quinta-feira, 29 de junho de 2017

Menos educação e mais passaportes !





Na última terça-feira a Polícia Federal anunciou a suspensão da emissão de novos passaportes até o final do ano por motivo de problemas orçamentários.

Agora, tem sido veiculado em sites de notícias que o governo enviou para a Câmara dos Deputados um projeto para sanar o problema orçamentário da divisão de emissão de passaportes da Polícia Federal. 

O problema é que este projeto supostamente propõe retirar verbas da pasta da educação para suprir o rombo nas contas da Polícia Federal. Fala-se em 102 milhões de reais que seriam de projetos de alfabetização de jovens e adultos, da graduação e da pesquisa e de iniciativas da promoção dos direitos humanos a serem transferidos para normalizar a emissão dos passaportes.

A menos que o governo esteja com um audacioso projeto educacional de enviar a população para se alfabetizar em outros países, esta medida não parece das mais interessantes. E nem parece ser o motivo dos profissionais da educação ficarem felizes ao saber que o referido ministério teria tanto dinheiro que pode socorrer outras áreas de importância vital, como a do pessoal que deseja viajar para o exterior.

Com informação do portal da Revista Forum:

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Uma bibliografia do Terceiro Reich, segundo Richard J. Evans.




A Alemanha nazista é um dos recortes históricos sobre o qual mais foram escritos artigos e livros por pesquisadores da academia de história, ciências políticas, jornalistas e outros. Um levantamento realizado no ano 2000 pelo pesquisador Michael Ruck produziu uma lista que relacionou mais de 37 mil obras sobre a temática. Desta forma, nenhum estudioso do período consegue dominar todo o vasto material existente. Saliente-se que a partir da década de 90, com a queda da URSS, a pesquisa sobre o terceiro reich foi incrementada pela liberação de inúmeros documentos secretos que se encontravam nos arquivos do antigo bloco soviético. A visão sobre o holocausto judeu foi estendida para outros grupos, como homossexuais, pessoas tachadas como antissociais, deficientes, a presença de trabalho escravo, iluminando e trazendo uma gama de novos conhecimentos. O professor Richard J. Evans destaca o diário de Joseph Goebbels, o diário de Victor Klemperer e registros do gabinete de Heinrich Himmler como exemplos de novos documentos que se tornaram disponíveis a pouco tempo. Assim, a lista de 37 mil títulos vem se multiplicando a cada ano. As obras mais antigas sobre a Alemanha nazista se concentravam mais nas questões de política internacional, estrutura política e organização do reich e na estratégia militar. Os trabalhos atuais  abrangem a política externa, estratégia militar, economia, mudanças sociais, cultura e artes, a propaganda estatal, a questão da mulher e da família, dentre outros. Desta forma, considera-se que as obras que foram escritas a mais de 30 anos sobre o fenômeno nazista apresentam alguns pontos defasados e ultrapassados pelas novas fontes históricas disponíveis.

O professor Richard J. Evans lecionou história nas universidades de Columbia e Londres. Atualmente integra o departamento de história da Universidade de Cambridge. É considerado um dos principais especialistas da história alemã. Este estudioso é autor de uma das principais obras atuais  sobre aquele período. Trata-se da trilogia "Terceiro Reich", que pode ser encontrada em nova edição nas livrarias. Os três livros somam 2.784 páginas que têm sido considerados pela crítica como a "biografia" do nazismo. No início do primeiro livro desta série, "A chegada do Terceiro Reich", o professor Evans escreve um prefácio em que realiza uma análise das principais fontes escritas sobre o período. É estritamente por este prefácio que vamos relacionar as principais obras na visão do autor.

De início, elencamos os três livros que compõem a trilogia de Richard. J. Evans:
  • Evans, Richar J. A Chegada do Terceiro Reich. 3. ed. São Paulo: Planeta, 2016.
  • Evans, Richar J. O Terceiro Reich no Poder. 3. ed. São Paulo: Planeta, 2016.
  • Evans, Richar J. O Terceiro Reich em Guerra. 3. ed. São Paulo: Planeta, 2016.
Trata-se uma obra de fácil compreensão que pode ser manuseada facilmente pelo público leigo. Os três volumes  apresentam uma visão panorâmica sobre todo o fenômeno nazista, desde sua origem ainda no império bismarckiano, no século XIX, depois na primeira guerra mundial  e nos anos pós-guerra da República de Weimar. Posteriormente, narra e analisa a ascensão do partido nazista ao poder nos anos da grande depressão econômica mundial (1929 - 1933). Acompanha o desenvolvimento e consolidação do Terceiro Reich nos anos entre 1933 a 1939. E, por fim, a radicalização das políticas de conquista através da guerra, a repressão social e cultural, finalizando com a queda do regime.

Passaremos, agora, a elencar as obras e autores citados e comentados  pelo pesquisador acima mencionado.

- "Ascensão e Queda do Terceiro Reich" (4 volumes), de autoria do jornalista americano William L. Shirer. Voltada para o público leigo, é considerada um dos clássicos sobre o assunto. Foi duramente criticada pela academia de história como um relato grosseiro e lacunoso das ocorrências narradas.  Pode ser facilmente encontrado nos sebos.

- "The German Di Factorship" ( A ditadura alemã), pelo historiador Karl Dietrich Bracher. Constitui uma obra feita para dentro da academia, sendo de difícil compreensão pelo público leigo. Estuda a queda da República de Weimar e a tomada nazista do poder. Aborda a estrutura política do terceiro reich, política estrangeira, economia e sociedade, cultura, artes e o colapso do sistema nazista.

- "Hitler" (2 volumes), pelo historiador britânico Ian Kershaw. Obra concebida pela técnica de pesquisa denominada "biografia e contexto". Demonstrou como a ascensão e a queda do ditador estavam ligadas a fatores históricos mais amplos. Focaliza os assuntos mais próximos do fuhrer: política externa, guerra e raça.

- "The Third Reich: a new history", do historiador britânico Michael Burleigh.Enfatiza a violência do regime nazista, reafirmando a visão da Alemanha Nazista como uma ditadura totalitária. É muito criticado na academia em razão de produzir um julgamento moral dos fatos analisados. Tecnicamente, é considerado impróprio ao historiador a realização de julgamentos morais sobre os fatos pretéritos. O professor Evans lembra que o pensador Karl Marx observou que as pessoas fazem a sua história, mas não sob as condições de sua escolha ( como o contexto histórico em que vivem, a forma como pensam, os princípios e crenças que influenciam seus comportamentos). O novelista britânico L. P. Hartley produziu uma interessante frase neste sentido: "o passado é um país estrangeiro: as coisas são feitas de modo diferente lá".

- "Die Deutsche Katastrophe (A Catástrofe Alemã),  escrito em 1946 pelo historiador alemão Friedrich Meinecke (considerado um dos fundadores da historiografia moderna). Creditou a ascensão do terceiro reich à obsessão alemã pelo poder mundial no final do século XIX, começando com Bismarck e tornando-se mais intensa na época do Kaiser Guilherme II. Este autor viveu na Alemanha no período nazista sem, no entanto, aderir ao regime.

Richard J. Evans ainda cita as seguintes obras e autores:

- "Inside Nazi Germany",  por Detlev J. K. Peukert.
- " Main Kampf, por Adolph Hitler
- "Lingua Tertii Imperii ( A Linguagem do terceiro reich), por Victor Klemperer

Norberto Frei, Ludolf Herbst, Konrad Heiden, Ernst Fraenkel e Franz Neumann publicaram análises sobre o partido nazista.

Martin Broszat e Hans Mommsen também produziram estudos precursores sobre o terceiro reich.

Se você estuda este período, deixe suas dicas de bibliografias nos comentários a esta postagem!

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terça-feira, 27 de junho de 2017

Dicionários on line da Administração Pública Brasileira dos períodos Colonial e Imperial.



Se você estuda e pesquisa os recortes históricos do Brasil colônia ou império ou faz transcrições paleográficas de documentos destes períodos é importante que conheça o Dicionário da Administração Pública Brasileira destes dois recortes historiográficos. Trata-se de uma ferramenta disponível on line, pelo Arquivo Nacional e o Ministério da Justiça, que é importante aliada para que se entenda as diversas nomenclaturas, titulações e funções da burocracia colonial e imperial.

Imagine, por exemplo,  que ao ler um documento do período colonial se depare com a nomenclatura administrativa de "alcaide-mor". Valendo-se do Dicionário encontrará que sua função foi regulada pelas ordenações manuelinas e que tinha a prerrogativa de guarda das fortalezas e provimento de gente, armas e abastecimento para as mesmas.

Estes dois dicionários estão gratuitamente disponíveis nos endereços abaixo:

Dicionário da Administração Pública Brasileira do Período Colonial:

Dicionário da Administração Pública Brasileira do Período Imperial:

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segunda-feira, 26 de junho de 2017

O general e os divergentes: um país dividido em facções.


A série de filmes da franquia "Divergente" constitui uma ficção científica baseada na obra literária de escritora americana Verônica Roth. Conta as aventuras e tensões dos personagens que vivem num tempo pós apocalíptico na cidade de Chicago. Naquela realidade a sociedade é dividida em 5 facções ou grupos, que levam em conta a filiação, as características pessoais e a meritocracia de cada indivíduo. As pessoas que são consideradas inaptas para figurar em qualquer das cinco facções vivem à margem da sociedade, sendo considerados "sem facção". Por outro lado, aquelas pessoas que demonstram habilidades e qualidades que as credenciariam para mais de uma facção são consideradas um perigo para a estabilidade social. São denominados de "divergentes" e devem ser identificados e exterminados. Naquela sociedade, o "pensar fora da caixa" ou ser demasiadamente "crítico" é considerado um ato subversivo. O sistema de facções é mantido desde a refundação da cidade após a guerra. Não é do interesse da classe dirigente mudar o sistema, pois se acham adaptados e em posição privilegiada dentro daquela concepção social. Porém, nem tudo funciona como deveria. As classes dirigentes das diversas facções acabam entrando em conflitos e guerras entre si por conta da supremacia administrativa. O terceiro filme da trilogia é muito revelador quando ficamos sabendo que a cidade é vigiada por um grupo externo, e que foi este outro grupo que instituiu o sistema de facções em seu início. Na verdade, o sistema de facções funcionava como um controle que não deixava aquela sociedade se desenvolver em sua plenitude. A influência externa mantinha a cidade dividida e consequentemente estagnada.

Acontece que nem sempre a ficção cinematográfica está totalmente divorciada da realidade histórica. Muitas obras possuem inspiração em temas que ocorreram de fato. A promoção de divisões em uma sociedade por forças externas imperialistas,  por exemplo, se deu no continente africano quando do processo de colonização. Os países imperialistas, ao exercerem sua dominação e influência no continente, realizaram a partilha do continente em zonas que não levaram em consideração as diferenças étnicas dos diferentes povos autóctones que habitavam o continente. Desta forma, com a descolonização se deu o reconhecimento de países que abrigam, em seu território, grupos rivais com histórico de oposição e violência entre si. Isto acabou servindo às potências europeias ocidentais como álibi e como pretexto. Álibi em relação a sua atuação predatória naquela terra, pois a violência que eclodiu após a sua retirada acabou gerando uma ideia de que sua presença na região servia como importante agente de mediação e civilidade. E, por outro lado, pretexto para que continuasse exercendo sua influência mesmo após a independência dos estados africanos, que sentiram a necessidade da antiga metrópole como mediadora dos conflitos étnicos internos.

É curioso e vale destacar que o General de Brigada Eduardo Dias da Costa Villas Boas, que assumiu desde fevereiro de 2015 o comando do Exército Brasileiro, compareceu à Comissão de Defesa Nacional do Senado Federal, onde fez um discurso em que salientou que um dos problemas graves pelo qual passa o país é algo parecido com a divisão em facções do filme acima aludido. Segundo o general, o país encontra-se dividido ou fragmentado segundo uma lógica que ainda remete à guerra fria. E que, por isso, falta um projeto nacional em que toda  a nação esteja envolvida.  Salientou que também está faltando a presença de grandes pensadores nacionais que possam estabelecer as diretrizes deste projeto. Ainda se disse preocupado com projetos que estão sendo enviados ao congresso Nacional possibilitando venda de terras fronteiriças a estrangeiros e quanto à exploração dos recursos minerais pelas multinacionais.

O general acerta quanto à atual questão política no Brasil. Não existe mais espaço para o diálogo entre as diversas frentes partidárias e ideológicas. A nossa atual divisão entre direita e esquerda - coxinhas e mortadelas - saiu do plano das ideias para o ódio pessoal.  E o ataque a qualquer pessoa que defende políticas sociais, que são tachados de comunistas ou "esquerdopatas", remete, sim, a uma lógica do tempo em que o ocidente "caçava" comunistas durante a guerra fria. Porém, nossas divisões internas vão muito além desta descrita pelo comandante do exército. Temos a abissal divisão de classes que opõe dramaticamente pobres e classe média. A divisão étnica que se remete ao período escravista dos tempos coloniais e que ainda hoje se reflete em nossa sociedade. Nas últimas eleições vem se revelando uma divisão regional rancorosa entre o sudeste e o nordeste. O aumento exponencial da intolerância religiosa. E, até, entre motoristas e pedestres. Veja o caso do motorista que atropelou vários skatistas. Sem contar com casos ocorridos entre motoristas e ciclistas. Enfim, vivemos numa sociedade beligerante que toma qualquer motivo, desde os mais graves até os mais banais, para se dividir e se odiar.

A questão da unidade nacional é tema caro a todos os países. Tanto que no Brasil vários intérpretes de nossa sociedade preferiu enxergar uma nação harmoniosa, sem as tensões provenientes de sua história colonial e escravista. O caso clássico foi do sociólogo Gilberto Freyre em sua obra "Casa Grande e Senzala". Nesta, o autor entende que existe uma suposta "democracia racial" no país. E que os problemas advindos das diferenças de classes não têm relação direta com a discriminação racial. Vários outros escritores seguiram esta linha, preferindo não enxergar as tensões étnicas impressas em nossa sociedade. Posteriormente, uma nova safra de autores iria corrigir esta visão ufanista da democracia racial brasileira. Florestan Fernandes foi um dos nomes de peso que apontou a miopia em não enxergar o alto nível de preconceito inserido nas nossas relações sociais. Uma obra de referência sobre o tema foi o livro "Preto no Branco", escrito pelo brasilianista americano Thomas Skidmore. Outros, como o professor Darcy Ribeiro, denunciavam o racismo mas entendiam que a grande diversidade humana que formou o país seria a chave para a construção de uma sociedade mais evoluída que qualquer outra. Teríamos o condão de aproveitar as melhores características de cada grupamento para moldar um novo ser humano. Esta visão está longe de se cumprir.

A verdade é que nossas divisões estão asfixiando o potencial do país. Claro que a sociedade sempre estará fragmentada nos mais diversos grupos segundo diferentes tipos de afinidades. O problema é quando não existe mais a possibilidade de diálogo entre os diversos atores e grupos sociais.

Desta forma, seguindo a trama do filme citado, resta saber até que ponto nossa fragmentação aguda é unicamente resultado das contradições internas e até que ponto pode haver um estímulo externo para manter o país atrasado.

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domingo, 25 de junho de 2017

Quando o Estado, sem identidade e soberania, é uma ficção.


O monarca francês Luiz XIV, no século XVII, foi o autor da famosa frase que sintetiza o período absolutista: L'Etat  c'est moi" ( o Estado sou eu ). Talvez tenha sido o soberano que de forma mais aberta tratou o Estado como uma ficção jurídica e real. Afinal, não importava o povo ou as instituições do governo francês. O que importava era unicamente a sua vontade.

A expressão "ficção jurídica" é um conceito formulado pela ciência do direito. Temos uma ficção jurídica quando o universo jurídico realiza uma interpretação dos fatos diversa do que se vê na realidade. A atual discussão sobre a "pejotização" exemplifica bem esse tema. Passam a reconhecer o trabalhador como uma empresa individual. Contudo, na verdade é um trabalhador comum. O tratamento de empresa individual satisfaz o interesse econômico do mercado. O jurista alemão Rudolf Von Jhering definia a ficção jurídica como uma mentira técnica consagrada pela necessidade. 

Um país não deixa de constituir uma ficção jurídica. O que temos na prática são pessoas vivendo nas diversas áreas do planeta.  E por uma ficção jurídica se reconhece que uma determinada porção de terra, habitada por uma sociedade dotada de uma certa identidade cultural e que forma uma nação, com governo soberano, trata-se de uma pessoa jurídica de direito internacional.

No entanto, a atual situação da política brasileira nos remete a refletir se o Brasil não passa do plano da ficção em todos os sentidos. É de se ver que está muito difícil de encontrar os elementos formadores da identidade nacional no país. Só o futebol e a seleção não são o bastante. Vivemos numa sociedade fragmentada e partida em vários planos. A tentativa de se criar uma mentalidade nacionalista com a criação dos heróis da pátria, usando figuras como Caxias e outros, definitivamente não logrou êxito. 

E a nossa suposta soberania parece algo que se desfaz como bolha de sabão frente aos grandes interesses internacionais. É com extrema facilidade que grupos internacionais conseguem mudar os rumos do país. Além de conseguirem facilmente acesso às riquezas naturais dentro de nossos limites territoriais. O exemplo mais atual foi a pressão pelos poços petrolíferos do pré sal.

Irei postar a seguir um texto elaborado pelo economista e professor da FGV - Luiz Carlos Bresser-Pereira - que tangencia esta questão :


"Nação e vergonha.

Nunca a nação brasileira esteve tão mal quanto está hoje. Nada é mais importante para um povo do que se transformar em nação, ocupar um território, construir um Estado, e, assim, contar com uma instituição política para realizar seus objetivos de segurança, liberdade, bem-estar econômico, justiça social e proteção do ambiente. A nação é a sociedade política básica, e o Estado, seu instrumento de ação coletiva por excelência. Por isso os povos lutam tanto para formar seu estado-nação – a unidade político-territorial soberana constituída por uma nação, um território e um Estado.

Uma nação é forte ou fraca conforme seus membros partilhem de uma história e um destino comum, e conforme seja mais, ou menos, coesa e solidária. Contra a coesão e a solidariedade de cada nação agem forças internas – o conflito de classes que será tanto maior quanto for a desigualdade entre as famílias, – e forças externas: o poder imperial das nações mais fortes econômica e culturalmente, que buscam mantê-la subordinada, incapaz de competir na cena internacional. 

A última vez que a nação brasileira foi forte – solidária e independente – foi nos anos 1980 quando ocorreu a transição democrática, quando os brasileiros se uniram, comprometeram-se com a democracia e a diminuição das desigualdades, e aprovaram a Constituição de 1988. Nos anos seguintes o país avançou nesses dois pontos, mas o desenvolvimento econômico, que parecia garantido porque fora muito grande entre 1930 e 1980, deixou de acontecer. 


Entre 1930 e 1990 o Brasil foi governado por uma coalizão de classes desenvolvimentista e nacionalista formada por empresários, trabalhadores e a burocracia pública; desde 1990, está subordinada a uma coalizão liberal e dependente formada por capitalistas rentistas, financistas, classe média tradicional e interesses estrangeiros. 


Os governos liberais de Collor e de Cardoso instalaram no país o atual regime de política econômica liberal; os governos petistas de Lula e Dilma tentaram mudar este quadro, mas fracassaram; lograram apenas uma melhoria na distribuição de renda.

Em 1990, com a abertura comercial e a desmontagem do mecanismo que mantinha a taxa de câmbio competitiva, as empresas industriais deixaram de poder competir internacionalmente e desencadeou-se um processo de desindustrialização e baixo crescimento. Não bastasse essa nova dependência, depois de muitos anos de autonomia nacional, o sistema eleitoral proporcional de listas abertas encareceu brutalmente as campanhas políticas, e levou os políticos a mergulharem em um sistema político-empresarial de corrupção de grandes proporções. Para completar, dada a incompetência demonstrada pela presidente Dilma Rousseff e o autoritarismo das elites econômicas oligárquico-liberais, em 2016 um golpe de Estado feriu a democracia brasileira, ao mesmo tempo em que entregou o país a uma quadrilha encastelada no Palácio do Planalto.

Que dizem os brasileiros disso tudo? Estão envergonhados, profundamente envergonhados. Segundo pesquisa do Datafolha, 47% dos entrevistados têm mais vergonha do que orgulho de serem brasileiros. Houve um aumento brusco desse sentimento que, em dezembro passado, já atingia um número elevado, 28% dos brasileiros.

Nunca, repito, a nação brasileira esteve tão fraca e dividida; nunca o liberalismo e a dependência pesaram tanto quanto hoje; nunca tantos brasileiros foram desempregados; nunca estiveram tão sem perspectivas, tanto à direita quanto à esquerda. Nunca foi mais importante que repensemos nossa vida social, recuperemos nossa autonomia nacional, e construamos um projeto de nação independente, democrático, desenvolvimentista, social e ambiental."
Página do professor Bresser Pereira:
https://www.facebook.com/bresserpereira/

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quarta-feira, 21 de junho de 2017

Depois do sucesso da viagem de volta à URSS, os cientistas do túnel do tempo do Jaburu projetam visita presidencial à Ricardo Coração de Leão.






O atual governo brasileiro vem sofrendo abalos em sua imagem internacional pelo fato de nenhum chefe de estado importante desejar vir ao Brasil pós impeachment. Sequer o Papa Francisco, que também é chefe de estado (do Vaticano), arrumou um espaço em sua agenda para comparecer aos festejos da padroeira!

Mas o governo brasileiro com seu estafe de cientistas brilhantes resolveu o problema. O presidente entrará definitivamente na história como aquele que realizou as viagens mais fantásticas pelo mundo da história. As viagens de Gulliver ficarão completamente ultrapassadas após a agenda de visitas do planalto.

A visitação à antiga União Soviética foi um completo sucesso. Visto que o atual presidente russo sequer esteve com o presidente brasileiro, resta comprovada a eficácia da viagem no tempo. 

Agora, a próxima viagem agendada é para a Inglaterra, onde nossa representação irá se reunir com o Rei Ricardo Coração de Leão para ajustar uma possível participação brasileira nas cruzadas. Medida que poderá abrir espaço ao nosso país para participar do fabuloso corredor comercial entre ocidente e oriente que será aberto como consequência desta operação militar. Iremos enviar pau-brasil e receber especiarias !

O Ministro das Relações Exteriores é um grande entusiasta da ideia. Acredita que será uma oportunidade ímpar para derrotar os "bolivarianos" de Saladino !

Mas não é só no plano internacional que o atual governo irá aliar a pesquisa do túnel do tempo com os benefícios econômicos.

No plano interno novos projetos e obras ocorrerão neste sentido. 

Com as reformas da previdência e trabalhista abre-se a oportunidade para as obras de recuperação do Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, que dentro de pouco tempo estará apto a novamente receber os navios negreiros que trarão importante incremento de mão de obra ao agronegócio brasileiro !

Há um projeto, inclusive, de trazer para nossa época o famoso Comendador Joaquim José de Souza Breves, que é o maior conhecedor do tráfico negreiro no Brasil.

O cuidado especial que os cientistas que operam o túnel do tempo têm é para que a Princesa Isabel não venha para a nossa época. Seria uma saia justa para quem usava anágua e espartilho !

Obs: esta é uma obra de ficção muito próxima da realidade !

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terça-feira, 20 de junho de 2017

Site oficial coloca nota que o presidente está em visita à URSS !!! É urgente a volta da história como matéria obrigatória !!!






O atual presidente da República está desde a segunda-feira na Rússia para tentar minimizar os efeitos dos escândalos dos frigoríficos frente ao nosso maior comprador do produto no mundo.

Acontece que o site oficial do Palácio do Planalto informou, em nota, que o presidente foi para a "República Soviética da Rússia" !!! Este nome não existe mais desde que caiu o regime comunista em 1991. O nome correto atual é Federação Russa. A menos que nosso presidente tenha feito a viagem embarcado no Delorean voador do filme "de volta para o futuro". 

Talvez, isso explique várias políticas que o atual regime brasileiro vem adotando e que lembram muito as medidas dos tempos da guerra fria !

Isso também explica o porquê de muita gente no atual governo apoiar que as disciplinas de história e geografia não sejam mais obrigatórias. Assim, eles podem escrever as 'pataquadas" que desejarem !!!

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domingo, 18 de junho de 2017

Vida de gado beneficia a previdência privada.





Na última "marcha para Jesus" ocorrida em várias cidades do Brasil, milhares de fiéis das igrejas evangélicas lotaram as ruas sob a batuta dos seus pastores, apóstolos, bispos e congêneres. 

Nesta última marcha a fé em Jesus esteve ao lado da defesa das reformas trabalhista e da previdência. Embora não sejam do interesse da população acabou sendo defendida por todos já que aqueles que possuem uma linha direta com o "altíssimo" informaram ao povo da importância desta pauta.

Acontece que os empresários do ramo "gospel" já possuem um projeto de previdência privada para o universo cristão protestante. Vai ter o dízimo, a oferta e o desconto para a previdência evangélica. Afinal, ninguém vai ficar contando só com as orações para garantir a sua tranquilidade futura !

O gado vai na marcha feliz para o abate !

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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Projeto de Lei visa permitir que funcionários públicos estáveis possam ser demitidos.


A garantia da estabilidade para os funcionários públicos vem sendo atacada através do tempo. De início, várias carreiras deixaram de ser estatutárias e passaram a ser regradas pelo sistema da CLT. Depois, veio a aprovação da lei das terceirizações que permite a precarização de vários outros trabalhadores. Visto que o terceirizado acaba tendo menos garantias ainda que os celetistas. Porém, o que fazer com muitos servidores que entraram no serviço público pelo regime estatutário e já cumpriram seu estágio probatório? A solução para a relativização da estabilidade está sendo discutida no congresso nacional por um projeto de lei que, se aprovado, irá prever exames periódicos impostos aos funcionários. Aqueles que não conseguirem determinada pontuação poderão ser demitidos.

O citado projeto de lei é o de número 116/2017, que foi apresentado pela senadora Maria do Carmo Alves (DEM-SE). Este projeto prevê a possibilidade da demissão dos servidores públicos estáveis e que já passaram pelo estágio probatório. Serão realizadas avaliações de desempenho semestrais e aqueles funcionários que não conseguirem uma determinada média em 3 exames consecutivos ficam sujeitos à demissão.

Há a previsão de que o funcionário poderá recorrer administrativa e judicialmente. Mas da possibilidade de recurso a um julgamento realmente justo, independente e imparcial vai uma distância muito grande. A nossa justiça está sendo vista com muita desconfiança ultimamente.

A estabilidade do funcionalismo público está sendo esquartejada aos poucos.

Matéria do Correio Braziliense sobre este tema:
http://blogs.correiobraziliense.com.br/papodeconcurseiro/servidores-publicos-estaveis-podem-perder-cargo-mau-desempenho/ 

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quinta-feira, 15 de junho de 2017

A arqueologia urbana e o sítio de São João Marcos.

(ruínas da igreja matriz de São João Marcos)

Muitas pessoas visualizam o trabalho dos arqueólogos unicamente em paisagens isoladas ou hostis. Como os acampamentos que são realizados em regiões de selva ou nas areias desérticas. Contudo, a arqueologia também é realizada no meio urbano. Nas obras realizadas para a revitalização de espaços no centro da cidade do Rio de Janeiro, por conta dos jogos olímpicos, vimos intenso trabalho arqueológico em sítios que brotavam a todo instante. Bastava quebrar uma calçada ou tirar o asfalto de uma das ruas principais que se deparavam com os testemunhos físicos de outras épocas em que as pessoas habitavam e se relacionavam de forma peculiar no mesmo espaço.

O arqueólogo estadunidense Edward Staski definiu a arqueologia urbana como "o estudo das relações entre cultura material, comportamento humano e cognição num assentamento urbano". A interpretação dos vestígios arqueológicos urbanos são capazes de mostrar como o mesmo espaço foi utilizado nas diversas fazes daquele mesmo aglomerado urbano e como estas diversas épocas dialogam ente si na construção do que temos e vivemos agora.

No tocante à arqueologia urbana, ainda podemos acrescentar as palavras da arqueóloga, formada pela FURG, Maritza Dode: "Este tipo de Arqueologia é capaz de trazer à tona indícios da complexidade de construção de uma cidade, onde diferentes etnias, grupos socioeconômicos, políticos e religiosos, onde diferentes ideias e ideais conviveram ao longo do tempo. É, assim, capaz de despertar nos indivíduos que habitam a cidade uma reapropriação de sua própria história e de seu patrimônio, proporcionando uma nova relação com espaços cotidianos".

Contudo, nem sempre a arqueologia urbana se dá exatamente no meio urbano atual. Pode ocorrer de se realizar esta atividade sobre os vestígios de uma localidade urbana que foi abandonada ou, por outro motivo, demolida. Este é o caso do sítio arqueológico de São João Marcos, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Neste local houve um esforço do setor de arqueologia da Universidade Federal Rural do Estado do Rio de Janeiro (UFRRJ), com a parceria da empresa Light, para trazer do solo a história de uma importante cidade do Brasil império que foi destruída na década de 40.

São João Marcos foi uma cidade situada no "vale do café", entre Mangaratiba e Rio Claro. A riqueza de sua arquitetura colonial motivou que esta fosse a primeira cidade, no Brasil, tombada pelo patrimônio histórico. Além de ser rodeada por grandes fazendas de café, o centro urbano contava com uma fábrica de tecidos, teatro, cinema, clube, a igreja matriz e outra menor, comércio diverso, a casa do capitão-mor, o casario das ruas e vilas, praças, entre outros.

Por São João Marcos também passava a estrada imperial, que fazia parte da estrada real que ligava o Rio de Janeiro  às Minas Gerais, Por esse caminho escoava o ouro a caminho da metrópole portuguesa.


No município de São João Marcos ainda se encontrava a propriedade rural que era a sede do império cafeeiro do Comendador Joaquim José de Souza Breves. Era considerado o "rei do café" no período imperial e foi feito comendador da Imperial Ordem de Cristo. Foi um dos poucos grandes proprietários de terras daquele tempo que não desejou comprar o título de "barão". O comendador também era coronel da Guarda Nacional. No final do período cafeeiro tanto a família Breves como a cidade de São João Marcos entraram em relativa decadência.

Outra figura importante da história da cidade do Rio de Janeiro que tinha ligação com São João Marcos foi o prefeito Pereira Passos. Ele nasceu e viveu até os 14 anos na Fazenda do Bálsamo, que ficava naquele município. São João Marcos também serviu de pouso na viagem que D. Pedro I realizou até São Paulo, quando proclamou a independência às margens do rio Ipiranga. Diz-se que o imperador levou quatro cidadãos "marcocenses" para reforçar a sua guarda.

Na década de 40 havia uma grande crise de água no Rio de Janeiro, então capital da república. A solução encontrada pelo governo foi de aumentar o reservatório da barragem de Ribeirão das Lages. Isto implicou na inundação da cidade de São João Marcos que ficava próxima. Assim, a cidade foi destombada e seus cidadãos desapropriados para a construção do grande lago. O presidente Getúlio Vargas indenizou os moradores e mandou destruir toda a cidade a marretadas.

Ao final, houve um erro de cálculo e a quantidade de água do reservatório teve que ser menor do que a prevista. Com isto, a cidade não foi inundada mas permaneceu só os escombros. Todas as famílias tiveram que se mudar para cidades vizinhas.

Hoje, o sítio arqueológico se transformou em um museu aberto a visitações. Há uma cantina que serve pratos de um livro de receitas encontrado nas escavações. Vale a pena conferir!

Vídeo sobre o parque arqueológico de São João Marcos:
https://www.youtube.com/watch?v=2WbbQkjpUfw 

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quarta-feira, 14 de junho de 2017

A patrulha sobre os livros escolares e a grande queima de 1933.



Durante o regime nazista na Alemanha, o governo pretendeu realizar uma "limpeza" literária e intelectual. Agentes políticos do governo editaram "listas negras" contendo relações de livros, considerados inconvenientes, que não deveriam ser lidos. Este movimento se radicalizou até ocorrerem, em 10 de maio de 1933, grandes queimas de livros nas principais cidades universitárias alemãs. Este fato foi reproduzido no cinema pelo filme "A menina que roubava livros". Obras de vários autores reconhecidos internacionalmente viraram cinzas, tais como: Albert Einstein, Stefan Zweig, Heinrich e Thomas Mann, Sigmund Freud, Erich Kastner, Erich Maria Remarque e Ricarda Huch. A obra do Dr. Freud, que hoje é um dos pilares da psicologia moderna, chocava por conta de sua teoria sobre a sexualidade infantil.

Muitos anos depois, no Brasil atual, cresce um movimento de políticos conservadores e ligados a bancadas religiosas que se rogam no papel de censores dos livros didáticos distribuídos pelo Ministério da Educação. Desta forma, vai sendo construída nossa lista negra literária. A obra da vez trata-se de um livro de contos populares para crianças, o título da obra é "Enquanto o sono não vem", que tem a autoria de José Mauro Brant. O livro é um apanhado de contos de vários países e culturas.

Alguns professores esboçaram estranhamento em relação a um dos contos presentes no livro. Isto chegou a certos políticos que aproveitaram para fazer sua aparição através da censura moral do que propriamente pela atividade legislativa de apresentar projetos interessantes ao desenvolvimento da nação. Acontece que todo livro indicado pelo MEC passa pela análise de especialistas no assunto. São comissões de pedagogos e professores que avaliam se um material é de interesse pedagógico ou não. O livro em questão, por exemplo, foi aprovado pelo Centro de alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da UFMG. Que após a celeuma fez uma nova análise e reiterou seu parecer anterior. Entendemos que esse deve ser o trâmite correto. Se na ponta, os profissionais que vão trabalhar com a obra têm algum questionamento, deveria ficar exclusivamente por conta de profissionais capacitados do ramo da pedagogia o parecer sobre o aproveitamento ou recolhimento da obra.

O conto em questão apresenta o título de "A triste história de Eredegalda". Trata-se de uma narrativa em que um rei deseja se casar com a própria filha. Diante da recusa da filha, o rei manda que a prendam na torre sem o direito a beber água. Sob a angústia da sede intensa a moça acaba aquiescendo em relação ao casamento com o pai. Porém, neste instante o rei desiste e fez uma competição entre cavaleiros para entregar a mão da filha ao vencedor. O que não se realiza pois Eredegalda acaba morrendo.

Assim como aconteceu com Freud no início do século passado, temas relacionados à sexualidade ainda consistem tabus hoje em dia.

Curioso que esta temática do pai que deseja realizar algo contra um filho e que se arrepende no último momento me remeteu à história bíblica em que Deus pede que Abraão sacrifique o seu filho. Talvez, pela ótica dos nossos parlamentares, fosse o caso de proibir que menores de idade tenham acesso a bíblias e frequentem igrejas. Afinal, a Bíblia também apresenta um rol de histórias impactantes, onde temos pais contra filhos, filhos contra pais, irmão contra irmão, incesto, prostitutas, etc. Porém neste caso que envolve o livro sagrado, acredito que os políticos religiosos darão uma resposta muito acertada, que as histórias bíblicas necessitam de um tratamento hermenêutico, realizado pelo sacerdote, através do qual todos poderão se beneficiar das lições que delas são extraídas. Só que a miopia intelectual não permite que essas mesmas pessoas entendam que o mesmo processo se dá com os contos. Tais histórias deverão ser trabalhadas com os alunos através de um mediador, o pedagogo, que vai conduzir a uma leitura positiva destas diversas histórias.

Aliás, a principal função dos contos de fadas é provocar a reflexão sobre diversos assuntos. Contos de fadas não são histórias simplistas e bonitinhas. São obras complexas que trazem, numa linguagem acessível às crianças, todos os tipos de relações humanas que elas enfrentarão na vida, desde afetos e amores até os atos de violência, selvageria, ambivalência e demais pontos obscuros da alma humana. Os professores que sentem desconforto com estes contos deveriam ler a obra "A psicanálise dos contos de fadas", do psicólogo Bruno Bettelheim, que faz uma análise da importância destas histórias para a construção e desenvolvimento psicológico e social da criança.

Pude ver algumas entrevistas de políticos, sobre este caso, dizendo que é por conta do material didático "inadequado" que nossa educação escolar está muito mal. Eles esquecem de dizer que a escola vai mal porque os políticos não dão o devido valor à educação. Que os mesmos políticos não aprovam leis que determinem o investimento adequado nas escolas e nos profissionais da educação. Querem com este discurso apenas tapar o sol com a peneira.

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terça-feira, 13 de junho de 2017

"Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas". Rubem Alves e a escola sem partido.


É necessário que estejamos sempre relembrando os grandes pensadores do campo da educação no Brasil para a nova geração de pedagogos e professores. Principalmente neste período em que a educação e seus principais nomes são alvos de sórdidas campanhas difamatórias.

Nomes como do professor Anísio Teixeira, que foi um pioneiro na implantação do sistema público de ensino e via a educação como algo em constante processo de reconstrução para atingir a meta de formar homens livres e não homens dóceis. Paulo Freire foi nosso educador que atingiu maior prestígio internacional com a elaboração de sua pedagogia do oprimido, que busca a conscientização do aluno para que busque sua libertação da realidade opressiva em que vive. Outro importante  nome é o do professor Rubem Alves.

Rubem Alves era uma dessas pessoas que podemos dizer ser dono de um conhecimento enciclopédico. Além de escritor, também era psicanalista, educador e teólogo. Foi pastor luterano por muitos anos e, apesar da origem protestante, considerado um dos precursores da teologia da libertação. No campo educacional, sua visão sobre a função da escola pode ser sintetizada nesta bela frase que eternizou: "há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas".

Todos esses três grandes educadores brasileiros militavam em prol de uma educação que conferisse capacitação crítica aos alunos e  que desenvolvesse suas habilidades criativas e transformadoras. Além de defenderem a formação socioconstrutivista do processo de conhecimento.

Anísio Teixeira morreu de forma muito suspeita durante a ditadura militar. Paulo Freire e Rubem Alves forma perseguidos e se exilaram. Rubem Alves morreu a pouco tempo, em 2014, quando já vinha sofrendo por algum tempo com os efeitos do mal de parkinson.

Rubem Alves faleceu sem ter o desprazer de assistir aos grandes retrocessos pelos quais nossa educação vem passando. O atual movimento escola sem partido vai na contramão de nossa evolução no campo educacional. Sob o pretexto de uma suposta disciplina e ordem prega medidas que acabam engessando os alunos e tirando sua criatividade.  E acreditam numa educação tecnicista que prepara o aluno para o mercado de trabalho mas que não estimula sua capacidade crítica para uma vida transformadora. Os ideólogos da escola sem partido poderão conseguir que os alunos mantenham-se em forma durante os eventos cívicos, mas dificilmente os transformarão em cidadãos em toda sua plenitude.

Se o professor Rubem Alves estivesse vivo, provavelmente diria que a tal escola sem partido deseja transformar todas as escolas em gaiolas!

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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Nossos professores são formados com uma pedagogia para a terceira idade?

(Pintura em acrílico: Sérgio Prata)


Atualmente vemos uma enorme diversidade de material pedagógico voltado a preparar os professores para a geração que já nasceu digital. São muitas as discussões sobre a implementação das novas tecnologias no ensino, em formas do professor conseguir a atenção do jovem aluno que vive num universo multifacetado de informações e sobre arranjos mais dinâmicos em sala de aula. Ao contrário, vê-se poucas publicações e discussões sobre uma pedagogia específica para a terceira idade. 

Não estamos falando das experiências denominadas "universidade da terceira idade", que algumas instituições já realizam tem algum tempo. Pois estas experiências não são de cursos universitários propriamente ditos, mas somente de uma série de atividades no campus para que idosos se sintam motivados e entretidos. São palestras e pequenos cursos sobre saúde, conhecimentos gerais, dança. teatro, etc. Os profissionais destas atividades possuem uma boa instrução para este interação geracional. Contudo, nossa reflexão se dá no campo dos cursos normais de graduação dentro das universidades. Se estes professores da graduação estão pedagogicamente e psicologicamente preparados para a troca com alunos, às vezes, bem mais velhos do que eles.

Nos últimos 15 anos as universidades, notadamente as particulares, implementaram uma série de ações de marketing e políticas para motivar e receber alunos de maior faixa etária em seus cursos de graduação. Apesar da crise, ainda é comum algumas universidades anunciarem descontos para quem deseja realizar uma segunda graduação ou para o aluno acima de determinada idade. Havia, inclusive, instituições que conferiam o duplo desconto, para aqueles acima de tal idade e que já possuíam uma graduação. O aluno da terceira idade apresenta uma característica de permanência no curso muito maior que o jovem egresso do colegial. O idoso, na maioria das vezes, não sofre o conflito de mudar de curso no meio do caminho ou de abandonar por conta da pouca maturidade para se dedicar aos estudos.

Contudo, se por um lado a universidade tentou chamar para si o aluno mais velho, por outro lado a estrutura acadêmica e de atendimento ficaram muito "teen". Dificilmente você consegue um atendimento por um funcionário mais antigo na instituição que te detalhe sobre suas dúvidas. Geralmente, todo atendimento se encontra realizado por jovens estudantes recrutados como estagiários. E muitas vezes o atendimento quase que completo se dá por meio de plataforma digital, que dificulta e desmotiva gerações mais velhas que prezam pelo bom e antigo olho no olho. Acredito que paralelamente às formas modernas de atendimento deveria haver, ao menos, um pequeno setor de atendimento presencial com funcionários mais experientes. Muitos alunos de terceira idade acabam trancando o curso pela falta de um atendimento mais adequado às suas necessidades.

Mas a questão principal que desejamos abordar é relacionada à postura psicopedagógica dos professores em sala de aula. Eles estariam preparados para lidar com um aluno que muitas vezes é bem mais velho do ele próprio?

Como dito no início, existe pouco material relacionado a esta questão. E as próprias disciplinas pedagógicas nos cursos de licenciatura que abordam sobre a inclusão de alunos com necessidades especiais se esquecem de propor uma pedagogia própria para a terceira idade.

Irei, agora, me reportar a algumas impressões pessoais que tive ao realizar um segundo curso de graduação já depois dos meus 40 anos. Assim, farei da minha própria experiência como exemplo. Na década de 80 terminei o "segundo grau", que equivalia ao ensino médio naquela época, e ingressei imediatamente numa licenciatura e bacharelado em biologia ( naquele tempo se tirava os dois títulos no mesmo curso ) e um pouco por falta de adaptação e outro tanto por imaturidade tranquei pela metade e fui imediatamente para o curso de direito, no qual me formei com alguma tranquilidade. Muito tempo depois, com mais de 40 anos de idade, resolvi enfrentar e concluir uma segunda graduação na licenciatura em história.

Acontece que senti uma diferença muito grande no aspecto relacional dentro do processo ensino-aprendizagem  entre mim e os professores na experiência que tive após estar 'quarentão' para as que tive entre meus 17 a 25 anos. E também pude observar algo parecido com o que ocorria, nesta última experiência, entre professores e outros alunos de faixa etária mais elevada.

Em geral, parece que tive uma relação entre aluno e professor com muito mais troca e produtiva quando era aluno jovem do que quando fui um aluno mais velho.

Para exemplificar, nesta última experiência como aluno tive um professor que notoriamente possuía duas medidas a tratar com alunos. Quando um jovem fazia um questionamento durante a aula o citado professor sempre tentava aproveitar ao máximo o que foi dito pelo aluno para discorrer sobre o assunto. Por outro lado, na maioria das vezes que alunos mais velhos faziam colocações eram recebidos com maior rigidez crítica, quando o mestre sempre falava que se estava incorrendo em anacronismos e desqualificando a fala do aluno.

Esse mesmo professor, certa vez, durante aula de história medieval, falou sobre trebuchet, que, segundo ele, seria uma escadaria sobre rodas e protegida por paredes que era empregada em invasões a fortificações no período medieval. Eu já havia lido algo sobre isto e fiz uma polida interrupção perguntando se não o trebuchet não se tratava, na verdade, de uma espécie da catapulta. Ele disse objetivamente que não e a aula transcorreu normalmente. Porém, eu sabia que trebuchet era uma espécie de "catapulta" e que a tal escadaria citada pelo mestre era uma "torre de assalto". Não sei se depois o professor pesquisou e encontrou o real significado. Ele não fez mais comentários a respeito. Contudo, dali em diante este professor estava sempre preocupado com qualquer coisa que eu estivesse comentando com qualquer colega ao lado durante as aulas. Ele literalmente parava a aula quando me via falando com algum colega e perguntava se eu tinha alguma questão. Inclusive, procurei evitar observações ou perguntas durante estas aulas. 

Ainda o mesmo professor, mais adiante, a frente de outra disciplina, estava discorrendo sobre movimentos feministas. Em dado momento, ele falou do episódio da queima de soutiens na "França do século XIX".  Neste momento, a aluna mais idosa da turma, perto de 70 anos, fez um reparo na fala do professor, dizendo que a queima de soutiens ocorreu no século XX nos EUA e que no século XIX as mulheres sequer usavam soutiens, mas espartilhos. O professor recebeu a correção feita pela aluna de forma quase que grosseira, cortando o que ela corrigiu como sendo algo que não vinha ao caso e continuou a aula. Pelo que percebi da dinâmica das aulas deste professor, se fosse uma aluna ou aluno jovem que realizasse essa interrupção e correção ele poderia até rir da sua falha e enaltecer a aluna.

Desta forma, para mim ficou evidente o uso de dois pesos e duas medidas conforme a faixa etária do estudante. Está certo que jovens e idosos têm suas diferenças. O jovem precisa de uma atenção motivacional especial, enquanto o outro é mais cascudo pela experiência e pode receber críticas mais fortes. Contudo, creio que o professor não pode errar a mão nesta distinção, pois pode acabar levando até o aluno mais experiente ao desinteresse na aula. 

Uma outra professora notoriamente não me dava a palavra quando tinha alguma dúvida no transcorrer da aula. Eu sinalizava que desejava a palavra e ela fazia um gesto que depois me daria a oportunidade e passava a aula toda e esquecia ou só dava a palavra ao final quando muitas vezes a pergunta já não cabia mais. Porém, com a maioria dos alunos  jovens ela passava a palavra imediatamente quando pediam.

No meu caso específico, o ponto máximo foi uma outra professora cuja disciplina era de "história da educação no Brasil". E logo na primeira ou segunda aula ela trouxe como tema a ordem jesuíta, que segundo a mesma tinha sido fundada por Santo Inácio de Loyola que era "francês". Assim que ela fez essa colocação oral e através de um powerpoint, na mesma hora ponderei se, na verdade, o fundador da companhia de jesus não seria espanhol. Ela afirmou que não. Então, eu ainda disse que analisando o nome se tratava de um nome hispânico. E ainda comentei que Inácio de Loyola seria um um ex militar que posteriormente a ferimentos de guerra se dedicou à vida religiosa. Ela também negou esta parte. Então, a aula transcorreu até o final. Na aula seguinte esta professora chegou a sala trazendo a notícia de que realmente ele era espanhol. Daí, perguntei sobre o fato dele ser militar. Isto ela continuou negando. Só que a partir daí a citada professora me elegeu como "inimigo" em sala. Qualquer tentativa minha de participação em aula era rechaçada de forma pouco gentil.

É bom salientar que enquanto aluno sempre tentei participar de forma rápida e objetiva, para não atrapalhar o andamento das aulas. Nunca concordei com alunos que desejam concorrer com o professor em sala de aula. Acho que este tipo de aluno precisa mesmo receber um certo gelo do professor para não ficar atrapalhando a aula todo o tempo e com falas longas, numa notória tentativa de chamar atenção e rivalizar com o docente.

Note-se, contudo, que neste curso havia como aluno um senhor que era o mais idoso do corpo discente. Tratava-se de uma pessoa de origem humilde e que notoriamente possuía uma educação formal mais deficiente. Por isso, ele apresentava dificuldades no cumprimento das tarefas. Porém, todos os professores, mesmos estes que citei acima,  eram super solícitos e atenciosos com aquele senhor. O que me leva a questionar se o problema em questão é realmente uma deficiência pedagógica voltada para a terceira idade ou se trata meramente de suscetibilidades do ego. 

Os cursos de graduação, em especial na área de humanas, sempre colocam a necessidade de se desenvolver a capacidade crítica dos alunos. Contudo, parece que muitos professores que repetem o discurso da capacitação crítica possuem uma prática bem limitada sobre este tema. E, talvez, por isso, permitam uma maior participação dos jovens, que supostamente seriam mais "controláveis" pelo docente, ao passo que se mostram refratários a alunos mais experientes e que possuem um cabedal de outros cursos e especializações permitindo uma base mais sólida para o exercício do diálogo crítico.

Seja qual for o fator determinante para os exemplos que descrevi acima, ocorre que no curso de licenciatura percebi que não havia, nas disciplinas pedagógicas, material mais especializado para o exercício da docência voltada para a terceira idade. Não sei se ocorre o mesmo no curso de pedagogia. Certo é que representa um nicho cuja literatura é muito escassa.

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