente. E, talvez, seja fundamental para aqueles momentos em que a sociedade parece padecer de certa estagnação.

Referência bibliográfica:
Obra: Mito e Realidade -  Autor: Mircea Eliade. -  Editora Perspectiva.

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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Bolsonaro e a confusão entre disciplina rígida e conhecimento.




No vídeo distribuído inicialmente pela página do presidenciável Bolsonaro, realizado numa escola pública de Manaus que está sob administração da polícia militar, aparecem vários jovens do ensino médio em forma, batendo continência, repetindo em voz uníssona frases e texto ditado por um comandante, que dava loas à presença do deputado, que foi considerado a "salvação da nação". 

O deputado, a partir desta apresentação, diz que este deve ser o modelo de educação para o país.

O deputado dizer que uma escola administrada pela PM que o apoia é um modelo de educação dá para se entender. Ainda que saibamos que disciplina rígida não tem necessariamente relação com conhecimento e capacidade crítica. Aliás, este é um exemplo dos que apoiam o "escola sem partido", que muito mais parece doutrinação do que aquilo que os seus defensores alegam ocorrer nas escolas públicas.

O problema é que muita gente comum pensa desta forma. Em parte, isto se deve ao estado caótico de indisciplina que muitas escolas apresentam. Temos de concordar que tem de haver um meio termo. Dentro do ambiente escolar há necessidade de uma dose disciplinar para que os profissionais possam efetuar seu trabalho. Hoje, vemos alunos desafiando e, mesmo, batendo em professores. Isto faz as pessoas, que não são do ramo da pedagogia, acreditarem que uma escola onde os alunos mais parecem uma tropa do exército seja a ideal.

Devemos salientar que a disciplina militar não visa o desenvolvimento da capacidade crítica dos indivíduos, que é o sentido da educação escolar. A disciplina militar visa unicamente construir uma relação de hierarquia e obediência que faça os soldados executarem objetivamente, sem qualquer avaliação crítica, as ordens do comando. É mais ou menos o que vemos no vídeo da escola, onde os alunos simplesmente repetem as frases ditadas pelo comandante. Educação, conhecimento e ciência não se constroem dessa forma. 

Para o bom desenvolvimento da educação, ao contrário, é necessário que exista um ambiente que estimule a criatividade do aluno, que não acontece nos rígidos sistemas militares. Por isso, acreditamos que exército e polícia deve ser uma coisa e educação escolar outra coisa. 

Por fim, o problema da indisciplina, que ocorre atualmente em várias escolas, não tem a ver com os professores ou sua formação, mas com a falta de investimento nos colégios, onde não há mais pessoal de apoio suficiente para a manutenção do espaço escolar.

Vídeo postado pelo deputado Bolsonaro:
https://www.youtube.com/watch?v=v_dknjD-lGg

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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Frustração e sublimação. Nota sobre a violência de nossos dias.


Viver compreende o conhecimento de gerenciar emoções. Somos submetidos a uma sucessão de momentos que geram sentimentos, na maioria das vezes, aleatórios às nossas vontades. Fatos alegres, tristes, alvissareiros e temerários nos assaltam durante a história de nossas vidas. A maior ou menor incidência de um ou de outro estado de espírito acaba contribuindo para moldar nossa estrutura psicológica. Algumas pessoas têm motivos para saudar cada dia com otimismo. Outras, mesmo sem motivos, são mártires que nadam contra a corrente e nos passam sempre força e alegria. Uma parcela, no entanto, acaba tendo o brilho do olhar desvanecido pelo turbilhão dos acontecimentos.

Em determinados momentos, o peso sobre os ombros faz com que tanto as tristezas quanto as alegrias nos levam a chorar. Das tristezas já estamos inundados e da alegria sabemos sua transitoriedade. Agrava-se ainda mais quando inseridos num contexto social e econômico que não se pauta pela inclusão das pessoas. Neste caso, os desencantos de muitos servem de testemunho aos bem-aventurados.

Em determinados momentos históricos, todas as frustrações são reprimidas e vivemos sem fazer alarde. Alguns se tornam melancólicos, outros indiferentes e outros, ainda, não deixam transparecer as mágoas. As décadas que seguiram às duas grandes guerras podem ser assim consideradas. Houve tanta violência em tão pouco espaço de tempo que as pessoas cuidavam de evitar demonstrar ódio gratuitamente. Por isso, havia uma resignação que não era bom para o desejo de mudança, mas que foi útil ao estabelecimento de uma convivência mais solidária.

Hoje, no entanto, somos dominados por uma lógica econômica de mercado que nos leva a maiores frustrações. A todo instante somos bombardeados por campanhas a sugerir que para alcançar a felicidade precisamos consumir algo. No mesmo sentido, o atual discurso religioso da prosperidade nos remete a uma graça que se demonstra através dos bens. A tensão gerada por tais narrativas acabam como combustível para a explosão da violência. E a tendência é tal conjuntura se acirrar ainda mais com a adoção da agenda neoliberal, que terá como consequência maior concentração de renda, pobreza e aumento das distorções sociais.

Esta tensão e energia acumulada seria uma pulsão bem resolvida se sublimada na forma de organização e luta social por melhorias para o conjunto da sociedade. Contudo, isto não é do interesse do status quo e, por isso, medidas são tomadas para embaçar a percepção das pessoas e desarticular qualquer reação eficaz. As grandes mídias são os bispos, cavalos e torres de um xadrez que convence o homem médio de que o discurso correto é errado e vice versa. O meio virtual da internet também oferece veículo para inúmeras vozes intolerantes que semeiam o ódio.

 Manter o estado de violência de todos contra todos serve aos opressores.

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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Ódio, Intolerância, Ignorância e Obscurantismo. Ataques a centros espíritas mostram um país atrasado e saudoso da Inquisição.



Nas últimas semanas temos realizado uma maratona de postagens sobre o recorte histórico da Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício, baseado na leitura do livro "O Martelo das Feiticeiras", que foi um manual escrito por frades inquisidores para se identificar e julgar mulheres mulheres acusadas de bruxaria.

Contudo, qual não é nossa surpresa (como se ainda pudéssemos ter alguma surpresa no país atualmente) que os noticiários vêm publicando diversas matérias sobre atentados contra centros espíritas e de umbanda. Somente um centro espiritualista localizado no bairro do Humaitá, cidade do Rio de Janeiro, sofreu dois ataques com bombas incendiárias na mesma semana; segundo matéria do jornal "O Dia", cujo link deixaremos ao final.

É interessante observar que parece nunca ter havido tantas igrejas espalhadas pelo país e, ao mesmo tempo, tanto preconceito e ódio entre as pessoas. Parece que alguma coisa está funcionando muito mal no discurso religioso brasileiro moderno. Basta acompanhar as palavras de alguns canais do youtube cujos proprietários se apresentam como bons religiosos.

A ignorância e o obscurantismo também avançam a passos firmes. Ao mesmo tempo que se consolida uma forte bancada religiosa no Congresso, a cultura e a ciência vão sofrendo um grande esvaziamento de investimentos. Nesses dias, cortaram boa parte dos investimentos em bolsas para o ensino superior e pesquisa.

As disciplinas de história e geografia são as que mais sofreram com a retirada da grade obrigatória nas escolas de ensino médio. Ao mesmo tempo, em vários meios de comunicação, grupos vêm tentando reescrever a história ao gosto de cada freguês. 

Parece mesmo que caminhamos para uma teocracia muito obscurantista.

Matéria do jornal O Dia:
http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2017-08-03/centro-espirita-no-humaita-e-atacado-pela-segunda-vez-nesta-semana.html 

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Grupo acadêmico denunciado à justiça federal por conta do seu objeto de pesquisa mostra país próximo de uma idade das trevas. A Era das Perseguições.



Um grupo de estudos sobre as teorias de Marx (GEPMTE), na Universidade Federal de Minas Gerais), foi denunciado ao Ministério Público Federal, segundo está sendo informado em alguns portais, por suposta "pregação política" quanto ao seu objeto de estudo.

Embora a denúncia não tenha sido aceita pelo MPF, isto demonstra que a marcha dos acontecimentos estão levando o país para flertar com conjunturas de perseguição e intolerância próprias de alguns dos momentos históricos mais tristes da humanidade. Não podemos nos esquecer que um deputado federal propôs um projeto de lei para criminalizar o socialismo. Assim, o mero fato de ter obras de autores socialistas ou qualquer coisa que se refira aos estudos marxistas constituiriam materialidade para incriminar pessoas.

O pior é que quando esse tipo de conjuntura se forma, nunca se sabe de onde pode vir tais denúncias. Em regra, de pessoas que não aceitam que se pense de forma diversa das suas crenças. Porém, muita gente age sem qualquer ligação ideológica, apenas motivada por alguma frustração e, através da perseguição ao outro, tentam realizar uma espécie de catarse. 

Seja durante as ditaduras militares sulamericanas, no holocausto ou na inquisição, pessoas promoviam denúncias e delações contra outras pelos motivos mais abjetos possíveis. 

Este tipo de coisa dialoga de perto com a falta de lógica dos linchamentos. Qualquer pessoa pode ser vítima de um linchamento ainda que nada tenha feito que justifique. A turba sequer analisa o ocorrido, mas apressasse a gritar "lincha". 

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terça-feira, 1 de agosto de 2017

Entre Santos e Hereges. Com quais provas a Inquisição condenava uma mulher por bruxaria?


A Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício consistia num aparato jurídico da Igreja com o suposto objetivo de combater as heresias no seio das comunidades cristãs. Na verdade, tratava-se de um instrumento eficaz para se combater todo e qualquer indivíduo que pudesse de alguma forma concorrer com a Igreja através de conhecimentos, discursos ou práticas. Em determinadas regiões, como na França, também adotou caráter higienista, ao exterminar os leprosos sob a acusação de que planejavam envenenar o abastecimento de água das cidades. Na península ibérica foi utilizada para oprimir e forçar judeus e muçulmanos a se converterem ao catolicismo.

Todo discurso que contrariasse os dogmas da Igreja era potencialmente objeto de juízo da inquisição. Neste sentido, houve alguns julgamentos famosos como os de Galileu Galilei e de Giordano Bruno. O primeiro foi julgado pelo tribunal da Inquisição por conta de uma obra escrita onde argumentava em favor da tese do heliocentrismo, que asseverava que a Terra girava em torno do Sol. Galileu teve como pena a de negar suas teorias através de confissão pública e se manter recluso em casa até sua morte. O segundo, Giordano Bruno, teve sorte pior, morrendo queimado, por conta de uma série de acusações, desde magia até posições teológicas contrárias aos dogmas cristãos.

A Inquisição exerceu um papel opressor especialmente contra as mulheres. Dos processos movidos por conta da acusação de feitiçaria, mais de 75% se davam contra elas. Estima-se que mais de 100 mil mulheres morreram nas fogueiras sob a acusação de serem bruxas. Vários historiadores atribuem à Inquisição um papel sine qua non para moldar a mulher submissa ao homem no início do período moderno.

O julgamento feminino mais emblemático foi o de Joana D'Arc, que foi figura fundamental ao arregimentar os exércitos e camponeses franceses contra os invasores ingleses na Guerra dos Cem anos. Após o fim da guerra, o rei Francês entra em acordo com os britânicos e entrega Joana para ser julgada por bruxaria.

Se, por um lado, Joana foi julgada por conta de seu envolvimento com o plano político e o simbolismo que granjeou junto aos camponeses, por outro lado, a maioria das mulheres julgadas era por conta de práticas culturais e outros conhecimentos que não eram reconhecidos e permitidos pela Igreja. Todo local de saber diverso dos postulados cristãos era considerado um atentado contra a fé. Neste sentido, muitas mulheres com conhecimentos de medicina, das plantas e ervas medicinais e as parteiras foram alvo de perseguição e poderiam ser condenadas á morte pela prática de bruxaria.

A principal forma do tribunal conseguir as provas para a condenação era por intermédio da tortura. Pela tortura obtinham a confissão das acusadas. A confissão era considera a "rainha das provas". A mentalidade construída através dos tempos medievais informava que as bruxas, ainda que encontradas sozinhas, participavam de uma espécie de seita, que se reuniam nas madrugas, nos bosques, para realizar encontros diabólicos denominados "sabá". Muito deste imaginário encontrava base nas crenças religiosas que eram praticadas pela Europa antes da consolidação do cristianismo. O historiador Carlo Ginzburg, na obra "História Noturna", descreve como o senso comum acreditava que se dariam estas reuniões:

"Bruxas e feiticeiros reuniam-se à noite, geralmente em lugares solitários, no campo ou na montanha. Às vezes, chegavam voando, depois de ter untado o corpo com unguentos, montando bastões ou cabos de vassouras; em outras ocasiões, apareciam em garupas de animais ou então transformados eles próprios em bichos. Os que vinham pela primeira vez deviam renunciar À fé cristã, profanar os sacramentos e render homenagem ao diabo, presente sob a forma humana ou (mais frequentemente) como animal ou semianimal. Seguiam-se banquetes, danças, orgias sexuais. Antes de voltar para casa, bruxas e feiticeiros recebiam unguentos maléficos, produzidos com gordura de criança e outros ingredientes."

Desta forma, um dos objetivos das seções de tortura era fazer com que a acusada relatasse a participação nos encontros do sabá, que demonstraria de forma inequívoca se tratar de uma bruxa pactuada com as forças do mal.

A maioria dos juízes investidos no Tribunal provinham da Ordem dos Frades Dominicanos, sendo a que mais se destacava no combate às heresias. Dois frades dominicanos, Heinrich Kramer e James Sprenger, escreveram um manual, chamado Malleus Maleficarum, que servia de consulta e guia para que os inquisitores determinassem se a acusada era uma bruxa. Abaixo, iremos elencar e comentar alguns dos indícios e provas, descritas no manual, que se estaria diante de uma feiticeira.

Segundo o Malleus Maleficarum, chamado de "O Martelo das Feiticeiras" em português, as bruxas costumavam operar seus feitiços através de poções e amuletos. Qualquer coisa poderia ser tomada como amuleto num julgamento, desde algum tipo de joia até a presença de pedras ou determinadas plantas das quais se acreditava extrair poderes mágicos. Observe-se que, no entanto, toda crença possui objetos que acabam ganhando algum poder de culto. Na idade média, as "relíquias" dos santos eram vendidas a bom preço por alguns tratantes e mesmo por sacerdotes. Diz-se que foram vendidos tantos "pedaços da cruz de Cristo" que daria para ter crucificado toda população romana.

Sobre as poções, acreditava-se que eram manipuladas para matar as pessoas ou as deixaria sob o domínio da feiticeira. Isto tinha uma relação direta com as mulheres que trabalhavam com plantas medicinais e seus chás.  Foi uma forma de retirar a mulher deste campo de conhecimento. Ainda no campo do conhecimento, as mulheres parteiras foram intensamente combatidas pela Igreja, sob a acusação de bruxaria e de oferecerem as crianças, ainda não batizadas, a satã.

Outra forma de se lançar o feitiço sobre outrem era através do olhar da bruxa. Ainda hoje, na Europa e suas colônias, acredita-se no "mau olhado". Uma prova muito subjetiva para se incriminar alguém. Qualquer pessoa que ficasse doente numa aldeia poderia estar sob a influência de um "mau olhado".

Todo ritual de adivinhação era considerado bruxaria. Tais como: necromancia, cartomancia, geomancia, hidromancia, entre outros. Ainda que fossem utilizados para alcançar a cura de algum enfermo. Estavam terminantemente vedados aos cristãos. Quem o praticasse dificilmente se livraria da acusação de feitiçaria. Assim, também, as práticas de observação do tempo, dos astros e das estações. Acredita-se, que na história da humanidade as mulheres tenham sido as primeiras a entender as correlações das estações e outros ciclos da natureza porque faziam analogia com os ciclos do seu próprio corpo.

As bruxas, por conta do pacto com o diabo, teriam a possibilidade de influenciar nos sentimentos e na imaginação dos homens. Poderiam tornar um homem perdidamente apaixonado ou, ao contrário, com incontrolável ódio. No filme "O nome da Rosa", houve o exemplo da jovem camponesa pobre que se infiltrava num convento para fazer sexo com monges em troca de alimentos e foi condenada à fogueira. A questão não foi entendida como a exploração sexual permitida pela miséria, mas que a jovem teria enfeitiçado os padres.

O adoecimento de pessoas era sempre um presságio de que poderia haver bruxaria ocorrendo numa comunidade, Ficou famoso o caso ocorrido numa comunidade puritana dos Estado Unidos, em 1692, que originou o filma "As Bruxas de Salém", quando várias jovens apresentaram estranhos sintomas de agulhadas pelo corpo e dormência dos membros. Sem haver uma explicação, veio à baila o discurso de bruxaria e várias pessoas daquele círculo acabaram sendo queimadas. Mais tarde, descobriu-se que o pão de centeio, usado na alimentação daquelas comunidades, pode estar contaminado com uma espécie de fungo que gera uma doença chamada "ergotismo", que causa aqueles sintomas.

Por último, acreditava-se que as bruxas tinham o poder de atuar na percepção dos homens fazendo com que eles tivessem ilusões e vissem coisas que na realidade não existiam. Neste sentido, havia acusações de que as bruxas poderiam transformar as pessoas em  animais. Desta forma, o consumo de bebidas alcoólicas ou de chás que pudessem gerar alucinações poderiam acabar como argumentos contra uma pessoa acusada de bruxaria.

Abaixo, deixamos um vídeo bem humorado do grupo "Monty Python", retirado do filme "Em Busca do Cálice Sagrado", onde simulam o julgamento de uma bruxa.




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O desmonte da educação ! Os professores precisam aprender a se organizar politicamente com os evangélicos.



Muitas lideranças religiosas evangélicas têm participado da onda de ataques contra a educação e o magistério. Estão divulgando e defendendo que a atuação dos professores seja limitada em sala de aula. Um bom número deles apoia e fez parte da gestação da proposta da "escola sem partido". E muitos estão colocando a família dos alunos em prevenção contra o profissional do ensino, que está na escola para preparar seus filhos intelectualmente. Entendem, ainda, que vários temas devem ser vedados aos professores e tratados exclusivamente dentro do núcleo familiar. Com isto, muitos alunos também acabam se voltando contra e desafiando os seus mestres no ambiente escolar.

Os setores evangélicos estão conseguindo provocar este desconforto, no que tange à educação, porque conseguiram arregimentar grande força política. Hoje, a chamada "bancada cristã" é uma das maiores no Congresso. Contudo, nem sempre foi assim. Se voltarmos uns 50 anos no passado, os pastores das múltiplas correntes protestantes não  gozavam dessa força dentro da sociedade. Apenas no âmbito circunspecto às suas comunidades de fiéis. Com o passar do tempo, conseguiram um crescimento exponencial da sua influência política. Este modelo de expansão e consolidação da influência, que ocorreu entre evangélicos, deveria ser observado, estudado e aplicado pela categoria dos profissionais da educação em prol de sua causa; ou seja, os professores podem aprender algo com os evangélicos.

Hoje, as diversas denominações, juntas, dominam amplamente as ondas de rádio AM e FM. Possuem o segundo maior canal de televisão do país e vários horários em outras emissoras.  Já estão editando jornais e revistas que ocupam espaço nas bancas. Fundaram partidos políticos. Ganharam eleições importantes como a da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e, no Congresso Nacional, possuem uma das maiores e mais atuantes bancadas. Porém, voltando cinco décadas atrás, ainda não possuíam esta enorme máquina de pressão política. A única coisa, mas não menos importante, que possuíam era uma grande capilaridade no território nacional. Havia ao menos uma igreja evangélica em cada pequena cidade do interior e em cada bairro pobre dos subúrbios das grandes cidades. E esta capilaridade, os professores também possuem atualmente.

Capilaridade é um termo originário da física, que na mecânica dos fluidos define a propriedade destes em se transportarem por tubos de diâmetros muito diminutos, podendo o fluxo seguir, inclusive, contra a força da gravidade. Na ciência política o termo capilaridade é utilizado para descrever algo que se encontra espalhado por todos os pontos do país, seja nas capitais ou nas cidades pequenas do interior. Assim como o poder evangélico teve início com uma igreja em cada rincão do país; hoje, existe, ao menos, uma escola pública em cada pequena cidade ou bairro pobre da nação.

Além da capilaridade, a causa da educação e de seus profissionais encontra amparo na sociedade. A força com que ocorreram os movimentos grevistas de professores, notadamente no Rio de Janeiro, entre 2014 e 2015, apontou o potencial que esta categoria teria, se organizada, para  uma forte atuação política. Acredito que seja a única categoria de servidores que consegue mobilizar forças populares em prol de sua agenda.

Acredito, até, que todo o ataque atual que a educação e a respectiva categoria vem sofrendo é por conta da força que  mostrou naquelas manifestações. A vida inteira as igrejas conviveram com a pregação do criacionismo e os professores ensinando a teoria da evolução; com o catecismo dos dogmas religiosos e a análise sociológica destas manifestações, nos colégios; com a visão do pecado, na igreja, e com a visão das construções culturais destes discursos, na escola. Então, não me parece que o problema seja a sala de aula. Essas questões, na verdade, são uma cortina de fumaça para atacar o poder político, em potencial, que o magistério demonstrou. Da mesma forma como estão, agora, atacando as organizações sindicais. Querer limitar a atuação do profissional da educação faz parte do xadrez político.

No último congresso da SBPC (Sociedade Brasileira pela Pesquisa Científica), foi ventilada a ideia de se criar um partido político da ciência, que teria por objeto criar uma bancada em defesa dos interesses da pesquisa científica. Acredito que muito mais eficaz seria um partido da educação ou dos professores. Afinal, a pesquisa, no Brasil, é feita majoritariamente nas universidade, quase todo pesquisador é professor. Então, um partido da educação englobaria  a causa da pesquisa. Para tal,  é preciso organização. Há que se criar uma organicidade entre todos os professores brasileiros, da cidade grande ao interior.

Algo neste sentido já foi feito. O movimento operário do ABC paulista, ao compreender que não bastava ser uma força de pressão através dos sindicatos, que precisava ter a sua representação política própria, criou o Partido dos Trabalhadores.  E, independente dos erros e desvios supostamente cometidos, conseguiram chegar às prefeituras, aos Estados e ao governo federal.

Está na hora de ser redigido "O Manisfesto do Partido Educacionista".

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