domingo, 23 de abril de 2017

Pela Obrigatoriedade das disciplinas humanas (história, sociologia e filosofia) em todos os cursos superiores.






Temos visto exemplos partindo de várias turmas de formandos, em diversos cursos, no sentido do péssimo preparo que este pessoal teve no sentido de construir uma mentalidade cidadã. A última novidade foi a de várias turmas de pretensos ginecologistas realizando poses fotográficas que podem ser interpretadas como uma violência simbólica contra as mulheres. Justo contra as suas futuras clientes. A motivação pela medicina sempre deve ser na orientação da prestação de socorro à vida humana e isso não combina com essa visão desrespeitosa. Até por isso, a medicina sempre foi um pouco que comparada ao sacerdócio.

Por outro lado, o discurso das universidades sempre foi o de formar mais do que meros técnicos com capacidade de ganhar a vida em determinada área de conhecimento, mas a de formar futuros cidadãos. E cidadania compreende uma leque de valores muito maior que a simples venda do seu conhecimento através da prestação de serviço.

Há quem diga que o problema é unicamente de foro ético. Contudo, ética é uma disciplina que já consta da grade desses alunos. De forma que entendemos que falta a todos eles uma formação humanística para que aética possa ser algo que flua naturalmente de suas ações e não apenas um código que estipula ações que devem ser evitadas para que não sejam alvo de futuras penalizações pela entidade de classe.

Assim,. acreditamos que o atual governo vai no sentido contrário das atuais necessidades do nosso corpo discente. Ao revés de tirar a obrigatoriedade das disciplinas do grupo das humanas da grade do ensino médio, deveria fazer o contrário. Manter história, sociologia, geografia e filosofia na grade obrigatória dos colégios e colocar urgentemente essas disciplinas em todos os cursos superiores do país.

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sábado, 22 de abril de 2017

A Marcha pela Ciência contra a globalização da mediocridade.






Hoje, dia 22 de abril, comemora-se o "Dia Internacional da Terra". Neste mesmo dia, cientistas de vários países combinaram um movimento em conjunto que já está batizado como "A Marcha pela Ciência". Que busca uma revalorização da ciência e de seus profissionais em um horizonte tão conturbado pela política mundial. 

Vivemos uma nova época obscurantista. Os discursos de ódio vão encontrando solo fértil nas mais diversas paragens. A política não visa o bem comum, mas abertamente os interesses de poucos em detrimento de muitos. 

Tão pouco as narrativas religiosas têm conseguido trazer paz e harmonia a um mundo tão desigual e prestes a naufragar como o grande Titanic. Poderia a ciência trazer as repostas que tanto necessitamos neste momento ? Não sabemos. O que fica patente é que a ciência também foi tragada pelo grande capital e a necessidade de gerar lucros.

Houve uma época em que acreditamos que a revolução científica significaria um futuro mais próspero e confortável para todos. Isso não aconteceu por conta da lógica do lucro desmedido. Cada nova tecnologia acabou sendo instrumento para agravar as diferenças sociais.

Embora pessimista, espero que a "marcha" sirva não somente para que governos se sensibilizem e voltem a valorizar a pesquisa científica. Notadamente no Brasil, onde cada crise significa cortes de verbas na pesquisa e na educação. Aqui a pesquisa não é vista como investimento. Mas que sirva para que os próprios pesquisadores olhem sua atuação sob uma nova perspectiva. Por uma ciência mais pelo social do que pelo capital !

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sexta-feira, 21 de abril de 2017

O quarto de Jack e a inversão do mito da caverna.



O filme "O quarto de Jack" é uma adaptação para o cinema da obra literária homônima da autora irlandesa Emma Donoghue. O filme foi lançado em 2015 e ganhou o oscar de melhor atriz para Brie Larson, que interpretou o papel de Joy, mãe de Jack, que por sua vez é interpretado pelo ator mirim Jacob Tremblay. O enredo conta a história do menino Jack que nasceu e viveu, até os cinco anos, sempre dentro de um pequeno quarto de 7m2. Ocorre que Joy, quando tinha 17 anos de idade, foi raptada por um indivíduo que a deteve em cativeiro (o quarto) por vários anos. O pequeno Jack nasceu de relações que o raptor mantinha com Joy. Jack ficou preso dentro do quarto com sua mãe desde o nascimento.

No quarto não havia janelas e Jack conhecia o mundo apenas através de uma televisão e do que sua mãe contava. Para não angustiar o menino, Joy contou que o mundo se resumia às paredes daquele quarto. Que atrás das paredes havia o nada ou o espaço e que a televisão era como uma tela mágica que mostrava o que acontecia em outros mundos.

Jack estava perfeitamente adaptado àquela falsa realidade. Ele se sentia muito confortável naquele pequeno cubículo. Inclusive, enquanto os personagens estão presos no quarto, a direção do filme optou por gravar num quarto de dimensões bem maiores do que os parcos 7m2, para mostrar a percepção do espaço através dos olhos de Jack. Mais tarde, quando conseguiram fugir do cativeiro e, depois, o menino resolveu revisitar o lugar, Jack acaba estranhando o local, que agora parece muito menor.

A tela do aparelho de televisão foi o principal vetor na formação do menino durante os anos aprisionado. Jack acreditava que as "mágicas" que aconteciam nos filmes eram possíveis, que os desenhos animados existissem nalgum outro mundo e que os estereótipos apresentados eram verdadeiros. Um dia, quando uma folha caiu na claraboia que havia no teto do quarto, Jack não conseguiu acreditar que se tratava de uma folha, como contou sua mãe, pois a folha na claraboia estava seca e as folhas da televisão eram sempre verdes.

Porém, o conforto de Jack se dilui quando chega aos cinco anos de idade e sua mãe crê que ele já possui idade suficiente para entender a verdade e, até, ajudar num plano de fuga. Quando sua mãe revela que há muito mais atrás das paredes do quarto o pequeno menino não acredita, fica irritado e se volta momentaneamente contra Joy.

A estória em "O quarto de Jack"  dialoga muito de perto com o "mito da caverna",  que corresponde a um tipo de "parábola" criada pelo filósofo grego Platão, entre várias outras que criou, para simplificar alguns de seus sistemas de pensamento quando ensinava na sua academia em Atenas.

Em "o mito da caverna", Platão descreve uma situação onde algumas pessoas se encontram aprisionadas, desde o nascimento, por correntes no interior de uma caverna e de costas para a saída da mesma. De forma  que conheciam o mundo exterior apenas pelas formas das sombras que eram projetadas na parede dos fundos da caverna. Certo dia um dos prisioneiros se liberta e vai explorar o mundo exterior e, posteriormente, volta para contar aos seus companheiros de cativeiro a realidade das pessoas, plantas e animais que eram conhecidos por eles apenas por meio das sombras. Porém, seus colegas não aceitam sua narrativa, pois acreditam apenas na realidade projetada pelas sombras e se voltam contra ele.

Para Platão, todos nós estamos aprisionados dentro de alguma caverna. Ela corresponde ao conjunto de valores aos quais nos apegamos para ver e interpretar o mundo ao redor. A própria cultura, na qual estamos inseridos, constrói as paredes de nossa caverna particular. Somente através do discernimento de que é necessário nos afastarmos de nosso sistema de crenças para analisar um determinado fato com imparcialidade, para chegar à realidade, é que saímos da caverna. E, para tal, a filosofia é ferramenta essencial.

O personagem Jack conseguiu realizar esta passagem de dentro para fora da caverna. Nasceu de novo, como sugere a maiêutica socrática. No início, ele se revolta contra a mãe que desconstrói as suas crenças, mas depois absorve os novos conceitos e ajuda, com sucesso, na fuga do quarto.

Curiosamente, hoje em dia vemos um movimento reverso em relação à caverna, As pessoas andando pelas ruas e não enxergam nada além da tela de sues smartphones. Numa escola que passei havia duas alunas tímidas que ficavam isoladas durante o recreio, mas que conversavam entre si através dos celulares, ainda que estivessem uma ao lado da outra! A internet, que pode ser uma ferramenta de conhecimento, está se tornando mais um elo das correntes que nos aprisionam a todo tipo de discurso extremista. Como diz o professor Cortella, a maioria não navega na internet. Eles naufragam! 

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quinta-feira, 20 de abril de 2017

A Escola como espaço de formação capitalista. Pequenas crianças & Grandes negócios.






Um colega publicou numa rede social a foto de material didático que visa orientar crianças de 8 anos, do ensino fundamental I, no sentido de formarem desde jovens uma mentalidade empreendedora como projeto de vida. (A foto enviada do citado livro didático encontra-se no final deste texto)

Não li o material, por isso não posso realizar uma crítica do conteúdo, somente da proposta veiculada no título da obra para inclusão da disciplina em sala de aula. Disseram que o conteúdo traz temáticas que lembram um pouco a antiga "moral e cívica" e dinâmicas que fomentariam a iniciativa e criatividade das crianças. 

Toda forma de incentivar a criatividade das crianças é jovens é muito bem vinda. Porém, preocupa se existir, por trás das boas intenções, um viés político e ideológico. Pode-se tentar orientar a formação de uma geração pouco preocupada com as questões sociais, sem uma percepção de alteridade. Uma geração que veja a meritocracia como única fórmula social a ser perseguida.

A forma como essa discussão vai ser desenvolvida, ainda na infância,. pode levar à criação de uma população alienada quanto aos seus direitos e, principalmente, aos direitos dos próximos. Pois, se o meu projeto de vida depende unicamente do meu mérito empreendedor pessoal, não há que que eu possa cobrar de ninguém. Menos ainda exigir dos governos que façam uma política social adequada às necessidades da maioria da população. Mentalidade que viria bem a calhar quando se tenta excluir políticas sociais, trabalhistas e previdenciárias através de terceirizações e da pejotização.

Interessante, que por conta dos cabelos brancos, posso testemunhar mudanças sociais que afetam o universo infantil. As crianças em décadas atrás eram notavelmente criativas. Usavam botões de paletós para jogar futebol de mesa. Com madeira e alguns pregos construíam um pequeno campo de futebol em tabuleiro. As brincadeiras de bonecas simulavam a vida adulta em inúmeros detalhes. Uma capa e um cabo de vassoura era, muitas vezes, os objetos necessários para encenar os contos infantis. E poderia listar exemplos por muitas laudas. Atualmente, quanto mais o mercado de consumo invadiu o campo infantil, mais tolhido ficou este horizonte criativo. Necessita-se da troca constante de tecnologias para manter as brincadeiras e jogos atuais. O mercado de consumo substituiu a criatividade.

Por isso, fica a pergunta se não seria mais interessante um material que incentivasse a solidariedade e a fraternidade nesses primeiros anos da vida escolar.

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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Luta de classes estereotipada no filme "Setembro em Shiraz".


Esta semana a tv fechada iniciou a exibição da película "Setembro em Shiraz". Tendo Adrian Brody e Shohreh Aghdashloo estrelando como protagonistas da estória. Mostra as agruras de uma família judia de classe alta iraniana, moradores na cidade de Shiraz ( que também pode ser grafada como Xiraz ou Chiraz), à época dos acontecimentos que desencadearam a revolução iraniana. O título do filme provavelmente faz uma referência à sexta feira negra, ocorrida em 8 de setembro de 1978, quando o regime do Xá perpetrou um massacre, através do exército, contra os opositores.

O ator Adrian Brody, diga-se de passagem, deve estar resgatando algum tipo de carma cinematográfico ainda não catalogado pelos nossos amigos kardecistas. Pois através de sua trajetória cinematográfica já foi perseguido pelos cruéis nazistas, por um gorila ciumento gigante e, agora, por revolucionários islâmicos ferozes.

O recorte histórico em tela compreendeu a convergência de múltiplos fatores; ou seja, a revolução iraniana foi resultado de um leque multifacetado de motivações que, num dado momento histórico, se convergiram a favor da liderança religiosa do aiatolá Khomeini. Este foi contrario ao, então, governo dos Xás, na época comandado pelo Xá Reza Pahlevi.

Entre os diversos fatores envolvidos na revolução iraniana podemos elencar fatores políticos, religiosos e culturais. A questão política, com a mudança do regime, caindo a monarquia que foi substituída por uma república islâmica. Destaque-se a importante questão religiosa que envolveu este processo, levando o país para uma teocracia. Ainda a tensão no campo da identidade cultural, com a ocidentalização na cultura e costumes por conta da aproximação com os Estados Unidos e Europa promovida pelas políticas do governo monárquico. Por fim, não menos importante, o fator econômico e social que teve na "revolução branca", uma suposta modernização imposta pelo Xá Reza Pahlevi, a desastrosa consequência de arruinar a vida de milhões de camponeses, que precisaram abandonar os campos e migrar em direção às grandes cidades onde houve um intenso processo de favelização.

A visão hollywoodiana de "Setembro em  Shiraz", entretanto, quase que resume este contexto, através da narrativa das falas dos personagens, à questão socioeconômica, com a luta entre classes ocorrendo em meio à revolução. É verdade que no cinema a narrativa não se dá apenas pela oralidade dos personagens. Há uma diversidade de elementos cenográficos propondo narrativas paralelas aos textos das falas. Através da observação destes diversos elementos cenográficos, outros fatores, além do social, são sugeridos ao telespectador mais atento. Por exemplo, logo no início do filme, a festa promovida pelos personagens de Adrian Brody e Shohreh Aghdashloo, em sua pomposa casa, com música de discoteca americana e a postura dos costumes destes personagens e seus convidados, como suas roupas mais "modernas", contrastam com a postura e vestimenta da empregada da casa, que se apresenta de forma mais recatada, indicando as tensões nos costumes entre a população mais apegada aos preceitos religiosos e a elite com maior abertura ao ocidente. Da mesma forma, o pronome de tratamento - irmão - utilizado entre os personagens ligados à revolução denota a forte presença da questão religiosa no processo revolucionário. A política é rapidamente mencionada quando, na prisão, o personagem de Adrian Brody é torturado e interrogado sobre suas supostas relações com o Xá. Porém, o que fica mesmo marcado como justificativa da trama é o enfrentamento entre classes. Sequer o fato de se tratar de uma família judia em meio a uma revolução em país de ampla maioria islâmica se torna um argumento notado.

De fato, a degeneração do tecido social com grande pobreza e altíssimas taxas de inflação foi o principal combustível da revolução.  Esta foi a conjuntura que levou o povo a formar junto aos revolucionários. Não há revolução sem o apoio popular. O apelo popular cria o ambiente para que forças distintas estejam lado a lado na primeira fase da revolução iraniana. Nesta fase, intelectuais islâmicos de esquerda, setores liberais e religiosos fundamentalistas se uniram contra a monarquia de Reza Pahlevi. Num segundo momento, os aiatolás tomam o poder, quando há o afastamento entre esses grupos políticos.

Desta forma, não há problema quando o filme torna a questão social o argumento central do desenvolvimento da trama. Sequer o ambiente de violência seria de se criticar, pois como já disse o historiador Leandro Karnal, em uma de suas muitas palestras, a violência é intrínseca aos processos revolucionários. A manipulação  ocorre quando os principais personagens da trama que sustentam, de início, uma narrativa de luta por justiça social, depois se revelam de moral duvidosa. Fica evidente que agem contra os personagens abastados por questão de revanchismo. Sugerindo a narrativa daqueles que não tiveram competência para se estabelecer e aproveitam a conjuntura para espoliar a propriedade dos que trabalharam duro para vencer na vida por seus méritos pessoais. E o casal que simboliza a elite passa por tudo com muita dignidade e, ao final, ainda mostram um grande gesto de generosidade para com a mãe daquele personagem que fazia o discurso social mas que agia sem princípios, ao doar sua mansão para ela. Este tipo de reducionismo imprime uma mensagem na mente dos telespectadores, que não possuem o conhecimento para fazer o discernimento histórico e crítico da narrativa, que tenta criminalizar o ativismo social.

A revolução iraniana foi uma das mais importantes revoluções populares da história da humanidade. Comparada à revolução francesa e russa, mas pouco estudada em nossas escolas e faculdades. O filme pode ajudar a levantar o debate e o interesse. Mas sempre com olhar crítico para as construções realizadas na tela.

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Referências bibliográficas:

Coggiola, Osvaldo. A Revolução Iraniana. 2.ed. São Paulo: Editora Unesp, 2008.

Demant, Peter. O Mundo Muçulmano.  3.ed. São Paulo: Contexto, 2011.



segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Elite que cogita abandonar o país.


Temos lido nos últimos dias, na internet, que alguns empresários teriam afirmado deixar o país caso Lula volte a vencer as eleições presidenciais em 2018.

Acho muito difícil este pessoal que fez fortuna dentro do país abandonar seus negócios para tentar a sorte em mercados muitas vezes mais competitivos e exigentes do que o nosso, como o caso dos EUA para onde a maioria deles deseja residir.

No caso de apresentadores de televisão que também são empresários, por exemplo, não faço a mínima ideia quais tipos de empresas possuem ou se são apenas investidores financeiros. Contudo, acredito que o viés midiático deles teria muita dificuldade de conseguir espaço na televisão norte americana para realizar seus programas. Lembrando, ainda, que o maior sucesso na televisão aberta brasileira, desse perfil de empresário midiático, tratou-se de uma simples imitação do programa original encabeçado pelo Donald Trump nos EUA.  Ou seja, em se tratando de Estados Unidos, foram apenas "o aprendiz" do Trump.

Por isso, comprar casa e residir na Flórida é uma coisa. Transferir sua base de negócios para lá e abandonar a galinha dos ovos de ouro brasileira é algo que duvido bastante. A elite quer viver nos estados unidos e se sentir um pouco americana, mas é aqui que ganham a sua fortuna.

Porém, não precisa do Lula vencer as eleições para essa  nata endinheirada de nossa sociedade postular residir na Flórida e viver seu "sonho americano". Isso já acontece à um bom tempo. Mas sempre deixam um dos pés no Brasil, para garantir a manutenção do território que abastece suas polpudas contas.

Grandes investidores, industriais, comerciantes e artistas milionários possuem casas nos melhores condomínios da Flórida. Por outro lado, nenhum deles abandona o Brasil como centro dos seus negócios. Vivem na ponte aérea. Há apresentadores famosos da tevê que residem por lá e viajam algumas vezes no mês para cá afim de gravar seus programas.

A realidade é que a maioria não conseguiria desenvolver nos EUA os negócios que já consolidaram aqui. Imagine uma famosa cantora e apresentadora infantil tentando investir para lançar um dos seus discos no mercado americano. Creio que seria jogar dinheiro fora, pois lá não são conhecidos do grande público e teriam imensa dificuldade de se tornarem famosos. Ainda mais tendo a competição dos artistas locais e mais o preconceito pelas origens latinas de terceiro mundo.

Pensemos, ainda, no caso de um grande empresário como Silvio Santos, dono de uma das maiores redes de televisão do país. O simpático patriarca do SBT possui sua casa em Orlando, porém jamais suscitou levar sua televisão para solo americano. Dos vários canais americanos podemos tomar a FOX como exemplo. Eles possuem uma estrutura tão forte que são capazes de produzir séries que são distribuídas simultaneamente para o mundo todo. É uma mega estrutura que tornaria a nossa vênus platinada uma empresa de pequeno porte. A televisão do baú, então, seria algo de fundo de quintal perto destas grandes do mercado audiovisual estadunidense.  

Por isso, eles compram suas casas nos chiques condomínios americanos mas não abandonam seus negócios e nem as aparições constantes na mídia brasileira. Os famosos, ainda que passem mais tempo fora, são figuras constantes na nossa imprensa de celebridades. É necessário que suas imagens continuem a circular fortemente dentro do país para manter as janelas de oportunidade.

Isto posto, quando um dos nossos milionários nacionais faz o discurso de que está morando fora mas mantém suas empresas no Brasil, gerando empregos para os brasileiros, trata-se mais da necessidade do que propriamente do nacionalismo. Desta forma, quando um desses bacanas diz que vai abandonar o Brasil, acaba não passando de blefe. Em nenhum outro lugar lograriam ganhar suas fortunas como aqui. Ainda amais na atual conjuntura política em que praticamente rasgatam a CLT precarizando ainda mais as relações de trabalho. Explorar os trabalhadores brasileiros nunca esteve tão fácil

Além do que, a fala deste personagem do nosso mundo midiático empresarial reforça a postura pouco democrática que estes setores da sociedade vêm historicamente demonstrando. Não se ameaça o país caso o seu candidato predileto perca o pleito. Há que se respeitar o resultado das urnas.

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domingo, 16 de abril de 2017

A nova hierarquia escolar e a precarização da universidade pública.



De tempos em tempos ocorre uma reorganização de setores sociais conforme vão evoluindo as alterações políticas e econômicas. No Brasil, em regra, essa nova organização é fruto do aprofundamento da concentração de riquezas e o consequente aumento do hiato social entre classes.

Neste sentido, podemos pensar, por exemplo, nas populações rurais, tanto os grandes donos de terra quanto o pequeno agricultor e o camponês sem terra. Era comum, até às primeiras décadas do século passado, em meados de 1920 e 1930, que boa parte das famílias dos abastados fazendeiros ainda morassem na região rural, nas majestosas sedes das fazendas. Conforme avançava para a metade do século, as famílias desses proprietários rurais se deslocam para as cidades, primeiro cidades de médio porte e, depois, para as capitais. Os filhos dos fazendeiros passariam a frequentar os colégios mais tradicionais do país. Posteriormente, caminhando para as décadas finais do século XX, nos anos 80 e 90, acelerando após a entrada do século XXI,  essas famílias passam a dividir sua residência nas grandes capitais do país com casas adquiridas no exterior, na maioria em estados americanos como a Flórida. Esse movimento em direção aos Estados Unidos também é notado no seio familiar de grupos que auferem grandes lucros em outros ramos de atividades, tais como comercial, industrial ou artístico. Por outro lado, boa parte do campesinato sem terra e de pequenos proprietários que acabam engolidos pelos latifúndios, também realizam um movimento migratório para as grandes cidades brasileiras. Contudo, não aproveitarão os benefícios dos grandes centros urbanos. Seus filhos não frequentarão os caros colégios da capital. Esse exército de mão de obra expulso do campo irá adensar as grandes favelas brasileiras.

Desta forma, o campo educacional também foi se reorientando segundo as novas demandas advindas destes movimentos populacionais gerados pelos novos contextos econômicos. Os caros e tradicionais colégios fundados nas principais cidades do país  vieram atender a esta demanda de famílias com grande capacidade financeira concentrada nas melhores cidades e, também, para os filhos de uma classe média mais qualificada geralmente proveniente da burocracia pública. Um grande investimento foi realizado para a construção de universidades públicas de excelência, nas capitais, que atenderiam à demanda desses jovens afortunados A rede escolar pública se organizou para atender à baixa classe média e às camadas mais pobres da população. Para estes, o nível universitário era um sonho distante.

Atualmente, começamos a presenciar uma nova configuração do sistema tomando forma, com mudanças rápidas em todos os níveis da educação.

Surgem, no Rio de Janeiro e São Paulo, colégios estrangeiros, geralmente com sedes na Inglaterra ou EUA, voltados para a nata mais elitizada da nossa sociedade. Trazendo uma grade curricular compatível com a daqueles países e cobrando mensalidades astronômicas por aluno. A maioria das aulas são ministradas na língua inglesa. Dão aos seus alunos a possibilidade de realizar seus estudos colegiais parte no Brasil e parte no exterior, uma vez que as grades são compatíveis. E o mais importante, o objetivo destes jovens estudantes é de realizar sua formação acadêmica naqueles países. As futuras gerações dirigentes do Brasil sairão, muito provavelmente, deste leque de formandos nas universidades britânicas e americanas.

Neste ponto, entra o drama atual das universidades públicas brasileiras. Na época em que foram erigidas houve pesados investimentos para a formação de cursos de excelência porquanto o alvo era atender as necessidades das ricas famílias em dar uma formação de altíssimo nível aos seus filhos. Tanto que sempre foi sabida a dificuldade para um jovem de família pacata ingressar nos cursos das mais afamadas universidades do nosso país. Agora, por outro lado, como o recorte social mais abastado da sociedade está se preparando para tirar o diploma acadêmico no exterior, perde-se a original demanda por uma universidade pública de ponta. Afinal, os setores da alta classe média poderão pagar  por uma universidade privada. E, por isso, também estão surgindo diversos polos universitários privados com boa qualidade de ensino, além das já tradicionais universidades pontifícias da igreja.  As classes médias mais baixas e os setores pobres que desejarem um grau superior acabarão ou em universidades particulares de baixo padrão ou nas precarizadas universidades públicas.

Neste contexto, há que se dizer que poderá ocorrer um ou outro destino para nossas universidades públicas, Numa alternativa se manterão públicas mas com ensino precarizado e os professores passando por um processo de proletarização como já ocorreu com o corpo docente das escolas públicas. Noutra, a privatização das universidades públicas para concorrerem pelos alunos das classes médias mais abastadas.

Hierarquia parecida ocorrerá dentre os diversos equipamentos educacionais à disposição. Os colégios bilíngues estrangeiros recepcionarão o aluno do mais alto padrão financeiro. Os antigos colégios tradicionais acabarão voltados para as classes médias altas. A rede particular mais precária para a baixa classe média. E a rede pública para a grande população em geral e cada vez mais precarizada nas estrutura e no material humano.

Concluindo, o mais dramático que vemos diante deste quadro é a mobilização dos professores das escolas públicas gritando para travar esta engrenagem e exigir condições dignas para trabalhar e formar alunos aptos para o mercado e a vida cidadã. Algo que muitos professores das famosas universidades públicas ainda não conseguiram vislumbrar como um problema deles ou, que ao menos, bate à sua porta. A cereja do bolo é ver a atuação policial descendo a pancada nos professores. Professores, que ao final, estão brigando para oferecer uma educação decente também para o filho do policial. Em regra, os filhos dos policiais fazem parte do corpo discente dos colégios públicos. E o policial bate no professor que está pedindo melhores condições para a educação. No final das contas, o policial está batendo para que a educação continue nesta espiral de degradação e que seu filho não tenha a menor condição de realizar a famosa competição "meritocrática" na futura sociedade brasileira que se avizinha.

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