quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A incoerência dos youtubers conservadores: pedem estado mínimo e o fim dos impostos, mas sonham com a restauração da monarquia.




Há alguns youtubers ultraconservadores que usam seus vídeos para promover uma revolta contra o estado-de-bem-estar-social. Vivem hostilizando as políticas públicas que visam criar uma rede de proteção aos mais pobres. Pregam aquela velha cantilena de que o Estado não deve interferir em nada, sendo apenas um síndico que quase não é visto pelo condomínio, e a redução ou quase extinção dos impostos. Quando se fala em programas que visam distribuir renda e gerar maior justiça social, são energicamente contrários. Fazem a população pouco esclarecida acreditar que o dinheiro de programas fundamentais como o bolsa família, de casas populares e outros não sairia do bolso dos "cidadãos de bens", pelos impostos, se não houvesse tais projetos. Por outro lado, não veem mal algum em pagarmos pelos luxos de uma família real, seu séquito de nobres e pela restauração de mais um poder (o moderador).

Clamam pela monarquia como se ela fosse a solução para um Brasil em crise moral e política. Como se os monarcas fossem figuras impolutas e sacralizadas, sem qualquer desvio ético e moral. Ainda com o prejuízo de que não podem ser retirados de quatro em quatro anos pelas eleições.

Ao contrário, a pesquisa histórica vem demonstrando que a formação corrupta da política brasileira é uma herança que vem desde a colônia e o império com as trocas de favores e influência  entre uma nobreza cujos títulos (Barão e visconde), na maior parte das vezes, eram conseguidos através destas tratativas.Consta que D. João VI, ao chegar na colônia, distribuiu mais títulos de nobreza do que em 700 anos da monarquia portuguesa. O historiador Pedro Calmon afirma em sua obra que lá em Portugal eram necessários 500 anos para uma família requerer a condição de nobre, mas que no Brasil bastavam 500 contos.  Um ditado popular era corriqueiro naquela época:

"Quem furta pouco é ladrão, quem furta muito é barão e quem furta mais e esconde passa de barão a visconde"

Vários historiadores apontam que eram escandalosas as práticas do clientelismo e a mistura dos negócios públicos com os privados. Que não deviam em nada aos escândalos atuais de grande empresas junto à administração pública. O imperador D. Pedro I era chamado, ironicamente, pelo jornalista Borges da Fonseca de "caríssimo". Não empregava a palavra como uma reverência mas por entender que o monarca saía muito caro aos cofres públicos, como assevera o historiador Marcos Morel na obra "Corrupção, mostra a sua cara".

Estes são alguns fatos narrados pela pesquisa histórica, entre outros, como o tráfico de influência feito por Domitila de Castro e o chamado "bolsinho do imperador".

Há uma matéria que saiu no site do jornal "o globo", sobre a corrupção no império, que deixaremos em link ao final deste texto.

A "família real brasileira", a propósito, ainda hoje causa desfalque econômico na carteira dos brasileiros residentes na cidade de Petrópolis, através da cobrança da "taxa do príncipe", que incide sobre a compra e venda de todos os imóveis no centro histórico do município. O povo chama de "taxa do príncipe" a cobrança do laudêmio que é um instituto jurídico jurássico que nem deveria existir mais. Seu fundamento é que a cidade foi construída nas terras da fazenda do Córrego Seco, que pertencia aos Braganças. Vários projetos tentaram acabar com a cobrança do laudêmio na cidade mas foram barrados pelos interesses contrários. Na verdade, a terra foi indenizada algumas milhares de vezes através da instituição do laudêmio. E continuará sendo eternamente, pelo andar da carruagem!

Acontece que a família real não é pobre. Ainda que existisse previsão legal, deveria ter renunciado à cobrança em prol do desenvolvimentos da cidade e da população. E se não renunciou à época do império e das primeiras décadas da república, seria uma mostra de bom senso renunciar agora. Acontece que Petrópolis, no período imperial, era uma rica cidade com "ilustres" moradores possuidores de títulos de nobreza e que podiam pagar para morar perto do rei ! Ainda nas primeiras década da república, era uma cidade de veraneio que recebia a nata de uma emergente sociedade carioca. Hoje, a realidade da cidade mudou radicalmente. Não há mais barões ou muitos novos ricos circulando pela rua do imperador. A cidade foi se proletarizando com o passar do tempo, tendo suas encostas irregularmente ocupadas e se favelizando. Comércios tradicionais daqueles tempos áureos foram fechando as portas, como a Cada Itararé, o restaurante Falconi, O Fukas, o Patinhas, entre outros. Hoje, os arredores do centro da cidade é composto, na sua imensa maioria, por uma população muito pobre, que sofre muito sempre que tem de pagar a taxa do príncipe.

Concluindo, pedir a restauração da monarquia no Brasil vai de encontro, inclusive, com a tendência mundial dos países que ainda albergam esse regime. A importante historiadora britânica Anna Whitelock afirma que a monarquia britânica deverá deixar de existir dentro de duas décadas. Pois cada vez há um movimento maior de descontentes com os altos gastos para manter a rainha. Em 2014 apuraram um gasto de 125 milhões de reais. Desta forma, para a claudicante economia brasileira seria mais um gasto sem maior proveito para a população.

Matéria do Jornal O Globo sobre as origens coloniais e monárquicas da corrupção brasileira:
https://oglobo.globo.com/sociedade/historia/historiadores-resgatam-episodios-de-corrupcao-no-brasil-colonia-na-epoca-do-imperio-17410324 

Matéria da Revista Galileu com a historiadora Anna Whitelock sobre a monarquia inglesa:
http://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2016/04/monarquia-britanica-deve-deixar-de-existir-em-menos-de-15-anos-diz-historiadora.html

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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

"Não existe almoço grátis ! No Brasil, o que sempre existiu foi o "banquete grátis" !





Nos últimos tempos,. sempre que se fala em programas estatais inclusivos e na rede protetiva de assistência social, você deve ter escutado alguém proferindo a frase "não existe almoço grátis" para tentar deslegitimar projetos de cunho social. Repetem esta frase no sentido de que ou o receptor de benefício irá pagar por ele de alguma forma ou, asseveram ser mais provável, que a sociedade é que irá custear as "benesses" do seu próprio bolso. A naturalização desta ideia leva ao aumento do discurso "eu que tô pagando", seja pela bolsa alimentar concedida ao hipossuficiente, ao estudante da universidade pública ou à exposição no museu.

Historicamente, a frase "não existe almoço grátis" foi cunhada nos EUA, no século XIX, quando vários bares anunciavam fornecer almoço gratuito aos fregueses que consumissem bebidas. O truque dos donos de bar estava em oferecer pratos extremamente salgados, que levava os clientes a consumirem ainda mais cerveja. Desta forma, na verdade, a comida nunca saiu de graça. Posteriormente, esta frase ganhou status de princípio econômico na obra do economista Milton Friedman, que a utilizou como título de um de seus livros.

Quando parte considerável da elite financeira brasileira passa a criticar os programas sociais implantados na última década, utilizam deste recurso simplista para fazer a classe média acreditar  que está bancando a farra do almoço grátis. No caso brasileiro, a própria palavra "almoço" é inadequada, pois os projetos sociais ainda estiveram tão aquém da necessidade de desenvolvimento humano, que estavam mais para um lanche mirabel com groselha do que almoço. A realidade de boa parcela da população pobre do país é mais bem representada na frase "vendendo o almoço para pagar o jantar".

Por outro lado, na história econômica brasileira sempre ocorreram verdadeiros "banquetes" grátis oferecidos pelo povo às elites. A começar pelo nosso modelo agrário centrado no latifúndio que é herdeiro direto das sesmarias coloniais, quando a administração portuguesa concedia vastas áreas de terras a determinados colonos portugueses sem qualquer pagamento ou meritocracia e, ainda, concedendo títulos como de barão. Isto foi um enorme banquete grátis na terra brasilis. Não satisfeitos, além de ganhar muita terra desta forma ainda ganharam mão-de-obra a custo zero, através da escravização dos indígenas e, posteriormente, de milhares de africanos capturados e trazidos à força para trabalhar a terra sem nada receber destes senhores. Desta forma, foram algumas centenas de anos com muito banquete grátis. Com a abolição da escravatura, as péssimas condições de trabalho e baixíssimo salários continuaram a beneficiar aquelas mesmas elites coloniais que, agora, começam a diversificar os investimentos também no setor industrial nascente. A entrada em vigor das leis trabalhistas e previdenciárias tentaram corrigir alguns desses abusos econômicos. Contudo, até hoje vemos que a prática do "banquete" grátis para os ricos continua a todo vapor nas tratativas que os atores da corrupção realizam por debaixo dos panos e das mesas. 

Desta forma, pense criticamente quando ouvir a balela do "não existe almoço grátis" para desmerecer e atacar os programas sociais. Estes programas não existem para dar nada a ninguém, mas para corrigir as distorções acumuladas por séculos de "banquetes grátis".

No Brasil, nunca existiu almoço grátis para os pobres, somente banquetes grátis para os ricos.

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terça-feira, 10 de outubro de 2017

A heresia científica do doutor Pirula: "nunca li a obra de Marx, mas sei que o marxismo é impraticável por definição".



O youtuber conhecido como "doutor Pirula" possui um canal de vídeos na rede social youtube onde iniciou uma proposta de postagens científicas sobre biologia e paleontologia. Parece que o mesmo tirou a graduação em biologia e se especializou, obtendo o doutoramento, na área de paleontologia.

De fato, o canal possui, principalmente, no seu início, alguns bons vídeos sobre biologia e o estudo da vida no passado da Terra. Porém, como com todo "youtuber" a perspectiva de ganhos econômicos com o "adsense" promove uma corrida atrás de inscritos e visualizações que acabam por corromper a ideia original do canal. Este padrão é percebido em todos os canais monetizados. Os youtubers para aumentarem seus rendimentos acabam saindo da sua área para comentar qualquer "treta" de internet, ainda que seu conhecimento sobre o assunto seja obscuro e raso. Assim, passam a falar de política, futebol, religião, moralismo, doces e salgados ou qualquer outro assunto que esteja rendendo polêmica.

No caso do dr. Pirula, fazer polêmica com paleontologia é um tanto difícil. Não que elas não existam, como a discussão sobre uma datação aqui e a funcionalidade de um peça anatômica encontrada acolá. Mas é o tipo de polêmica circunspecta aos bancos acadêmicos, que não gera maior interesse no universo das redes sociais. E nem gera as chamadas "tretas" que trazem grande audiência. Jamais veremos vídeos com um debate polêmico entre o T. Rex e o Carcharodontossauro (dinossauro carnívoro que habitava a região do Estado do Maranhão).

Ocorre que o youtuber em questão prestou recentemente uma entrevista ao canal político conservador do MBL  (Movimento Brasil Livre) onde proferiu a seguinte pérola: 

"...nunca li a obra de Marx, mas sei que o marxismo é impraticável por definição."  

(O link para este vídeo se encontra ao final deste texto)

Gostaria de saber como o midiático doutor chegou a esta importante conclusão ! Teria sido pelo tarô, jogo de búzios, vidência, psicografia ou pela posição dos astros ?

Acredito que nem o astrólogo, dublê de filósofo, Olavo de Carvalho cometeria esta heresia acadêmica. Ele, ao menos, tenta convencer sua audiência de que pesquisou exaustivamente sobre os temas que emite opinião.

É preocupante o estado da pesquisa no Brasil quando os pós graduados emitem juízos de valor sobre temas acadêmicos sem ter conhecimento sedimentado de fato sobre o que estão falando. 

Provavelmente, esta "heresia acadêmica" dialoga  com a perspectiva de agradar o público do canal e ganhar inscritos.

Vídeo da entrevista do doutor Pirula no canal do MBL:
https://www.youtube.com/watch?v=ecOVrDtLDLw&t=318s 

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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Professores da UERJ numa "sinuca-de-bico".





No último dia 03 de outubro os professores da UERJ anunciaram mais uma greve por conta dos constantes atrasos de salários sofridos pelos docentes da instituição. Além dos atrasados de salários ainda têm que trabalhar num ambiente sem a devida infraestrutura e manutenção, como salas sem lâmpadas e a precaríssima condição de limpeza.

Neste cenário, a sociedade carioca e fluminense apoia totalmente o movimento dos professores da universidade em mais uma tentativa de conseguir ter sua situação econômica e de trabalho restabelecida. Afinal, quem é que consegue trabalhar decentemente sem condições mínimas de higiene e infraestrutura e, principalmente, ter tranquilidade para se deslocar da casa para o trabalho sem ter dinheiro e com as contas atrasadas. 

Assim, é legítimo que os funcionários e demais trabalhadores ligados à UERJ lancem mão da única arma que possuem que é o direito de greve. No entanto, as sucessivas greves parecem não sensibilizar o executivo estadual.

Acontece que a greve é uma ferramenta de pressão que tem a sua força sustentada sobre alguns pressupostos. Quando a greve ocorre na esfera privada a força do movimento grevista reside na paralisação dos meios de produção e consequente perda financeira do negócio. Afinal, os "patrões" não irão para a linha de produção. Quando a greve se dá na esfera do funcionalismo público será mais bem sucedida quando se trata de atividade estratégica para o governo, que não pode paralisar. E outro pressuposto para o sucesso grevista para o funcionalismo é o desgaste político que o executivo sofrerá com o movimento.

Ocorre que, joga contra os interesses dos docentes o fato do atual executivo do estado ser uma espécie de "governo zumbi". Trata-se de um governo que já morreu politicamente há bastante tempo. Sendo assim, não há como o movimento grevista dos professores causar estragos no capital político da atual administração. Para piorar, a educação e a ciência também não estão sendo tratadas pelos governos estadual e federal, que estão ocupados pelo mesmo partido, como algo importante e estratégico para a administração. Ao contrário, temos visto a execução de um dos maiores projetos de desmonte da educação pública superior no país em todos os tempos. Os enormes cortes de verbas nestas áreas são a prova do desmonte.

Neste contexto, a greve acaba não surtindo o efeito esperado. E ainda deve ser recebida com alegria por aqueles que desejam a precarização e privatização total do ensino superior. Pois a cada greve os telejornais fazem matérias alusivas às precárias condições na universidade. E não sejamos ingênuos em achar que a mídia está apoiando os professores. A constante veiculação de matérias mostrando as dificuldades enfrentadas pelos alunos são um incentivo para que parte do corpo discente faça transferência para faculdades privadas e que haja menor procura nos vestibulares. No final, esta "realidade" fabricada acabará legitimando o discurso  de que é melhor privatizar a universidade.

Esta é a grande sinuca-de-bico em que a Associação dos Docentes da UERJ se encontra. A greve é a única ferramenta que o trabalhador possui para reivindicar seus direitos, mas as sucessivas greves atuais provavelmente são até estimuladas por um governo que tem o projeto de desmontar a educação pública superior. 

Mesmo a via judicial é vista com suspeição nos dias atuais. A mobilização do judiciário por meio processual daria resultado prático ? Hoje, muitos juristas têm analisado e denunciado que parte do poder judiciário vem atuando de forma política e, talvez, a serviço do projeto político ora instalado no executivo. Inclusive, o professor e notável processualista penal Afrânio da Silva Jardim, que é docente da UERJ, tem repetidamente analisado a politização na atuação do judiciário.e do Ministério Público. Desta forma, será que o nosso judiciário teria a mesma celeridade para obrigar o governo a pagar os salários dos professores do que teve para prender um reitor de universidade que acabou se suicidando por conta da opressão vexatória ?

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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Deputado Cabo Daciolo, em sessão na câmara, propõe intervenção militar e o fechamanto do Congresso. Por coerência, o nobre deputado deveria se exonerar do cargo.



O deputado federal Cabo Daciolo, em sessão plenária, fez mais um dos seus tradicionais discursos que misturam política com religião. Porém, neste discurso o deputado fez declarações pouco democráticas ao solicitar a intervenção das Forças Armadas e o fechamento do Congresso Nacional.

O deputado Daciolo é membro do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro. Foi uma figura que se destacou em movimentos realizados pelos bombeiros por melhorias de condições para a categoria ainda no governo Sérgio Cabral. Seu protagonismo naqueles movimentos valeu um convite do PSOL para se filiar ao partido e sair candidato nas eleições. Uma vez eleito, o deputado que é evangélico começou a adotar posições cada vez mais conservadoras, como se aproximar do também deputado Jair Bolsonaro, o que acarretou a sua expulsão do partido pelo qual se elegeu.

Uma das marcas e estratégia do deputado é dialogar de perto com a mentalidade conservadora que ganhou força no espectro político do país. Seus discursos são uma mistura de política com pregação religiosa fundamentalista. Neste mesmo discurso em que sugeriu o fechamento do congresso, narrou que homossexuais e corruptos não serão salvos.

O curioso nisto é que o deputado parece não perceber que, segundo sua tese, ele próprio não faz parte da solução, mas do problema do país. Ora, ao pedir o fechamento do Congresso está avaliando que a casa não acrescenta em nada. Logo, o seu próprio mandato não faz qualquer diferença, Se o deputado pensa desta forma, então, seria mais coerente que ele se exonerasse do cargo !

Contudo, já teve tempo que o deputado entendeu que poderia solucionar as mazelas do nosso combalido congresso. Certa vez, empreendeu uma caminhada em rodopio pelo prédio do congresso, lendo trechos bíblicos, para fazer uma espécie de "exorcismo" na casa. Agora, por outro lado, parece que o deputado, bombeiro e pastor entregou os pontos e jogou a toalha.

Vídeo do discurso do Deputado Cabo Daciolo:
https://www.youtube.com/watch?v=Xefg37pMiU8

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terça-feira, 19 de setembro de 2017

Olavo de Carvalho e a permanência messiânica no imaginário nacional.



Esta semana, uma das filhas do ideólogo de direita Olavo de Carvalho publicou uma carta aberta ao pai em que cita diversos problemas de convívio familiar entre pai e filhos. Até aí não há nada demais, pois somente prova que o sujeito é humano, com suas muitas falhas, erros e contradições. A única questão que se levanta, neste caso, é o fato do senhor Olavo ser um julgador draconiano da vida alheia, quando se arroga em detentor da verdade, da moral e dos bons costumes. Porém, o que mais parece interessante na carta, não são as questões familiares, mas a revelação de que o conhecido pensador e escritor conservador já tentou liderar grupos ideologicamente muito díspares entre si.

O próprio personagem já declarou que foi um militante comunista quando jovem, sendo membro do Partido Comunista Brasileiro entre 1966 e 1968. Hoje se coloca como anticomunista e assume um discurso conservador radical. No que tange à atividade intelectual e laboral, por muitos anos se dedicou aos mistérios da astrologia. Inclusive, colaborou em um curso de astrologia oferecido aos graduandos de psicologia na PUC-SP. Posteriormente, passou a  se dedicar à filosofia. Da mesma forma, no plano religioso fez uma migração do esoterismo para o catolicismo conservador. Contudo, a carta de sua filha nos surpreende com a revelação que o citado cidadão já empreendeu a fundação de um núcleo islâmico em sua casa, quando teria convertido, segundo a carta,  pessoas àquela matriz religiosa

Mudar é bom! Já dizia o cantor e poeta Raul Seixas que é preferível ser uma metamorfose ambulante. Porém, quando a mesma pessoa muda tantas vezes, em tantos assuntos,  para posições tão distantes umas das outras, começamos a desconfiar que há algo de atípico neste padrão. Primeiro, que denota uma grande instabilidade emocional e intelectual quando a mesma pessoa varia tanto as suas convicções. Segundo, que passa a impressão que o indivíduo que assim se comporta nunca se comprometeu verdadeiramente, em seu íntimo, com aqueles sistemas de crenças dos quais afirmava estar convicto. Corrobora o fato de que o escritor, em todas estas diferentes experiências que vivenciou, sempre buscou uma posição de destaque e liderança. Desta forma, parece-nos que tantas mudanças possam apontar para o uso do método de tentativa e erro. O que algumas pessoas sempre perseguem é a posição de liderar alguma coisa, sendo que as "convicções" são apenas instrumentos para se alcançar esta posição. Assim, a astrologia, a filosofia, o islã, o comunismo, o neoliberalismo, o esoterismo e o catolicismo conservador poderiam ser meramente os instrumentos para alcançar aquele objetivo. Finalmente, teria logrado êxito quando se investiu no personagem do religioso católico carola e ultraconservador, com um verniz filosófico e discurso inflamado contra os 'inimigos" da fé, da família e da propriedade.

Aliás, o discurso inflamado ou radical é característico de toda liderança do tipo messiânica. Seja radical na doçura ou na implacabilidade contra os inimigos que elege. Uma pessoa que apresenta um discurso temperado dificilmente consegue esta forma de protagonismo. Este padrão é reproduzido por boa parte dos seguidores. Alguns deles reproduzem automaticamente o padrão sem fazer um exame crítico, enquanto outros repetem a fórmula de forma calculada para tentar amealhar para si um pouco dos holofotes.

Pero Vaz de Caminha, em sua famosa carta, salientou a fertilidade do solo destas terras descobertas e apropriadas pelos lusitanos. Outra coisa que encontra terreno fértil, por aqui, são os discursos messiânicos. Um dos primeiros messianismos que ganhou vulto em nossas terras veio emprestado com os colonos portugueses, que foi o sebastianismo. Em Portugal havia a crença no retorno do Rei que morreu, sem deixar herdeiros, na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. No início do Brasil republicano, principalmente nas regiões interioranas e no agreste nordestino, acreditava-se na volta de Dom Sebastião, que iria restaurar a monarquia. O historiador Ronaldo Vainfas, na obra "A Heresia dos Índios", narra a existência de movimentos messiânicos entre os índios durante o período colonial. Destaca que alguns desses movimentos surgiram como forma de resistência contra a desconstrução cultural que sofriam por meio da catequese jesuíta.

No reinado de Dom Pedro II, um grupo de colonos alemães, sediados em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, iniciaram um movimento messiânico chamado pelos opositores de muckers, que no idioma alemão significa "falsos santos". Vários colonos iniciaram uma comunidade de viés messiânico em torno da liderança de uma vidente chamada Jacobina Maurer. A "revolta dos muckers" é pouco estudada por nossa historiografia, porém foi o primeiro fenômeno deste tipo de relevância no cenário nacional. O governo enviou o exército para combatê-los e desmobilizar a comunidade. Como haviam combatentes experientes entre os muckers, que inclusive lutaram pelo exército na guerra do Paraguai, as forças imperiais encontraram feroz resistência e sofreram algumas derrotas antes de alcançar o objetivo com a morte de Jacobina.

Posteriormente, durante a república velha, temos a ocorrência dos três movimentos messiânicos mais conhecidos de nossa história, que são a guerra de Canudos, a guerra do contestado e a sedição de Juazeiro.

A "guerra do contestado" ocorreu nas terras fronteiriças entre os estados do Paraná e de Santa Catarina. Teve como combustível o desalojamento de inúmeras famílias de camponesas por conta da construção da ferrovia pela empresa Brazil Railway Company, do investidor americano Percival Farquhar. As famílias que perderam suas terras se organizaram em torno das figuras de monges que pregavam na região e passaram enfrentar as tropas do governo acreditando que se tratava de uma guerra santa. Em outra região, no sertão baiano, ocorreu a "guerra de canudos", empreendida por camponeses sem terra e miseráveis que se organizaram na cidadela de Canudos em torno da liderança do pregador e opositor da república Antônio Conselheiro. A sedição de Juazeiro (Ceará) se dá pelo embate de tropas do governo federal contra as forças sob a liderança messiânica do Padre Cícero Romão Batista.

Os governos da velha república combatiam estes movimentos sob a alegação de que se tratavam de núcleos monarquistas sediados no interior do território nacional. O único destes movimentos que conseguiu êxito em resistir aos ataques das tropas federais foi aquele de Juazeiro. A figura de Padre Cícero conseguiu amalgamar vários atores a seu favor, desde os fiéis e grande número de romeiros até os cangaceiros e boa parte da elite local composta pelos coronéis (donos de terras).  A Igreja destituiu o padre de seus afazeres eclesiásticos, porém Cícero continuou figura importante na fé e nos arranjos políticos da região até a sua morte.

Padre Cícero teve tanta penetração no imaginário popular do nordeste, que influenciou a criação de outros movimentos messiânicos pela região. Alguns beatos de Juazeiro saíram pregando pelos sertões e fundaram novas comunidades messiânicas. Assim foi o nascimento das comunidades do Caldeirão dos Jesuítas e de Pau-de-colher. Ambas foram atacadas e destruídas por tropas federais já no período do governo Vargas. Nesta época, o discurso legitimador para o ataque contra as comunidades não foi mais aquele que as qualificavam como núcleos monarquistas contrários à República. Agora, o inimigo da vez era outro. A justificativa foi de que se tratavam de enclaves comunistas nos sertões nordestinos.

Até os dias atuais o brasileiro possui uma forte tendência a buscar soluções messiânicas para suas questões. A política nacional, por exemplo, está cheia de exemplos de vultos e lideranças que surgem por conta destas mistificações em torno de uma pessoa. A forte tendência de voto em Bolsonaro atesta esse padrão. A maioria de seus eleitores não sabem bem quais são suas propostas de governo e o que ele já fez durante tantos anos na vida pública, porém ele merece o voto por conta de supostamente reunir condições morais e ser um "mito", como dizem seus seguidores.

No outro lado do espectro político também ocorre o voto pelo messianismo político. O presidente Lula foi beneficiado por esta tendência. A história do retirante pobre que vira presidente mobilizou milhões de votos. Seria o novo "pai dos pobres", como outrora foi Getúlio Vargas. Esse é o fator que explica o porquê da população brasileira ora votar num projeto como o do Partido dos Trabalhadores ora apoiar projeto totalmente oposto como o de Bolsonaro. Deve-se pelo fato de que não se vota no projeto de país, mas apenas no simbolismo dos homens que se apresentam com aquela aura de salvador da pátria. Assim, quando se desconstrói a imagem de um deles, qualquer outro pode tomar o lugar, ainda que as propostas sejam diametralmente opostas.

Concluindo, pessoas como o escritor Olavo de Carvalho entendem como funciona este imaginário e surfam na onda.

A carta pública escrita pela filha de Olavo de Carvalho:
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/em-carta-aberta-devastadora-filha-de-olavo-de-carvalho-acusa-o-pai-de-colocar-arma-na-cabeca-dos-seus-filhos/

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Professor Pondé afirma que maioria dos artistas é de esquerda e tenta explicar o porquê do fenômeno. Só que não !





O youtube proporcionou a possibilidade de várias pessoas se sentirem como que naqueles programas matutinos ou vespertinos da televisão, como da Fátima Bernardes ou da Sônia Abrão, que se propõem a falar da mais variada gama de assuntos, mesmo que o resultado seja desastroso. Aqueles que possuem uma titulação acadêmica, tentam se valer dela para produzir uma "carteirada argumentativa". Outros, ainda, interferem nos elementos visuais para imprimir na audiência um suposto ar de intelectualidade, como falar entre dois ou três goles de vinho e algumas pitadas em um cachimbo inglês.

O professor de filosofia Luiz Felipe Pondé, em vídeo postado em seu canal no youtube, faz a afirmação de que a maioria da classe artística se identifica com o espectro político de esquerda e tenta promover um tipo de análise das razões que levaram a esta configuração.

No entanto, antes mesmo de passar para a argumentação do midiático professor, é preciso verificar a própria afirmação realizada de que a maioria dos artistas é de esquerda, que nos parece despropositada.

Ora, venhamos e convenhamos que artistas, como qualquer outra pessoa, podem se encontrar em diferentes posições dentro do eixo político que compreende desde os extremos (extrema esquerda e extrema direita) até as posições centrais (centro propriamente dito, centro-esquerda e centro-direita). Parece-me falacioso e açodado afirmar que a maioria deles está numa ou noutra posição. Para isso, seria necessário uma pesquisa muito profunda com os mais variados segmentos que podem ser entendidos como classe artística: cantores (famosos e os sem mídia), atores (renomados e dos pequenos teatros e grupos de rua), circenses, artistas plásticos de todas as técnicas, arquitetos,  poetas, entre inúmeros outros.

Na verdade, como acontece com a maioria das pessoas, entre os artistas o que aparenta é que a maioria, no que tange à política, está mais para ocupar o centro, mas com um movimento pendular que ora se inclina mais para a direita e ora mais para a esquerda, ao sabor das mudanças conjunturais históricas, econômicas e sociais.

Uma boa forma de se determinar que a afirmação "a maioria dos artistas é de esquerda" trata-se de um falso pressuposto é olhar para os dois extremos (extrema esquerda e direita), onde a posição fica muito mais evidenciada. Tente, o leitor, fazer um exercício mental e se lembrar quantos artistas aparecem realizando um discurso de extrema esquerda. Há muitos artistas por aí falando em uma revolução proletária pelas armas, como na Rússia de 1917 ? Será que alguém lembra de pelo menos um artista com este discurso ? Por outro lado, temos visto um grande número de artistas assumindo os discursos de extrema direita atualmente. Temos vários exemplos defendendo intervenção ou golpe militar. Nesses dias, um famoso cantor sertanejo "lecionou" que não existiu golpe militar no país, mas um "militarismo vigiado". Outro cantor sertanejo acaba de manifestar apoio à Bolsonaro na presidência. Alguns casos, entre tantos outros.

Assim, o vídeo já tem o seu objeto de análise viciado, sendo notoriamente um falso pressuposto.

Contudo, tudo que está ruim pode ficar muito pior ou, como diria a minha avó, a emenda foi pior que o soneto. A tentativa de explicação foi ainda mais desastrosa.

Um dos principais argumentos usado pelo autor do vídeo foi o de que artistas são de esquerda por conta de viveram de editais e financiamento público. Assim, o suposto "pensador" reduz o pensamento alheio a questões utilitaristas e de puro oportunismo. Numa abordagem psicanalítica, poderíamos suscitar a possibilidade de uma transferência ? 

Primeiro, que se o artista tivesse que se declarar de esquerda para receber financiamento público estaria quebrado, pois na maior parte do tempo o país esteve sob governos de direita. Segundo, que não é verdade que o estado brasileiro seja um mega financiador das artes. Há muitos outros países capitalistas onde se investe mais dinheiro público que no Brasil, até como estratégia geopolítica. Ocorre que no Brasil há esta falsa percepção de que o governo investe muito pelo fato de que o particular praticamente não investe nada. E isto ocorre não é unicamente por falta de interesse do particular, como sugere o autor do vídeo, mas pelo fato de não existir mercado consumidor interno que garanta retorno ao investimento. Se a maioria da população está vendendo o almoço para comprar o jantar, como irão gastar em apresentações artísticas ?  Neste caso, pessoas que defendem políticas neoliberais e que se colocam contra políticas de reparação da desigualdade social estão corroborando para que arte e cultura tenham pouco atrativo para a iniciativa privada.

Desta forma, o vídeo parece ter mais um viés psicanalítico do que uma discussão séria. Transmite mais uma dificuldade do autor em dialogar com aqueles que pensam diferente. Por isso, cria o espantalho de que são a maioria (já fez um vídeo em que os professores tb são esquerdistas, embora eu conheça professores de todas as opiniões políticas) e reduz a ideologia alheia em oportunismo e utilitarismo.

Vídeo sobre a maioria dos artistas de esquerda:
https://www.youtube.com/watch?v=4p8rkogL7hA&t=198s 

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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O limite do "politicamente incorreto" na mente média conservadora é o da conveniência.





O "politicamente correto" é uma expressão cunhada para conceituar o cuidado que se deve ter com a linguagem e outras formas de expressão para que não se ofenda ou marginalize determinados grupos de pessoas. Porém , no Brasil, já faz um tempo que a moda entre os conservadores, notadamente os mais jovens, é o sentido oposto; ou seja, ser "politicamente incorreto".

Essa jovem galera conservadora diz ser contra o "mimimi" e a "vitimização". Que no humor vale tudo, senão perde a graça, podendo fazer piada com gay, etnias, regionalidade e etc. Adoram um discurso "descolado", com muitas expressões chulas e o uso carregado de calão. O "politicamente incorreto" também se opõem a discursos de reparação de injustiças sociais. Cada um que corra atrás do seu prejuízo, pois o resto é pura "vitimização".

No rastro desta onda surgiram coleções de livros e autores do 'politicamente incorreto". Tem politicamente incorreto para história, música, política, sexo e sabe-se Deus mais o quê !  Algumas dessas obras lançam revisões sobre conteúdos escolares que não guardam correspondência com a produção acadêmica. Tentam colocar o professor de história como mentiroso e doutrinador.  

Porém, quando um museu resolve fazer uma exposição de arte com conteúdo crítico e que causa incômodo, essa mesma "galera descolada" muda radicalmente de um polo ao outro. Rapidamente assumem posição na trincheira "politicamente correta". E passam a utilizar de toda a vitimização e "mimimi" para dizer que a obra de arte é um atentado contra a tradicional família canarinho.

O mesmo pessoal que adora discursar com muitos palavrões e expressões pouco civilizadas passam a se escandalizar com a palavra inglesa "fuck" escrita em algum lugar da mostra artística.

Neste momento, percebemos que o politicamente incorreto não é um conceito ou princípio. É tão somente um artifício retórico cujo uso está unicamente adstrito à conveniência.

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terça-feira, 12 de setembro de 2017

Um país onde todos pensam que são técnicos de futebol e professores de história.





Sobre o Brasil, é comum se dizer que é um país com mais de 200 milhões de técnicos de futebol. Por isso, quão dura é a vida de treinador de time de futebol. Provavelmente, por isso há tantas demissões destes pressionados profissionais em cada certame. Cada torcedor tem certeza absoluta que sabe a melhor opção de escalação e esquema tático para seu time do coração, ainda que não viva o dia-a-dia do elenco como acontece com o profissional pago para isso.

De uns anos para cá, boa parte dos brasileiros também descobriu uma segunda profissão inata, que é a de professor de história !  Há inúmeras pessoas afirmando os mais diversos absurdos, sobre uma variedade de temas históricos, de cima de sua vasta experiência como aluno pouco atento às aulas no colegial.

No youtube, então, cresce a cada dia o número de "especialistas de plantão" sobre a disciplina iniciada por Heródoto no mundo grego clássico. Tem youtuber roqueiro ultraconservador que se acha professor de história, tem astrólogo metido a filósofo e que dá pitacos sobre história, tem professora de educação física que pensa saber mais de história do que os colegas da área, tem supostos condes e viscondes que também o fazem, jornalistas e até ator pornô querendo posar de historiador!

Essa gente vai espalhando desinformação sobre os conteúdos de história. Ora afirmam que não houve o tribunal do santo ofício (inquisição) ora que não passamos por um regime militar ditatorial no Brasil. Tudo de acordo com suas conveniências ideológicas e longe do rigor acadêmico.

O "professor" do momento é o cantor Zézé di Camargo, que em entrevista ao canal da Leda Nagle, no youtube, afirmou que não houve ditadura militar no Brasil. Segundo o cantor e dublê de historiador o que tivemos foi um "militarismo vigiado".

Tentei rapidamente achar no google se mais alguém usa essa expressão "militarismo vigiado". Confesso que na rápida busca só achei links para a entrevista do próprio "professor Zezé". Será que foi ele quem cunhou a expressão? Se foi, já pode lançar uma monografia defendendo um novo conceito  sobre este recorte histórico. 

Mas o que é um "militarismo vigiado"? Confesso que meus débeis neurônios não captaram a mensagem. Militarismo se refere aos militares, provavelmente no poder. Mas não é uma ditadura ! É vigiado ! O que é vigiado? Os militares vigiando a tudo e todos? E não é ditadura? Ou os militares que são vigiados? Talvez por uma potência imperialista fiadora do golpe ? Então, os militares teriam sido uma espécie de "laranjas" no governo. Aí faz um pouco mais de sentido. Quem sabe o "professor" Zezé lance uma revisão completa da história do Brasil !

Seria muito legal se vivêssemos num país que tivesse, realmente, 200 milhões de professores de história ! Porém, o que se tem é todo tipo de doido, ignorante na matéria e extremista querendo competir pelo espaço do professor.

Entrevista do "professor" Zezé à jornalista Leda Nagle:
https://www.youtube.com/watch?v=pHXAgD8_C0g&t=602s

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A exposição lgbt censurada, Leda e o Cisne.





No que tange à denúncia que na exposição Queermuseu, no Rio Grande do Sul, havia zoofilia, devemos lembrar que quadros e esculturas com homens e animais em ato sexual existem nos diversos estágios e períodos da história da arte.

Uma destas representações que mais foi executada por artistas renomados foi aquela intitulada "Leda e o Cisne", que representa o ato sexual entre uma mulher e um cisne. Tem por influência a mitologia grega, quando conta que Zeus se disfarçou de cisne para para seduzir e fazer filhos com com a rainha de Esparta (Leda).

Esta cena mitológica foi representada em obras de diversos artistas famosos. Entre eles, Leonaro Da Vinci. 

Se Leonardo trabalhasse no Brasil atual, correria o risco de ter seu ateliê fechado por apologia à zoofilia.

A instituição financeira privada que estava apoiando a exposição resolveu encerrar prontamente o projeto assim que grupos de extrema direita iniciaram protestos contrários à instalação. Isso demonstra o quanto é complicado deixar a educação e a cultura nas mãos da iniciativa que é orientada pelo lucro. A cultura ficará ao sabor das pressões do mercado.

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terça-feira, 29 de agosto de 2017

Discursos extremistas aumentam a tensão social e contribuem para os assassinatos de policiais.





O Rio de Janeiro alcançou o número absurdo de cem policiais assassinados durante o ano de 2017. Como ainda falta mais de um trimestre para o encerramento do ano, não sabemos a quanto este número chegará. A continuar desta forma, em breve haverá falta de candidatos para os concursos da polícia.

São estatísticas de uma guerra civil escamoteada pela mídia. A cidade sofre uma profunda divisão entre as comunidades do morro e a do asfalto. Os policiais entram com a função de reprimir e conter a violência gerada pela falta de interesse em investimentos sociais. Constitui uma luta da qual não se pode ganhar. Se o Estado (e parcela da sociedade) não tem interesse em educar, distribuir renda, garantir direitos, promover saúde, bem estar e vida digna, a atividade policial passa a ser como a de enxugar gelo.

Para piorar o quadro, os discursos extremistas que vêm ganhando força nas mídias e redes socais ajudam a tencionar ainda mais a questão. 

Quanto mais se reverbera que a solução é através da bala, que "bandido bom é bandido morto", que todo mundo deve andar armado pelas ruas e coisas do tipo, maior é a reação que estoura em cima dos agentes de segurança. 

Tenho ouvido e lido muita gente postando que a polícia tem que e serve para aterrorizar os bandidos. Corroborando com o discurso de que a polícia deve agir de uma forma nos bairros elitizados e com outra abordagem nas comunidades carentes.

E a maioria dos que repercutem essas falas são os mesmos que se colocam contrários aos investimentos sociais do governo. Contrários a programas sociais de distribuição de renda, de promoção do ensino superior, de distribuição de casas, entre outros. Desta forma, em oposição aos reais programas que podem gerar a melhora em nossos índices de desenvolvimento humano e desarmar a bomba-relógio da violência e criminalidade.

Para piorar, muitos dos próprios policiais absorvem e reproduzem este discurso. Inclusive, muitos são ligados a denominações religiosas que incorporam esta visão ultra conservadora e que reduz a questão da violência ao simplismo da 'luta do bem contra o mal". 

O horizonte é de tempestade e turbulência. Por ora, não há luz no fim do túnel !

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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Enquanto professores ganham pouco, há influenciadores digitais ganhando muito com a distorção dos conteúdos escolares.






O professor é um profissional que recebeu capacitação acadêmica para ensinar as disciplinas curriculares aos jovens estudantes. Muitos deles, além da graduação, se especializaram e continuam estudando e se atualizando por toda a vida. Sua competência vai do conhecimento da disciplina específica até às técnicas pedagógicas para melhor transmitir o conhecimento a um leque variado de alunos com suas especificidades.

Estudar o conteúdo programático específico da área, pesquisar na pós graduação, ter conhecimento pedagógico, conhecer a  psicologia e a filosofia da educação fazem parte do vasto cardápio de saberes que um professor precisa deter para possuir capacitação na atividade de lecionar.

Apesar de toda esta exigência na formação do professor, os salários nem de perto fazem jus a toda esta preparação. No Brasil, o professor estuda e se prepara muito para ganhar pouquíssimo em contrapartida. 

A falta de investimento no professor e na infraestrutura de ensino em geral é fator determinante para os maus resultados e para a baixa estima dos profissionais da educação.

No entanto, curiosamente, há alguns blogueiros e vlogueiros ganhando um bom dinheiro nas redes sociais através da promoção da distorção e falsificação de conceitos científicos e fatos históricos. 

Enquanto o salário do professor mal dá para suas contas pessoais e comprar livros e outros materiais necessários, há destes chamados "influenciadores digitais" que usam a grade escolar de forma distorcida para gerar conteúdos e, com isso, ganham muito dinheiro. 

As desinformações e falsificações mais comuns que são divulgadas por esses "milionários"do "adsense" nas redes versam, em regra, sobre 4 itens:

- Defesa de que o planeta Terra é plano;
- Que a Inquisição seria uma forma da igreja proteger o povo;
- Negação do holocausto na segunda guerra;
- Considerar o nazismo como uma vertente política de esquerda.

Geralmente, o pessoal que defende um desses também defende as outras três posições. Costumam abraçar logo o bloco completo de falsificações históricas. 

Esse tipo de desinformação também ajuda a criar um ambiente tencionado em sala de aula. Inclusive, alguns desses vlogueiros estimulam uma confrontação entre estudante e professor.

Assim, vemos algo muito surreal em nossa sociedade. Enquanto tem gente ganhando muito dinheiro distorcendo os conteúdos curriculares, por outro lado o professor ganha uma miséria defendendo esses mesmos conteúdos. 

Esta é mais uma contradição dos nossos tempos. Para ser melhor remunerado através dos conteúdos escolares é melhor ser um vlogueiro do que um professor preparado pela academia.

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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Dois grandes clubes cariocas uniram esforços na segunda guerra mundial.





Estamos nos aproximando de mais um clássico entre Fluminense e Vasco da Gama no Campeonato Brasileiro. Atualmente, encontro de duas grandes torcidas no Rio de Janeiro é sempre sinônimo de tensão e muita confusão. Os bons tempos de camaradagem e brincadeiras entre torcedores rivais já se vai ao longe. A violência de uma sociedade com imensas desigualdades sociais e frustrações foi levada para dentro do esporte. 

Mas nem sempre a tônica entre torcidas e clubes teve esse tom hostil de enfrentamento. Houve época em que ir ao Maracanã, às Laranjeiras ou a São Januário era um programa para toda a família. Homens de terno e chapéu acompanhados das esposas e filhos eram vistos nas arquibancadas a torcer por suas agremiações.

Neste sentido, é interessante resgatar a história da união de esforços entre os sócios do Clube de Regatas Vasco da Gama e do Fluminense Football Club em juntar recursos para comprar aviões para o treino dos pilotos da FEB, quando Getúlio Vargas anunciou que o Brasil entraria na segunda guerra contra as potências do eixo.

Os aviões foram entregues por ambas diretorias em evento ocorrido no campo de São Januário, onde o presidente Vargas tradicionalmente discursava ao povo.

Esta página curiosa da nossa história clubística é contada por historiadores do exército e dos dois clubes no vídeo abaixo:



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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A religião, o teatro, a filosofia e a ciência: quando o homem se distinguiu dos demais seres vivos.




Em essência, o homem moderno mobiliza sua vida em torno de buscas que também estão no horizonte das demais espécies. Resumidamente, podemos elencar a subsistência e a busca de prazer. É claro que com o nosso avanço técnico e cultural nossos objetos de subsistência e prazer se tornaram mais complexos e sofisticados que das outras espécies animais. Por exemplo,  quando vamos a um restaurante ainda há um viés de sobrevivência e subsistência na base deste comportamento. Porém, hoje conseguimos unir a subsistência ao prazer, como ocorre com a crescente onda da gastronomia gourmet. 

No entanto, não é a nossa capacidade técnica de transformação e utilização de ferramentas que conferiu à nossa espécie o salto evolutivo no planeta. Outros animais, como algumas espécies de símios, também conseguem produzir ferramentas. Há determinados macacos, no Brasil, que produzem ferramentas lascando pedras da mesma forma que o homem do paleolítico. Na África, outras espécies utilizam pequenos galhos de árvores como varetas para coletar formigas.

Assim, o que nos tornou protagonistas deste salto foi a capacidade que desenvolvemos de produzir reflexões sobre os fatos da vida e o mundo que nos rodeia. Posteriormente, esta habilidade conferiu um grau de excelência na produção dos meios de sobrevivência.

Com toda nossa capacidade tecnológica atual é difícil enxergar alguma proximidade entre o homem e outros animais. Mas no paleolítico, quando ainda éramos essencialmente coletores e caçadores, do ponto de vista técnico estávamos muito parecidos com as demais espécies de também coletores e caçadores. O que nos diferenciou foi um movimento de reflexão sobre os fatos da vida que buscava dar significado a tudo que rodeava e, assim, gerar conhecimento para imprimir uma ordem aos eventos naturais.

Do homem primitivo ao moderno já elaboramos quatro níveis de reflexão para o entendimento da natureza. São eles: o pensamento mítico ou religioso, o teatro (representando as artes),  a filosofia e a metodologia científica.

As interpretações mágicas e místicas constituíram a primeira forma de explicar o mundo. As diversas sociedades construíram explicações míticas para os mais diversos fatos. Mitos para o nascimento e a morte, para a caça e a agricultura, para o amor e a guerra, para os ciclos da natureza e para a origem de todos os elementos naturais e da humanidade. Conforme a multiplicidade de mitos conseguiam dialogar entre si, se estruturou sistemas de crenças mais complexos que levou à elaboração das religiões. Por isto, a antropologia considera que o pensamento religioso foi a ocorrência que distinguiu a espécie humana das outras; pois consistiu em nosso primeiro instrumental interpretativo para responder àquele movimento de reflexão sobre o mundo.

Depois da mitologia ou religião, o próximo paradigma mediador entre a percepção humana e os fatos da vida foram as diversas manifestações artísticas. Desde os primórdios da humanidade existem diversas experimentações e expressões estéticas. No início, tais expressões estavam muito ligadas, e mesmo instrumentalizadas, aos rituais místicos. As pinturas rupestres encontradas em diversas cavernas e paredes rochosas possuíam uma funcionalidade mística. Através daquelas pinturas acreditava-se  no maior sucesso da caçada vindoura. Acreditavam que a alma do animal se encontrava "capturada" pelo desenho na rocha. As danças e canções também estiveram, de início, atreladas aos êxtases religiosos. Por isso, muitos acreditam que a primeira manifestação artística a gerar maior potencial crítico na plateia tenha sido o teatro grego. Através da encenação do drama e da comédia os espectadores eram motivados e refletir sobre os diversos temas de sua existência.

O teatro foi tão importante para o fomento da capacidade crítica dos cidadãos, que muitos autores entendem que foi condição sine qua non (essencial) para o futuro nascimento da filosofia grega. O método filosófico consistiu no terceiro paradigma utilizado para a análise dos diversos elementos da vida humana e que propôs uma persecução racional, afastando abordagens místicas, na análise dos objetos em estudo.

O quarto e último paradigma interpretativo da realidade foi a ciência. O estabelecimento de novos parâmetros, através da metodologia científica, conferiu um novo salto para a compreensão dos fenômenos da mais variada ordem. Desde a inauguração da abordagem cartesiana, a metodologia evoluiu no sentido de fornecer, ao pesquisador, diversas técnicas e instrumentos para a realização da investigação científica. Hoje, nenhum trabalho realizado em âmbito universitário prescinde da metodologia científica.

É interessante observar que a criação de uma nova abordagem não invalidou ou extinguiu a anterior. Na atualidade, convivemos com estes quatro modelos de apreensão do mundo. A religião continua com  grande influência na conformação das sociedades. As artes na vanguarda de diversas discussões. A filosofia tem seu lugar acadêmico na discussão de elementos que não podem ser testados, segundo a exigência da marcha científica, como o amor, a paixão, o ódio, a ética, entre outros. E, finalmente, a ciência moderna que ocupa nossas universidades.

Muito provavelmente, outras abordagens surgirão futuramente. E, talvez, seja fundamental para aqueles momentos em que a sociedade parece padecer de certa estagnação.

Referência bibliográfica:
Obra: Mito e Realidade -  Autor: Mircea Eliade. -  Editora Perspectiva.

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